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Filme de Petra Costa é de esquerda. Texto de Astier Basílio é de direita

Na foto, de Gustavo Moura, o da esquerda sou eu, o da direita é Astier Basílio, o do centro – claro – é Ariano Suassuna. É julho de 2010. Na casa de Ariano, no Recife, fazendo entrevista para o Correio das Artes.

Li, cuidadosamente, o longo texto que Astier Basílio publicou no Estadão sobre o documentário Democracia em Vertigem, de Petra Costa.

Muito bem escrito. À altura de um grande jornal como o Estadão e do talento do jornalista.

Nos comentários que li no Facebook, constato que a pesquisa que resultou no texto impressionou muita gente.

Astier é bom nisso. Lê, confronta, discute, ouve vozes que divergem dele.

É meu amigo. Trabalhamos juntos. Conheço de perto. Por isso, fico à vontade para dizer algumas coisas. Na expectativa de que ele as receberá bem.

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Teatro, literatura, música, cinema.

Essas (e outras) expressões da criatividade e da inteligência do homem são todas parciais. Têm o cérebro, mas também o coração de quem, através delas, se expressa.

Petra Costa, a jovem diretora de Democracia em Vertigem, tem sido criticada por ter feito um filme – digamos – lulista. Ou por envolver a família dela na história. Ou por contar tudo na primeira pessoa. Ou, ainda, por usar filtros para deixar de fora alguns detalhes que poderiam ser importantes na narrativa.

É fato. Mas não são defeitos. Não há mácula nisso. São opções legítimas da realizadora.

Seu filme não é uma fantasia. É um retrato – formalmente muito bem tirado – de uma história real da qual somos todos testemunhas oculares.

As lentes – essas sim – são as de Petra, são as da perspectiva dela.

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Há 35 anos, quando vimos Jango e Cabra Marcado Para Morrer, algo que nos tocava naqueles documentários (o primeiro, de Sílvio Tendler; o segundo, de Eduardo Coutinho) era a parcialidade deles.

Era o fato de que eles estavam do nosso lado.

A ditadura militar vivia seus estertores, e os dois filmes dialogavam com os que sonhavam com a volta dos civis ao poder, com o início de um novo (e longo) ciclo democrático para o Brasil.

Jango (a despeito do contraponto que há no depoimento do general Muricy) e Cabra Marcado Para Morrer eram (são) filmes de esquerda.

Não é diferente com Democracia em Vertigem.

O documentário de Petra Costa é um filme de esquerda. Um tocante filme de esquerda. Oportuno nesse momento em que o Brasil é governado por um grupo de extrema direita.

O texto de Astier Basílio no Estadão, apesar de tão bem escrito, parece ter a assinatura de alguém a quem o filme incomoda.

Está identificado não com os que se colocam ao lado do campo democrático, mas com o que há de mais reacionário nesse Brasil governado por Bolsonaro.

Posso dizer que o forte sentimento antilulista que levou Bolsonaro ao poder está nas entrelinhas do texto de Astier? Talvez possa.

O filme de Petra Costa é de esquerda.

O texto de Astier Basílio é de direita.

Com esses olhos, vi o primeiro e li o segundo.