Jânio podia ser doido, mas tinha intimidade com o português

Bebo porque é líquido!

Se fosse sólido, comê-lo-ia!

Jânio Quadros

Eu tinha dois anos na renúncia de Jânio Quadros. Não lembro, portanto, da sua meteórica passagem pela presidência.

Mas acompanhei, adulto e jornalista, seu retorno à política.

Era uma figura folclórica.

Meio maluco?

Meio bêbado?

As duas coisas?

O fato é que ainda conseguiu ser prefeito de São Paulo, derrotando Fernando Henrique Cardoso em 1985, no momento em que as eleições para prefeitos das capitais foram retomadas.

Sua eleição para presidente, em 1960, foi uma aventura.

Sua renúncia, em 1961, parece ter sido uma tentativa de autogolpe que não deu certo.

Jânio podia até ser doido, mas tinha intimidade com o português.

Na juventude, fora professor e até publicara uma gramática da língua.

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Na presidência, a política externa de Jânio era ousada para tempos de Guerra Fria. Chegou a condecorar Guevara.

Mas seu governo tinha uma pauta de comportamento atrasada. Biquini, briga de galo, lança perfume, etc.

Internet? Redes sociais? Em 1961, nem na ficção científica!

Havia, porém, os bilhetinhos.

Como não tinha Twitter, o presidente usava bilhetinhos que enviava àqueles com quem queria se comunicar.

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“Fi-lo porque qui-lo”.

“Fi-lo porque qui-lo” teria sido a frase que Jânio pronunciou ao ser indagado sobre os motivos da sua renúncia.

Já imaginaram?

Presidente, porque o senhor renunciou?

“Fi-lo porque qui-lo”.

Simples assim?

Claro que não!

Conhecedor da língua portuguesa, Jânio jamais teria dito desse modo.

Quando era perguntado sobre o assunto, tratava de negar a autoria da frase e vinha logo com o modo correto.

Se tivesse dito, seria assim:

“Fi-lo porque o quis”.

Se disse ou não o “fi-lo porque o quis” para explicar a renúncia, aí já é outra história.