Na minha infância, canção erótica era Je T’aime, Moi Non Plus

No Dia do Orgasmo, uma canção erótica.

Je T’aime, Moi Non Plus.

O autor, Serge Gainsbourg, gravou em dueto com a atriz Jane Birkin.

O registro é de 1969.

Pois é. Eu era criança e lembro bem do impacto.

50 anos depois, acho ingênua a canção.

No Brasil, foi incluída numa compilação chamada Super Eróticas.

Era preciso ter 18 anos para comprar o disco, envolto numa sobrecapa de plástico.

Bolsonaro falou tudo isso aí, e vocês acham que é normal?

Foi o presidente Jair Bolsonaro que falou tudo isso aí em menos de duas semanas.

Está em veículos da chamada grande imprensa, não em publicações de esquerda.

Apenas transcrevi.

Não vou comentar.

Pergunto somente se é adequado ao presidente da República.

Seguem as falas:

FOME NO BRASIL

“Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira. Passa-se mal, não come bem. Aí eu concordo. Agora passar fome, não. Você não vê gente pobre pelas ruas com físico esquelético como a gente vê em alguns outros países por aí pelo mundo”.

MIRIAM LEITÃO

“Ela estava indo para a guerrilha do Araguaia quando foi presa em Vitória. E depois (Míriam Leitão) conta um drama todo, mentiroso, que teria sido torturada , sofreu abuso etc. Mentira. Mentira”.

PARAÍBA

“Dentre os (ou aqueles) governadores de ‘paraíba’, o pior é o do Maranhão. Não tem que ter nada com esse cara”.

DADOS DO INPE

“Estão na mão do Ricardo Salles e do astronauta Marcos Pontes. Não temos medo da verdade. Agora, dados jogados para cima, para fazer onda, fazer ‘oba-oba’, aí não procede. Não podemos transmitir isso”.

PRISÃO PARA GLENN

“Eu teria feito um decreto porque quem não presta tem que mandar embora. Tem nada a ver com esse Glenn. Nem se encaixa na portaria o crime que ele está cometendo. Até porque ele é casado com outro homem e tem meninos adotados no Brasil. Malandro para evitar um problema desse, casa com outro malandro ou adota criança no Brasil. O Glenn não vai embora, pode ficar tranquilo. Talvez pegue uma cana aqui no Brasil, não vai pegar lá fora não”.

DESAPARECIMENTO DE FERNANDO SANTA CRUZ

“Um dia, se o presidente da OAB [Felipe Santa Cruz] quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, eu conto para ele. Ele não vai querer ouvir a verdade. Eu conto para ele”.

“Não é minha versão. É que a minha vivência me fez chegar às conclusões naquele momento. O pai dele integrou a Ação Popular, o grupo mais sanguinário e violento da guerrilha lá de Pernambuco, e veio a desaparecer no Rio de Janeiro”.

COMISSÃO DA VERDADE

“Você acredita em comissão da verdade? Qual foi a composição da comissão da verdade? Foram sete pessoas indicadas por quem? Pela Dilma. Nós queremos desvendar crimes. A questão de 64, não existem documentos de matou, não matou, isso aí é balela”.

MASSACRE NO PARÁ

“Pergunta para as vítimas dos que morreram no massacre de Altamira o que eles acham sobre reforçar a segurança no presídio”.

Joan Baez dá adeus aos palcos

Leio que Joan Baez deu adeus aos palcos no final de semana.

Fez em Madri o último show da sua turnê de despedida.

Está com 78 anos e não pretende parar de gravar.

Vi Baez ao vivo em março de 2014 e, nesse texto, tento falar um pouco sobre a minha emoção:

“Cantei essa música em Woodstock, cantei para Martin Luther King, cantei ao redor do mundo. Agora, canto para vocês”.

Foi o que Joan Baez disse antes de fazer Swing Low, Sweet Chariot para a plateia que lotou o Teatro Riomar, no Recife.

