Joan Baez dá adeus aos palcos

Leio que Joan Baez deu adeus aos palcos no final de semana.

Fez em Madri o último show da sua turnê de despedida.

Está com 78 anos e não pretende parar de gravar.

Vi Baez ao vivo em março de 2014 e, nesse texto, tento falar um pouco sobre a minha emoção:

“Cantei essa música em Woodstock, cantei para Martin Luther King, cantei ao redor do mundo. Agora, canto para vocês”.

Foi o que Joan Baez disse antes de fazer Swing Low, Sweet Chariot para a plateia que lotou o Teatro Riomar, no Recife.

A fala traz a cantora e sua história para junto de nós numa noite mágica e inesquecível. Não mais a capella, como em Woodstock, agora com voz e violão, o spiritual pode resumir o que é ver Baez de perto. Grandeza e absoluta simplicidade. A sua dimensão projetada ali num concerto que dura pouco mais de uma hora.

A voz de soprano, já com registros menos agudos, mas igualmente bela. O violão com suas cordas de aço e uma sonoridade muito familiar. A mesma que ouvimos através das décadas do nosso tempo. E continuamos a ouvir. Depois de todos esses anos.

Vi Joan Baez a três dias da data em que o golpe de 64 completava meio século. A coincidência tem uma força simbólica. Ela é parte dos sonhos e das ideias generosas de uma geração. A impossibilidade de realizá-los torna ainda mais bonito o seu recital. É uma evocação. Nostálgica, sim. Melancólica, por que não?

Baez, sua voz, seu violão, dois músicos, 21 canções. Dos spirituals ao Vandré de Caminhando ou ao nosso Cálice, que os censores impediram Chico e Gil de cantar em 1973. De Dylan a Lennon. Do folk de lá ao folk de cá, em Muié Rendeira. Mais a latinidade de Gracias a la Vida, que remete a Violeta Parra, Mercedes Sosa e Elis.

Fiz com Joan Baez o que nunca havia feito em tantos anos de amor à música e de muitos shows ao vivo. Na reta final do programa, corri para a beira do palco e me pus a fotografá-la com o celular. Olhei nos olhos dela, contemplei as expressões do seu rosto e os movimentos da sua boca em Imagine e Blowin’ in the Wind. Também no spiritual Amazing Grace, feito a capella com as vozes de uma plateia emocionada.

Fui recompensado. Depois de abraçar um rapaz ao meu lado e de perceber que eu também queria, ela estendeu as duas mãos e apertou as minhas com força. Quando as soltou, olhou para mim, sorriu e repetiu o gesto. Entre um aperto e outro, a foto sem qualidade tenta eternizar o momento.

Mãos quentes e firmes. As dela. As minhas estavam geladas.

“Não acredito!”, foi tudo o que consegui dizer.