Meninos e meninas, conversei com Cazuza 30 anos atrás!

Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro

Transformam o país inteiro num puteiro

Pois assim se ganha mais dinheiro

Todo início de julho, lembro muito de Cazuza.

É que o aniversário de morte dele é no dia sete. Agora em 2019, já são 29 anos.

Lembro do quanto foi significativa, ainda que rápida, a sua passagem pela música popular do Brasil.

Lembro também que suas letras (sobretudo elas!) continuam aí, resistindo à ação do tempo.

Estamos, meu bem, por um triz

Pro dia nascer feliz

Pro dia nascer feliz

Estive com Cazuza uma única vez, quando ele cantou em João Pessoa no verão de 1989. Lá se vão três décadas.

Percorria o país com o show que a Globo registrou num especial e que foi lançado também em disco ao vivo (O Tempo Não Pára).

Estava muito magro, todos sabiam que tinha uma doença grave, mas ainda não assumira que era portador do HIV.

Fui ao Hotel Tambaú entrevistá-lo para o programa A Palavra É Sua, que era exibido nos domingos pela manhã na TV Cabo Branco. Costumávamos fazer em estúdio, mas, naquela semana, claro que abrimos uma exceção.

Assumi com a produção do artista o compromisso de que restringiria a conversa aos temas musicais. É que, naquele momento, a insistência de alguns jornalistas em abordá-lo sobre a doença dificultava sua relação com a imprensa.

A entrevista foi muito agradável.

Cazuza estava na piscina (ao lado do amigo Ezequiel Neves, seu parceiro e produtor) e gravou comigo numa mesa próxima. De sunga, camiseta sem mangas e boné.

Parceiros, rock’n’ roll, Bossa Nova, o êxito das suas canções, as diferenças entre poesia e letra de música, rock e MPB – estes foram os temas da nossa conversa.

Ele falou da influência que recebera de Caetano Veloso, cujo interesse pelo “passado da música popular” (usou essa expressão) lhe servira de parâmetro.

A menção ao nome de Caetano me remeteu prontamente a algo que Gilberto Gil me dissera três anos antes numa conversa sobre o rock brasileiro da década de 1980: que se via, jovem, em Herbert Vianna, e que via o companheiro de Tropicalismo, igualmente jovem, em Cazuza.

Era Gil me convencendo de que o rock brasileiro dos 80 era muito melhor do que eu imaginava!

Reproduzi o comentário de Gil, provocando uma alegria que Cazuza não disfarçou.

Mas fiquei triste no dia em que o entrevistei. O resultado jornalisticamente positivo do que gravamos não tinha importância alguma diante do quadro que vi: um artista jovem e talentoso consumido por uma doença devastadora.

Poucos dias após a entrevista, de passagem por Nova York, Cazuza assumiu que era portador do HIV. Fez a revelação a um repórter da Folha.

Sua agonia se estendeu até aquele sábado, sete de julho de 1990.

Quando morreu, tinha 32 anos.

Hoje, se estivesse vivo, teria 61.