A fala traz a cantora e sua história para junto de nós numa noite mágica e inesquecível. Não mais a capella, como em Woodstock, agora com voz e violão, o spiritual pode resumir o que é ver Baez de perto. Grandeza e absoluta simplicidade. A sua dimensão projetada ali num concerto que dura pouco mais de uma hora.

A voz de soprano, já com registros menos agudos, mas igualmente bela. O violão com suas cordas de aço e uma sonoridade muito familiar. A mesma que ouvimos através das décadas do nosso tempo. E continuamos a ouvir. Depois de todos esses anos.

Vi Joan Baez a três dias da data em que o golpe de 64 completava meio século. A coincidência tem uma força simbólica. Ela é parte dos sonhos e das ideias generosas de uma geração. A impossibilidade de realizá-los torna ainda mais bonito o seu recital. É uma evocação. Nostálgica, sim. Melancólica, por que não?

Baez, sua voz, seu violão, dois músicos, 21 canções. Dos spirituals ao Vandré de Caminhando ou ao nosso Cálice, que os censores impediram Chico e Gil de cantar em 1973. De Dylan a Lennon. Do folk de lá ao folk de cá, em Muié Rendeira. Mais a latinidade de Gracias a la Vida, que remete a Violeta Parra, Mercedes Sosa e Elis.

Fiz com Joan Baez o que nunca havia feito em tantos anos de amor à música e de muitos shows ao vivo. Na reta final do programa, corri para a beira do palco e me pus a fotografá-la com o celular. Olhei nos olhos dela, contemplei as expressões do seu rosto e os movimentos da sua boca em Imagine e Blowin’ in the Wind. Também no spiritual Amazing Grace, feito a capella com as vozes de uma plateia emocionada.

Fui recompensado. Depois de abraçar um rapaz ao meu lado e de perceber que eu também queria, ela estendeu as duas mãos e apertou as minhas com força. Quando as soltou, olhou para mim, sorriu e repetiu o gesto. Entre um aperto e outro, a foto sem qualidade tenta eternizar o momento.

Mãos quentes e firmes. As dela. As minhas estavam geladas.

“Não acredito!”, foi tudo o que consegui dizer.

Filme sobre Jackson cumpre seu papel se for visto pelos jovens

O documentário Jackson, Na Batida do Pandeiro ficou pronto.

Do sonho à realidade, foram muitos anos.

Neste final de semana, dentro do festival que, em João Pessoa, celebrou o centenário do nascimento de Jackson do Pandeiro, o filme de Marcus Vilar e Cacá Teixeira chegou finalmente ao público.

O documentário começa e termina com a morte do artista.

A sua história é, portanto, contada através de um longo flashback. Funciona bem como elemento narrativo.

Não há voz em off fazendo a narração.

A trajetória de Jackson vai sendo montada através dele próprio e da extensa lista de pessoas que Marcus e Cacá entrevistaram para o filme.

Alagoa Grande, Campina Grande, João Pessoa, Recife, Rio de Janeiro, um pouco de São Paulo e, por fim, Brasília. Este caminho da vida de Jackson é o mesmo que o filme percorre quase sem fugir da cronologia dos fatos.

O documentário é didático sem ser didático.

Acho que Marcus Vilar o definiu assim.

Faz sentido.

Tem um papel didático a cumprir, mas sem a chatice dos filmes didáticos.

Jackson, Na Batida do Pandeiro tem a formação do personagem, a busca pelo sucesso, o auge da carreira, os anos de ostracismo, o resgate pelo Tropicalismo, as mulheres, os artistas que influenciou.

Traz tudo isso em cerca de 100 minutos.

Há depoimentos valiosos e números musicais arrebatadores.

Oferece um retrato expressivo desse grande artista genuinamente do povo.

Os que já passaram dos 50 anos – sobretudo esses – e têm Jackson como parte significativa da sua memória afetiva, certamente verão o filme com alguma nostalgia.

Nostalgia não só da música do homenageado, talvez do Brasil que produziu esses artistas.

Mas creio que o documentário será de fato importante e necessário se conseguir estabelecer algum diálogo com os jovens.

