Bolsonaro faz a gente sentir medo do futuro!

Estamos com medo do futuro. Isso é inédito.

Gilberto Gil

Em 1964, quando a ditadura militar começou, eu tinha cinco anos.

Em 1985, quando terminou, eu estava com 26.

É muito ruim viver numa ditadura.

Hoje, olhando de longe aquele período, faço uma constatação: sob governos de exceção, eu sentia medo do presente, não do futuro.

O futuro traria a redemocratização. Havia essa expectativa. Era praticamente uma certeza.

Agora em 2019, com um governo de extrema direita chancelado por 58 milhões de votos, tenho mais medo do futuro do que do presente.

O presente parece ser o que restou do processo de redemocratização iniciado em 1985 com a volta dos civis à presidência.

Ainda estamos num estado democrático de direito, ainda temos liberdade de expressão, ainda dispomos das conquistas que vieram a partir da Constituição de 1988, etc.

Amanhã, ninguém sabe. Como no velho samba do jovem Chico.

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Vou fazer 60 anos daqui a um mês.

Nessas seis décadas, de JK a Bolsonaro, o Brasil teve 16 presidentes.

Naturalmente, por causa da pouca idade, não lembro nem de JK nem de Jânio nem de Jango.

Creio que à exceção do desastre chamado Collor, nos demais, mesmo nos piores, havia algo que está se perdendo velozmente em Bolsonaro.

Sim. Havia um discurso de construção.

Em Bolsonaro, o que há é um rápido, desordenado e despudorado processo de desconstrução.

Nesta terça-feira (14), vi o ministro Paulo Guedes dizer que a economia está no fundo do poço e tentar jogar a responsabilidade no Congresso.

Também nesta terça-feira, li, de um analista político que não é de esquerda, que, no quinto mês de governo, o presidente já vive a solidão do poder cercado apenas por bajuladores.

Enquanto isso, o Estadão prevê em editorial:

“Um grande fiasco pode marcar o primeiro ano de governo do presidente Jair Bolsonaro”.

Não é, portanto, conversa de quem está ficando velho:

Bolsonaro de fato faz a gente sentir medo do futuro!