O Nobel de Bob Dylan caberia muito bem em Chico Buarque

Chico Buarque venceu a edição 2019 do Prêmio Camões.

O anúncio foi feito nesta terça-feira (21).

O prêmio, um dos mais importantes da língua portuguesa, foi pelo conjunto da obra (literatura, teatro, poesia, canção popular, etc.).

O artista vai receber 100 mil euros.

Premiação justíssima para um dos grandes artistas do Brasil.

Um cara que nos orgulha imensamente, sobretudo com o seu cancioneiro.

Chico é um gigante no seu ofício.

O Nobel de Literatura concedido a Bob Dylan caberia muito bem nele.

Fecho a coluna com uma letra de Chico.

Mas qual? São tantas letras absolutamente extraordinárias que fica difícil escolher uma.

Mexendo na memória, fico com Rosa-dos-Ventos. É de 1970.

A letra traz palavras proparoxítonas fechando os versos (não todos).

Logo depois, em Construção, uma das suas obras-primas, Chico constrói uma letra genial em que todos os versos terminam com proparoxítonas.

Seria Rosa-dos-Ventos um ensaio para Construção?

Rosa-dos-Ventos

E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr
Mas sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão
E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão

Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito do rio fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar
Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar