Bolsonaro com Deus e o diabo nessa terra (ainda) em transe

Claro que, em 2019, há poucos brasileiros interessados em conhecer os filmes de Glauber Rocha.

Desses, talvez alguns imaginem o quanto Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe são atuais.

Os que não sabem nem querem saber de Glauber Rocha, muito provavelmente não gostariam de seus filmes.

Nem – sejamos verdadeiros – teriam condições de entendê-los.

O tempo é de franquias, de super-heróis em cinemas de shopping.

Que me desculpem pelo uso dos clichês, mas nunca fomos tão alienados, tão colonizados, tão emburrecidos.

E, em breve, seremos piores.

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Há quatro dias, o presidente Jair Bolsonaro, embora não admita, desancou o Nordeste, a Paraíba e tratou o governador do Maranhão de forma nada republicana.

Nesta terça-feira (22), ao inaugurar o aeroporto de Vitória da Conquista, na Bahia, tentou convencer que ama o Nordeste e os nordestinos, mas, convenhamos, foi patético.

Com chapéu de couro na cabeça e dizendo que tem sangue de cabra da peste, só fez reforçar o preconceito com que nós, os nordestinos, por tantos somos tratados.

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Vitória da Conquista é a cidade onde, em 1939, nasceu Glauber Rocha, um dos cineastas mais importantes do Brasil.

Por isto, o aeroporto inaugurado nesta terça-feira se chama Aeroporto Glauber Rocha.

Bolsonaro foi lá entregar a obra, só que ela não é fruto do seu governo, mas, sobretudo, de gestões petistas.

Não deixa de ser irônico que, ao mesmo tempo em que quer ferir mortalmente o cinema brasileiro, o presidente Jair Bolsonaro inaugure um aeroporto que tem o nome de Glauber Rocha.

Coisas desse Brasil em permanente transe.