É preciso fazer coisas – o filme é uma delas – para que eles não passem ao largo do legado de Jackson do Pandeiro.

Larissa Pereira no Jornal Nacional confirma talento da âncora do JPB

O Jornal Nacional é o melhor, o mais completo e o mais importante noticioso da televisão brasileira.

Querelas ideológicas à parte, é isso mesmo!

O JN vai completar 50 anos em setembro.

Dentro da comemoração, uma novidade: durante algumas semanas, aos sábados, a bancada será ocupada por apresentadores e apresentadoras de emissoras que formam a Rede Globo.

O formato (inédito) amplia o diálogo com o jornalismo dessas emissoras e com o público dos seus estados, além de mostrar ao país inteiro talentos que são apenas locais ou, no máximo, regionais.

A seleção já foi feita e divulgada nesta quinta-feira (25).

A Paraíba será representada por Larissa Pereira, âncora do JPB2 da TV Cabo Branco.

Em março, Larissa sucedeu Edilane Araújo na apresentação do JPB.

A escolha dela para estar na bancada do JN confirma o talento da âncora do jornal noturno da TV Cabo Branco.

Ontem, Larissa Pereira era um misto de alegria e absoluta consciência da dimensão desse desafio.

Vida e morte da ursa Rowena falam do amor entre homens e animais

No zoológico de Teresina, ela era Marsha.

Marsha, que ficou conhecida como a ursa mais triste do mundo.

No santuário Rancho dos Gnomos, no interior de São Paulo, virou Rowena.

Rowena morreu nesta quarta-feira por causa de um câncer no ovário.

Tinha 36 anos.

Por 20, sofreu num circo.

Por sete, foi exposta a um calor excessivo no zoológico.

A transferência para o rancho ocorreu no ano passado a partir de uma campanha na web.

Lá, teve uma vida feliz por 10 meses.

Foi nela que Rita Lee se inspirou para escrever um livro infantil.

A história de Rowena fala da troca de amor entre os homens e os animais.

Filme de Petra Costa é de esquerda. Texto de Astier Basílio é de direita

Na foto, de Gustavo Moura, o da esquerda sou eu, o da direita é Astier Basílio, o do centro – claro – é Ariano Suassuna. É julho de 2010. Na casa de Ariano, no Recife, fazendo entrevista para o Correio das Artes.

Li, cuidadosamente, o longo texto que Astier Basílio publicou no Estadão sobre o documentário Democracia em Vertigem, de Petra Costa.

Muito bem escrito. À altura de um grande jornal como o Estadão e do talento do jornalista.

Nos comentários que li no Facebook, constato que a pesquisa que resultou no texto impressionou muita gente.

Astier é bom nisso. Lê, confronta, discute, ouve vozes que divergem dele.

É meu amigo. Trabalhamos juntos. Conheço de perto. Por isso, fico à vontade para dizer algumas coisas. Na expectativa de que ele as receberá bem.

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Teatro, literatura, música, cinema.

Essas (e outras) expressões da criatividade e da inteligência do homem são todas parciais. Têm o cérebro, mas também o coração de quem, através delas, se expressa.

Petra Costa, a jovem diretora de Democracia em Vertigem, tem sido criticada por ter feito um filme – digamos – lulista. Ou por envolver a família dela na história. Ou por contar tudo na primeira pessoa. Ou, ainda, por usar filtros para deixar de fora alguns detalhes que poderiam ser importantes na narrativa.

É fato. Mas não são defeitos. Não há mácula nisso. São opções legítimas da realizadora.

Seu filme não é uma fantasia. É um retrato – formalmente muito bem tirado – de uma história real da qual somos todos testemunhas oculares.

As lentes – essas sim – são as de Petra, são as da perspectiva dela.

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Há 35 anos, quando vimos Jango e Cabra Marcado Para Morrer, algo que nos tocava naqueles documentários (o primeiro, de Sílvio Tendler; o segundo, de Eduardo Coutinho) era a parcialidade deles.

Era o fato de que eles estavam do nosso lado.

