Lucy Alves era Vira e Mexe. Lucy, agora só Lucy, é Mexe Mexe

Nesse vídeo, Lucy Alves toca Vira e Mexe.

Vira e Mexe é um número instrumental que está na antologia de Luiz Gonzaga.

Nesse outro vídeo, Lucy, que agora é só Lucy, canta Mexe Mexe.

Traz a total adesão da artista ao pop da moda.

Bolsonaro e Lula e Bush. Quem muito se abaixa, o fundo aparece

Vi Lula contar essa história numa entrevista, pouco antes da sua prisão, e achei muito interessante.

O presidente brasileiro participava de um desses encontros de chefes de Estado.

Lula estava numa mesa com o chanceler Celso Amorim e Kofi Annan, que era secretário geral da ONU.

De repente, houve uma grande movimentação no local.

Claro! Era Bush, o presidente americano, que estava chegando.

Celso Amorim ficou todo empolgado e propôs a Lula:

Vamos lá cumprimentá-lo!

Ao que Lula respondeu:

Calma, Celso! Ele está chegando e vai cumprimentar todos, do mesmo jeito que eu fiz. Não é porque ele é presidente dos Estados Unidos que será diferente. 

Dito e feito. Bush foi de mesa em mesa cumprimentar os chefes de Estado.

E sabem onde ele sentou? Na mesa de Lula.

Menos por Lula, a quem Bush ainda não conhecia, mais por Kofi Annan, pelo cargo que este ocupava na Organização das Nações Unidas.

Nos oito anos em que foi presidente, com Celso Amorim à frente do Ministério das Relações Exteriores, Lula foi respeitado internacionalmente pelo seu carisma, pelo seu talento político, pela política externa adotada pelo governo brasileiro.

Com Bush, a despeito das posturas ideologicamente muito distintas, soube construir uma relação que acabou ultrapassando os limites formais que há entre os presidentes de duas nações amigas.

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Lula, Bolsonaro, Bush, Nova York, Dallas, Brasil/Estados Unidos.

Nos últimos dias, tenho pensado em algo que o povo diz em sua sabedoria, com maior ou menor sutileza.

Aqui na coluna, vai ficar assim:

Quem muito se abaixa, o fundo aparece!

Submissão de Bolsonaro aos Estados Unidos envergonha o Brasil!

Papo rápido.

Quando li, de tão absurdo, achei que era fake.

Depois vi o vídeo.

Na sua fala durante homenagem que recebeu em Dallas, Bolsonaro diz:

“O BRASIL E OS ESTADOS UNIDOS ACIMA DE TUDO”. 

Acaba se atrapalhando na hora do “Deus acima de todos” e repete “o Brasil acima de tudo”.

A submissão do presidente Jair Bolsonaro aos Estados Unidos envergonha o Brasil!

Rick Wakeman, o mago dos teclados, faz 70 anos

Rick Wakeman faz 70 anos neste sábado (18).

No começo da década de 1970, tinha pouco mais de 20 anos quando ficou mundialmente conhecido. Ao mesmo tempo, era tecladista do Yes e fazia carreira solo.

Por uns trocados, também gravava acompanhando colegas (Elton John, David Bowie) tão jovens quanto ele.

Havia estudado piano clássico, mas trocara o conservatório pelo rock progressivo. Nos palcos e nos estúdios, exibia grande virtuosismo tanto no piano acústico quanto nos teclados eletrônicos.

No Yes, emprestou seu talento a um dos melhores grupos do rock progressivo. Mas teve seus excessos contidos pelos companheiros de trabalho.

Sozinho, fez do jeito que quis.

Megalômano? Exibicionista? Kitsch? Sim. Tudo isso. Mas por vezes irresistível.

Com o Yes, fez rock progressivo. Ajudou a formatar esse subgênero do rock. Longe do grupo, no qual entrou e saiu várias vezes, fez rock sinfônico.

Quando esteve pela primeira vez no Brasil, em meados dos anos 1970, era um músico muito popular. Quando voltou, no início da década de 1980, já havia sinais de declínio na carreira solo.

Rick Wakeman gravou muito. Dezenas e dezenas de discos. Errou mais do que acertou. Passou a viver menos do presente do que do passado.

