JOÃO GILBERTO ESTÁ MORTO

João Gilberto morreu neste sábado (06) no Rio de Janeiro.

O inventor da Bossa Nova tinha 88 anos.

Ele morreu em casa.

João Gilberto (em caricatura de William Medeiros) ouviu Orlando Silva, os sambistas do Rio de Janeiro e os sambas de Dorival Caymmi. Ouviu também Chet Baker, estrela do cool jazz, artista de canto intimista que, para os americanos, está longe de ser tão importante quanto João é para nós, brasileiros. No início, muito antes da Bossa Nova, sua voz era como a dos cantores antigos, dizem os que o ouviram.

Em 1958, na gravação de Chega de Saudade, registro inaugural da bossa, está transformada: já tem a contenção que adotaria dali por diante, junto à originalíssima batida do violão. E tem o diálogo entre os dois elementos. Voz e violão, em avanços e recuos que embutiam uma revolução. A música brasileira depois de João atesta. O mundo todo reconhece.

Há um intervalo entre o período em que João integrava um grupo vocal de samba e o instante em que participa, em duas faixas, do disco Canção do Amor Demais, de Elizeth Cardoso. Naquele intervalo, inventou a batida da bossa e adotou um jeito de cantar diferente de tudo o que se fazia no Brasil.

Com Elizeth, acompanha a intérprete, ao violão, em Chega de Saudade e Outra Vez. Mas falta a voz. E o casamento dela com o instrumento. É o que ouvimos, pouco depois, no 78 rpm que traz Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, arranjada por Tom. A voz e o violão de João, elementos indissociáveis. Uma gravação de dois minutos. Um corte: o antes e o depois daquele disco.

Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo, Milton Nascimento, Roberto Carlos. Todos (e muitos outros) dirão onde estavam quando ouviram Chega de Saudade pela primeira vez. E falarão sobre o efeito devastador que aquela gravação teve na vida e na música deles.

A essência da invenção de João Gilberto está nos três discos que gravou na velha Odeon entre o final da década de 1950 e o início da de 1960. A releitura dos sambas anteriores à bossa, um pouco de Dorival Caymmi, algo de Ary Barroso e muito dos seus contemporâneos, sobretudo Antônio Carlos Jobim – é o que se ouve naqueles LPs, que não estão oficialmente disponíveis em CD por causa da briga judicial entre o artista e a gravadora.

Violonista de formação erudita, Turíbio Santos conta que uma vez tentou tocar como João Gilberto, pensando que era fácil. Não conseguiu. A batida que João criou é a síntese do samba e a sua reinvenção. A utilização dos baixos desaparece para dar lugar a uma mão direita que percute o ritmo, enquanto a esquerda oferece acordes dissonantes num refinado desenho harmônico.

A execução ilude o ouvinte e até o músico: ela parece simples, mas é muito complexa. A voz nem sempre se deixa guiar pelo instrumento que a acompanha. Ora está adiantada, ora atrasada, às vezes os dois se encontram. É misterioso, preciso, perfeito. É necessário entender este diálogo para que não se incorra no erro de diminuir o artista.

Os três primeiros discos na Odeon, o encontro com o saxofonista Stan Getz (em Getz/Gilberto), o LP de capa branca, que começa com uma versão inigualável de Águas de Março, e Amoroso são os melhores registros da sua arte sofisticada, retratos de um país com que sonhamos e não do Brasil que temos.

Numa conversa com Caetano Veloso, pedi que falasse de Tom Jobim e João Gilberto. Ele disse que a invenção deste deflagrou uma possibilidade que o talento daquele estivera até ali esperando e que o resultado faz da gente um povo com muitas responsabilidades. Pena que tantos ainda não compreendam o som e o silêncio produzidos por João Gilberto.