As belezas e os mistérios de João Gilberto estão em três discos

A síntese da arte de João Gilberto, que morreu sábado (06) aos 88 anos, está em três discos lançados entre o final dos anos 1950 e o início da década de 1960.

Eles estão fora de catálogo por causa de problemas judiciais entre o cantor e a gravadora EMI, mas são encontrados fora do Brasil em edições não oficiais.

O primeiro LP de João Gilberto, Chega de Saudade, de 1959, é o disco mais importante da Bossa Nova. A música popular brasileira era uma e passou a ser outra depois dele. Suas 12 faixas nos apresentam à revolução estética promovida, principalmente, por João Gilberto e Antônio Carlos Jobim. O disco é do primeiro, mas não existiria sem o segundo, suas canções e seus arranjos.

A batida do violão, ouvida antes acompanhando Elizeth Cardoso em Canção do Amor Demais, e o canto contido de João redimensionaram o samba e projetaram a música do Brasil num cenário que seria transformado por ela. O que ouvimos naquele disco está presente em muito do que os artistas brasileiros produziram nas décadas seguintes. Influência que se estendeu pelo mundo, na Europa, Japão e, sobretudo, no jazz americano.

O repertório de Chega de Saudade reúne músicas de Tom Jobim e seus parceiros (Vinícius de Moraes na faixa que dá título ao disco, Newton Mendonça em Desafinado), mas também de autores que ficaram conhecidos através da Bossa Nova, como o Carlos Lyra de Maria Ninguém e o Roberto Menescal de Lobo Bobo. Compositor bissexto, João Gilberto assina Oba-lalá e o baião minimalista Bim Bom e relê duas fontes: o Ary Barroso de É Luxo Só e o Dorival Caymmi de Rosa Morena.

Ao LP Chega de Saudade, seguiram-se mais dois discos: O Amor, o Sorriso e a Flor, de 1960, e João Gilberto, de 1961. Os três me parecem suficientes como tradução do que foi a Bossa Nova. Seminais, formam um conjunto de excepcional beleza e grande unidade.

São tão indissociáveis quanto a fusão da voz de João Gilberto com a batida do seu violão.