Sua mais fiel assinatura? Três discos conceituais que estão muito bem guardados na memória de quem foi contemporâneo dos anos iniciais da carreira desse mago dos teclados.

The Six Wives of Henry VIII

Journey to the Centre of the Earth

The Myths and Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table

Bolsonaro termina o mandato? FHC falou em impeachment

Em 1974, quando Nixon renunciou à presidência dos Estados Unidos, eu tinha 15 anos.

O escândalo de Watergate foi meu primeiro contato com um processo de impeachment.

Em 1992, quando Collor foi derrubado por um impeachment, eu tinha 33 anos.

Da esquerda à direita, quase todos entenderam que era hora de encerrar a aventura iniciada na eleição de 1989.

Pensei que nunca mais testemunharia outro impeachment no Brasil.

Em 2016, quando Dilma foi derrubada por um impeachment, eu tinha 57 anos.

Um grande acordo político do centro para a direita tirou a presidente do poder.

Golpe parlamentar. Assim foi chamado.

A banalização do impeachment não é saudável para as democracias.

Precisamos eleger presidentes que governem, que cumpram os mandatos para os quais foram eleitos.

É uma regra básica, assim me parece.

Mas também precisamos saber escolher nossos governantes, levando em conta a experiência, a capacidade, o talento político, o programa de governo, etc.

Em 1989, havia indícios de que Collor não daria certo.

Em 2018, era óbvio que Bolsonaro não daria certo.

A sua eleição parece confirmar o que ouvi de Celso Furtado às vésperas da eleição de Collor: que as elites brasileiras são muito atrasadas.

Nesta quarta-feira (15), as ruas começaram a acordar em dezenas de cidades brasileiras.

Em Dallas, o presidente chamou os manifestantes de “idiotas úteis”.

Aqui, foi chamado de “idiota inútil”.

Também nesta quarta-feira, O Antagonista postou uma fala de FHC que chamou minha atenção.

Era sobre impeachment.

O ex-presidente disse:

“Eu, a princípio, não sou favorável. O custo é alto. Mas, às vezes, é inevitável.”

FHC foi senador, ministro, presidente da República.

Aos 87 anos, o sociólogo é um homem de grande experiência política.

FHC não fala de graça.

Bolsonaro faz a gente sentir medo do futuro!

Estamos com medo do futuro. Isso é inédito.

Gilberto Gil

Em 1964, quando a ditadura militar começou, eu tinha cinco anos.

Em 1985, quando terminou, eu estava com 26.

É muito ruim viver numa ditadura.

Hoje, olhando de longe aquele período, faço uma constatação: sob governos de exceção, eu sentia medo do presente, não do futuro.

O futuro traria a redemocratização. Havia essa expectativa. Era praticamente uma certeza.

Agora em 2019, com um governo de extrema direita chancelado por 58 milhões de votos, tenho mais medo do futuro do que do presente.

O presente parece ser o que restou do processo de redemocratização iniciado em 1985 com a volta dos civis à presidência.

Ainda estamos num estado democrático de direito, ainda temos liberdade de expressão, ainda dispomos das conquistas que vieram a partir da Constituição de 1988, etc.

Amanhã, ninguém sabe. Como no velho samba do jovem Chico.

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Vou fazer 60 anos daqui a um mês.

Nessas seis décadas, de JK a Bolsonaro, o Brasil teve 16 presidentes.

Naturalmente, por causa da pouca idade, não lembro nem de JK nem de Jânio nem de Jango.

Creio que à exceção do desastre chamado Collor, nos demais, mesmo nos piores, havia algo que está se perdendo velozmente em Bolsonaro.

Sim. Havia um discurso de construção.

Em Bolsonaro, o que há é um rápido, desordenado e despudorado processo de desconstrução.

Nesta terça-feira (14), vi o ministro Paulo Guedes dizer que a economia está no fundo do poço e tentar jogar a responsabilidade no Congresso.

Também nesta terça-feira, li, de um analista político que não é de esquerda, que, no quinto mês de governo, o presidente já vive a solidão do poder cercado apenas por bajuladores.

Enquanto isso, o Estadão prevê em editorial:

“Um grande fiasco pode marcar o primeiro ano de governo do presidente Jair Bolsonaro”.

Não é, portanto, conversa de quem está ficando velho:

Bolsonaro de fato faz a gente sentir medo do futuro!

