APOLLO 11/50: Louco por 2001

LOUCO POR 2001

Vi 2001: Uma Odisseia no Espaço em agosto de 1969, na estreia em João Pessoa, num Cine Municipal com sua plateia de 800 lugares lotada. O homem acabara de pisar na Lua.

Aos 10 anos, claro que entendi muito pouco desse filme extraordinário, mas saí da sessão completamente siderado. Penso que foi naquele dia que me apaixonei em definitivo pelo cinema, essa grande arte do século XX.

Por mais clara que hoje a sua narrativa possa parecer, 2001 é um filme enigmático, de perguntas sem respostas. Para ser degustado lentamente, contemplado. Visto como se o espectador estivesse diante de um grande quadro. Ou de alguns grandes quadros, porque não há uma história com começo, meio e fim, mas episódios interligados.

É um filme difícil de ser visto, chato, cansativo – dizem muitos dos que tentaram e nem conseguiram chegar ao final. Estão equivocados. Se você for colhido por toda a beleza de 2001, vê-lo será sempre uma experiência magnífica. Quadro a quadro, segundo a segundo – nada se perde, não há nenhum excesso, cada imagem e cada som compõem uma verdadeira obra de arte.

Stanley Kubrick, em cinco décadas de cinema, realizou somente 13 filmes. Era daqueles em que a qualidade se sobrepõe gigantescamente à quantidade. 2001 deve ser o ápice de sua trajetória. Marco do cinema, marco do gênero a que pertence (a ficção científica), evocação (agora que o tempo passou) de uma década turbulenta e inesquecível.

O ano de 1968 teve Paris. Nos Estados Unidos, mataram Luther King e Bob Kennedy. Havia Beatles e Rolling Stones. No Brasil, o golpe dentro do golpe. Violência ou não violência? É proibido proibir! O filme de Kubrick enriqueceu 1968. Mas o homem que estava na tela ia muito além daquele momento. Era um homem permanente, a própria humanidade com seus dilemas insolúveis.

O filme transformou o ano de 2001 em sinônimo de futuro. Kubrick não viveu para ver a sua chegada. Morreu em 1999. Seu parceiro, o escritor Arthur C. Clarke, viveu além de 2001. O futuro do filme é diferente do futuro que virou presente. O fim da Guerra Fria, tal como esta se configurava na década de 1960, deteve a corrida espacial e nos manteve com os pés na Terra.

O filme não está preocupado em nos excitar, mas em inspirar nossa reverência – disse de 2001 o grande crítico Roger Ebert. Ainda Ebert: “Nosso cérebro nos deu os instrumentos para entender onde vivemos e quem somos. Agora chegou a hora de dar o próximo passo, de saber que vivemos não num planeta, mas entre as estrelas, e de que não somos carne, mas inteligência”.

2001: Uma Odisseia no Espaço – com seus silêncios, suas poucas falas, sua música clássica, seus efeitos visuais – mudou o cinema. Mudou o jeito de fazer filmes. Mexeu com o olhar do espectador. Mexeu com a plateia do seu tempo. Atravessou mais de meio século, intocado. Que tal revê-lo agora, quando 2001 (o ano) já é passado?