O homem que “matou” Paul McCartney morreu de verdade

O DJ Russ Gibb morreu aos 87 anos.

Há 50 anos, Gibb “matou” Paul McCartney.

A “morte” do beatle foi uma autêntica notícia falsa num tempo em que não se usava a expressão fake news.

17 de dezembro de 1969. A principal notícia daquela quarta-feira foi a morte de Arthur da Costa da Silva, afastado da presidência da República desde que sofrera um AVC. Eu tinha apenas 10 anos, e, na minha memória, a data está associada também a uma morte que não ocorreu. Foi criada por um DJ americano.

Ouvi a notícia dias antes no programa de rádio Diário Íntimo da Cidade. O jornalista Carlos Aranha contou todos os detalhes. O DJ Russ Gibb assegurava que o beatle Paul McCartney morrera num acidente de carro em 1966 e que um sósia assumira o lugar dele. As “provas”, segundo o DJ, estavam nas capas dos discos e nas canções dos Beatles. E eram fartas. A canção A Day in the Life, ouvida de trás para frente, reproduzia os sons do acidente, enquanto a depois célebre capa do LP Abbey Road encenava o cortejo fúnebre.

No programa radiofônico, Carlos Aranha tocou A Day in the Life de trás para frente. Como o fez manualmente, a rotação ficou instável. Meu pai fez tecnicamente melhor e levou a gravação para a emissora. Fui junto. Passei a noite na discoteca da rádio, maravilhado com o acervo, enquanto Aranha e meu pai falavam de política. No estúdio, ouvi o programa ao vivo. De um lado, a notícia da morte de Costa e Silva. Do outro, os sons da canção dos Beatles.

“Eu enterrei Paul” – diz John Lennon no meio dos ruídos de Strawberry Fields Forever. Só que o que parece “I buried Paul” é, na realidade, “cranberry sauce”. As “pistas” são muitas. Da decisão pelo fim das turnês à capa de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Da letra de A Day in the Life (“He didn’t notice that the light had changed”) à capa de Abbey Road. Sim, a capa de Abbey Road.

Na foto, John Lennon, vestido de branco, é o pastor. Ringo Starr, de preto, o agente funerário. A posição da mão direita sugere que ele está segurando o caixão. Paul McCartney tem os pés descalços e o passo trocado em relação aos outros. É o morto. E George Harrison, de jeans, o coveiro. Como a de Ringo, sua mão direita também segura o caixão.

A placa do Fusca branco estacionado na calçada é IF 28. “IF” é “se”, e 28, a idade que, se estivesse vivo, Paul teria alguns meses depois do lançamento do álbum.

O próprio Paul, em 1993, brincou com a lenda.

A capa de um CD gravado ao vivo traz uma foto dele atravessando a faixa de pedestres de Abbey Road. E o título garante: Paul Is Live.

Ninguém, com um mínimo de bom senso, pode acreditar nesta história da “morte” de McCartney, mas ela estará, para sempre, associada ao fenômeno Beatles. E, na nossa memória, está tão viva quanto Paul, que, em junho, vai fazer 77 anos.

Já o DJ Russ Gibb, este morreu de verdade!