Solha é artista que engrandece a Paraíba com seu talento

W.J. Solha faz aniversário nesta terça-feira (14).

São 78 anos desse admirável artista multifacetado.

Sigo com um pouco do que tenho de Solha na minha memória afetiva.

UM LIVRO

Meu pai tinha um amigo chamado Roberto Peixoto. Foi ele que levou Solha à nossa casa, em Jaguaribe. Os dois eram colegas no Banco do Brasil. Solha questionava a existência histórica de Jesus Cristo e queria escrever um livro sobre o tema. Embora ateu, meu pai não questionava. E tinha argumentos baseados nas muitas leituras que fez. Não só do Evangelho. Era astrônomo amador, e o visitante queria conversar sobre o caminho que o sol percorre a cada 12 meses. Meu pai discordou das teses de Solha sobre Jesus Cristo, mas gostou dele. Alguns anos mais tarde, sentiu o impacto de Israel Rêmora, o livro que ganhou o Prêmio Fernando Chinaglia. E tentou traduzir suas impressões num longo ensaio que nunca publicou.

UM FILME

Em 1975, Antônio Barreto Neto estava filmando um curta chamado A Guerra Secreta. Eu fazia as vezes de assistente de direção. Contava brevíssimas histórias de pessoas que se rebelavam contra o princípio da autoridade. Tema delicado num país que vivia sob governos de exceção. Solha era o filho que questionava a autoridade dos pais. Fazia pior: resolvia esganá-los na hora do café da manhã. Se é possível imaginar a mistura, a cena tinha algo de Pasolini e Peckinpah. Fomos filmar na casa de Solha. Os filhos dele eram duas crianças lindas que sentaram à mesa durante a filmagem. Mário e Vitória Chianca eram os pais. Havia uma discussão entre pai e filho, e a briga terminava em tragédia. A encenação pareceu real demais. Acredito que Mário e Vitória ficaram um pouco assustados com o que aconteceu naquela manhã.

UMA CANTATA

Muito depois das Ligas Camponesas e bem antes do MST, a Paraíba assistiu à luta pela terra em Alagamar. A década de 1970 estava terminando, e o Brasil vivia a abertura política do general Figueiredo. A redemocratização batia às nossas portas. A Igreja se envolveu no conflito. À frente, Dom José Maria Pires, figura extraordinária que por três décadas comandou o rebanho católico paraibano. A história foi contada numa peça musical que fundia o erudito com o popular. José Alberto Kaplan, um argentino que viveu e morreu na Paraíba, escreveu a música. Solha, o texto. Na estreia, o arcebispo fez um comentário inesquecível: que a Cantata Para Alagamar unia três homens chamados José. E falou das diferenças que havia entre eles. Dom José era cristão. Kaplan, judeu. E Solha não acreditava na existência de Jesus Cristo.

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Um livro, um filme, uma cantata. São pequenos retratos tirados a partir do que guardo na minha memória afetiva. Solha faz muitas outras coisas. É autor de teatro, artista plástico, já se envolveu com o mundo da propaganda, até com o sindicalismo. Solha engrandece a Paraíba com o seu talento.

Mautner reza a Jesus de Nazaré ao som dos tambores do candomblé

É preciso exterminar

A doença mental, física e assassina

Do racismo, do anti-feminismo

E do neonazismo

Jorge Mautner é judeu.

Jorge Mautner é filho do Holocausto.

Jorge Mautner é comunista.

Jorge Mautner é cristão.

Jorge Mautner reza para Jesus de Nazaré ao som dos tambores do candomblé.

Jorge Mautner quer que o mundo se “brasilifique” para não virar nazista.

Jorge Mautner é escritor.

Jorge Mautner é compositor.

Jorge Mautner é um homem culto.

Jorge Mautner faz da sua música um instrumento de difusão do seu pensamento rico e complexo.

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Muitos chegaram a Mautner através de Caetano Veloso.

Eu cheguei. Em 1972, quando ouvi o disco Para Iluminar a Cidade.

Mautner sempre correu por fora do sucesso, sempre ficou à margem.

A sua música é muito simples.

As letras me interessam mais.

Mas há um casamento eficaz entre as duas coisas.

Jorge Mautner é Jorge Mautner

Único.

Originalíssimo.

Tão lúcido e tão louco.

