Cinema de Kleber Mendonça está entre o que há de melhor no Brasil

Antes de ver o cinema de Kleber Mendonça Filho, li a crítica de cinema que ele fazia no Recife. Texto impecável, leitura precisa dos filmes que via e em seguida comentava. Um cara que honrava a tradição da melhor crítica feita no Brasil em décadas anteriores.

Da crítica para a realização, trilhando o caminho que alguns, mas não todos, seguiram com absoluto êxito. Meu primeiro contato com o seu cinema foi através do curta Recife Frio. Admirável. Absolutamente promissor. A confirmar que Kleber migrava da teoria para a prática com total domínio de bola.

Estive com Kleber Mendonça no momento em que finalizava o longa O Som ao Redor. Na Livraria Cultura, ao lado de Jomard Muniz de Britto, ele participou de uma conversa sobre Cinema por Escrito, compilação das críticas de Antônio Barreto Neto, livro que lancei em 2010 na condição de organizador.

Em seguida, o impacto de ver O Som ao Redor. Grande filme, no nível do que há de mais importante no cinema contemporâneo, em qualquer parte do mundo. Saí do cinema siderado e assim fiquei por alguns dias. Experiência inquietante para o espectador, no fundo e na forma, O Som ao Redor é cinema autoral de um realizador que tem uma assinatura muito singular.

Após O Som ao Redor, Aquarius. O segundo longa de ficção reafirmava os méritos de Kleber Mendonça. E ampliava a percepção do espectador sobre o seu estilo, o seu modo de fazer cinema, a sua caligrafia. O diretor vencia o desafio do segundo filme depois de uma estreia memorável como fora a de O Som ao Redor.

Quando mostrou Aquarius em Cannes, em 2016, Kleber Mendonça e equipe protestaram contra a deposição da presidente Dilma Rousseff. A manifestação foi legítima, mas a sobreposição do filme a ela é mais importante – eu disse isso a Kleber numa conversa no backstage do show de Caetano Veloso, no Recife.

O Som ao Redor e Aquarius transmitem ao espectador a certeza de que estamos diante de um artista com absoluto domínio do seu ofício. Isso é cristalino em Kleber. É o que o coloca em pé de igualdade com realizadores que não precisam provar mais nada.

Neste sábado (25), Bacurau, o novo filme de Kleber Mendonça Filho (dirigido em parceria com Juliano Dornelles), não foi laureado com a Palma de Ouro, mas conquistou o significativo prêmio do júri do Festival de Cannes. A premiação é fundamental como afirmação do que o Brasil produz de melhor. Melhor ainda porque ocorre neste momento em que artistas e produtores culturais são perseguidos por um governo de extrema direita como é o do presidente Jair Bolsonaro.

Viva Bacurau!

Viva o cinema brasileiro!