A ditadura militar vivia seus estertores, e os dois filmes dialogavam com os que sonhavam com a volta dos civis ao poder, com o início de um novo (e longo) ciclo democrático para o Brasil.

Jango (a despeito do contraponto que há no depoimento do general Muricy) e Cabra Marcado Para Morrer eram (são) filmes de esquerda.

Não é diferente com Democracia em Vertigem.

O documentário de Petra Costa é um filme de esquerda. Um tocante filme de esquerda. Oportuno nesse momento em que o Brasil é governado por um grupo de extrema direita.

O texto de Astier Basílio no Estadão, apesar de tão bem escrito, parece ter a assinatura de alguém a quem o filme incomoda.

Está identificado não com os que se colocam ao lado do campo democrático, mas com o que há de mais reacionário nesse Brasil governado por Bolsonaro.

Posso dizer que o forte sentimento antilulista que levou Bolsonaro ao poder está nas entrelinhas do texto de Astier? Talvez possa.

O filme de Petra Costa é de esquerda.

O texto de Astier Basílio é de direita.

Com esses olhos, vi o primeiro e li o segundo.

Bolsonaro com Deus e o diabo nessa terra (ainda) em transe

Claro que, em 2019, há poucos brasileiros interessados em conhecer os filmes de Glauber Rocha.

Desses, talvez alguns imaginem o quanto Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe são atuais.

Os que não sabem nem querem saber de Glauber Rocha, muito provavelmente não gostariam de seus filmes.

Nem – sejamos verdadeiros – teriam condições de entendê-los.

O tempo é de franquias, de super-heróis em cinemas de shopping.

Que me desculpem pelo uso dos clichês, mas nunca fomos tão alienados, tão colonizados, tão emburrecidos.

E, em breve, seremos piores.

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Há quatro dias, o presidente Jair Bolsonaro, embora não admita, desancou o Nordeste, a Paraíba e tratou o governador do Maranhão de forma nada republicana.

Nesta terça-feira (22), ao inaugurar o aeroporto de Vitória da Conquista, na Bahia, tentou convencer que ama o Nordeste e os nordestinos, mas, convenhamos, foi patético.

Com chapéu de couro na cabeça e dizendo que tem sangue de cabra da peste, só fez reforçar o preconceito com que nós, os nordestinos, por tantos somos tratados.

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Vitória da Conquista é a cidade onde, em 1939, nasceu Glauber Rocha, um dos cineastas mais importantes do Brasil.

Por isto, o aeroporto inaugurado nesta terça-feira se chama Aeroporto Glauber Rocha.

Bolsonaro foi lá entregar a obra, só que ela não é fruto do seu governo, mas, sobretudo, de gestões petistas.

Não deixa de ser irônico que, ao mesmo tempo em que quer ferir mortalmente o cinema brasileiro, o presidente Jair Bolsonaro inaugure um aeroporto que tem o nome de Glauber Rocha.

Coisas desse Brasil em permanente transe.

Quem teve Joaquim Nabuco não deveria ter Eduardo Bolsonaro!

A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil

Joaquim Nabuco

Estava aqui pensando num grande brasileiro, um grande nordestino, um grande pernambucano.

Joaquim Nabuco, homem do século XIX e do início do século XX.

Nabuco era formado pela histórica Faculdade de Direito do Recife.

Escritor, jornalista, político, abolicionista, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, diplomata.

Sim. Nabuco foi diplomata.

Foi embaixador do Brasil nos Estados Unidos.

Já pensaram?

No Brasil de tanto tempo atrás.

Que orgulho!

Um homem com o brilho intelectual de Joaquim Nabuco foi embaixador do Brasil nos Estados Unidos.

Hoje, mais de 100 anos após a sua morte, parece que vamos ter Eduardo Bolsonaro.

O que podemos dizer?

Que quem teve Joaquim Nabuco não deveria ter Eduardo Bolsonaro!

Esse texto com que fecho o post é de Nabuco e foi musicado por Caetano Veloso:

A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil.
Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte…
É ela o suspiro indefinível que exalam ao luar as nossas noites do norte.