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Jorge Mautner está beirando os 80 anos.

Ele acaba de lançar um disco novo, de canções inéditas.

Não há abismo em que o Brasil caiba é o título.

Traz reflexões muito oportunas não necessariamente sobre, mas para o Brasil de hoje.

Elas se juntam a temas permanentes em Mautner.

O disco é dedicado à memória de Nelson Jacobina, seu parceiro por décadas.

Agora ele tem ao seu lado Bem Gil e os demais integrantes da banda Tono.

É um belo e produtivo diálogo de Mautner com músicos jovens.

Jorge Mautner é indispensável!

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Os versos em destaque lá em cima são da música Marielle Franco.

Bete Mendes, atriz e ativista, faz 70 anos.

Comecei o sábado (11) revendo Eles Não Usam Black Tie. Fazia tempo que não via.

A peça de Gianfrancesco Guarnieri é do final da década de 1950. Dos anos JK.

O filme de Leon Hirszman é do início da década de 1980. Dos estertores da ditadura militar.

Vinte e poucos anos separam um do outro.

Quando Hirszman filmou a peça de Guarnieri, o Brasil já vira as greves do ABC comandadas pelo jovem Lula.

O filme acabou sendo um retrato daquele momento histórico.

Mas as lutas nele inseridas atravessam o tempo, embora mudem de feição.

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Há muitos anos, estive com Bete Mendes nos bastidores de uma entrevista na TV Cabo Branco.

Conversamos sobre Black Tie e o cinema de Hirszman.

No filme, ela é Maria, a namorada grávida de Tião, que fura a greve e é posto para fora de casa pelo pai, Otávio, um dos líderes do movimento.

No teatro, Guarnieri era Tião. No cinema, Otávio.

Ao falar sobre a admiração que tenho por Bete, naquela conversa na TV Cabo Branco, não fiquei na ficção.

Fiz questão de ir para a vida real, mencionando a sua coragem ao denunciar, num evento diplomático durante o governo Sarney, o coronel Ustra, que a torturou quando foi presa pela ditadura no início dos anos 1970.

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Bete é assim.

Atriz e ativista.

Respeito muitíssimo as duas, que são uma só.

Bete conciliou os dois caminhos.

Fez dramaturgia sem nunca se afastar da militância política.

Chegou a ser deputada federal, foi constituinte.

Esteve em cena nas telenovelas e na vida política nacional.

Ficou sempre do lado das lutas democráticas. Nunca abriu mão disso.

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Neste sábado (11), Bete Mendes faz 70 anos.

Parabéns, Bete!

Um pouco do U2 para festejar o aniversário de Bono Vox

Bono Vox faz aniversário (59 anos) nesta sexta-feira (10), e eu vou de U2.

Um pouco do que acho da banda irlandesa.

O U2 (como o Who e o Zeppelin) é um power trio que acompanha um cantor.

Guitarra, baixo e bateria.

Sem o virtuosismo do Cream, o power trio clássico do rock, mas com uma coesão que é resultado dos muitos anos de carreira.

O topo das paradas inglesas foi alcançado em 1983, com War, o terceiro disco.

Em The Joshua Tree (1987), o grupo conquistou o mercado americano.

A inocência do pós punk ouvido no começo ficara para trás.

Depois do Joshua, o U2 estava definitivamente incorporado ao mainstream, com todas as virtudes e todos os defeitos das grandes bandas de rock.

O som do U2 deve muito a The Edge.

Ele esbanja talento e eficiência sem ser um virtuose da guitarra.

Tem estilo. E marcas de originalidade no manuseio do instrumento.

Se The Edge comanda o som, Bono Vox comanda tudo. Da música ao negócio.

A imagem, o engajamento nas causas nobres que afligem o planeta, o diálogo com líderes mundiais – Bono está à frente como artista e cidadão do seu tempo.

Gosto muito do U2 quando eles dialogam com a música americana em Rattle and Hum. Mas sei que não é o som deles. É busca de mercado.

Por razões diferentes, The Joshua Tree e Achtung Baby são discos muito festejados pelos fãs.

Pop é uma experiência estranha.

All That You Can’t Leave Behind é maduro em sua simplicidade.

O U2 é a mais sólida e importante banda de rock do seu tempo.

Alguém tem outra?