Elton John virou um babaca em 1975 e esqueceu de parar

Elton John virou um babaca em 1975 e esqueceu de parar.

A frase não é minha.

É o próprio Elton John que diz mais ou menos assim num momento do filme Rocket Man:

Eu virei um babaca em 1975 e esqueci de parar.

Eu, que ouvi o artista antes disso, concordo com ele.

Depois comento o filme, mas hoje fico com MEU ELTON JOHN.

MEU ELTON JOHN

Em Empty Sky, o disco de estreia, Skyline Pigeon, na versão de harpschord, não fez sucesso. Só faria alguns anos mais tarde, na versão de piano. A faixa que dá título ao álbum soa um pouco como os Rolling Stones.

Em Elton John (LP de capa preta com o rosto do artista), surge um grande, mas breve, parceiro: o jovem arranjador e violoncelista Paul Buckmaster. Abre com Your Song, popularizada depois por Billy Paul. Minha predileta é Border Song, com seu clima gospel.

Em Friends, bela trilha de um filme menor, as melodias de Elton John, as letras de Bernie Taupin e os arranjos de Paul Buckmaster encantam o ouvinte.

Tumbleweed Connection foi o primeiro que ouvi. A voz e o piano soul, algo da balada beatle, country, gospel. My Father’s Gun. Amoreena, que Lumet usaria na abertura de Um Dia de Cão. Talking Old Soldiers.

Madman Across the Water tem canções lindas e melancólicas. Muitas cordas arranjadas por Buckmaster. Tiny Dancer, a primeira faixa, hoje está nas antologias, mas não fez sucesso na época. Levon é devastadora!

Honky Chateau. Enfim, o sucesso. Rocket Man. Honky Cat. Fico sempre com Mona Lisa and Mad Hatters, ouvida quase três décadas depois em Quase Famosos.

Don’t Shoot Me, I’m Only the Piano Player. Mais sucesso. Crocodile Rock. Daniel. E as cordas de Buckmaster em Have Mercy on the Criminal. O maestro diz adeus.

Mais sucesso ainda. Goodbye Yellow Brick Road. Um dos grandes discos duplos do rock. Muda a sonoridade, mas as grandes canções permanecem. Elton John é super pop.

O sucesso fez mal ao artista? Há quem pergunte. Não sei. Mas algo se perdeu. O fato é que aquele momento de excepcional criatividade permitido pelo frescor da juventude foi muito fugaz.

As canções de Elton John em seus primeiros anos – entre o tempo em que era desconhecido e o início do sucesso – são tão boas que até hoje elas predominam no set list dos seus shows.

Novo show de Gilberto Gil vem de belo disco com canções inéditas

Na próxima quinta-feira (06/06), Gilberto Gil se apresentará no Teatro A Pedra do Reino, em João Pessoa.

Ele vem com o show OK OK OK. 

A base do set list é o repertório do CD de canções inéditas lançado em 2018.

Para mim, o melhor disco de MPB no ano passado.

OK OK OK, a faixa que dá título ao disco, abre o repertório com uma resposta de Gil às cobranças que lhe são feitas. “E então, não vai se posicionar sobre a atual situação?” – coisas assim.

Vi num artigo alguém dizer que a letra é ambígua. Não me parece. Gil costuma olhar o mundo com riqueza e complexidade e não o faz de forma diferente quando o assunto é o Brasil e seus impasses.

OK OK OK  me remeteu a Metáfora, de 1982. Aqui, acolá, nas soluções melódicas. Sobretudo na letra. Deixem o poeta em paz. Ele diz tudo sem dizer nada.

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Há algum tempo, a morte se incorporou às conversas que tenho com Gil. Por causa da passagem dos anos, por causa das perdas que vão se acumulando.

Uma década atrás, ouvi dele uma lição que recebeu de Walter Smetak: todos os dias, é preciso tirar um tempinho para refletir sobre a inevitabilidade da morte. Pode não ser fácil, mas é importante fazê-lo.

OK OK OK, o disco, é uma grande conversa sobre a vida e a morte. Ao modo de Gil.

A doença grave que enfrentou em 2016, o envelhecimento, a família (após os filhos, os netos e bisnetos), os amigos, os colegas de ofício, os médicos, a ausência de Jorge Bastos Moreno (um “irmão” tardio) – tudo isso foi mexendo com o compositor. Foi se juntando para montar uma espécie de retrato que é esse primeiro disco da velhice, como Gil chamou OK OK OK.

É uma conversa serena. Uma conversa que é construída pelo conjunto das canções (12 + três bônus). Com essa serenidade e com a sabedoria que Gil foi acumulando ao longo da vida.

Musicalmente, tem o reencontro com João Donato (velho parceiro), o encontro com Yamandu Costa (exímio violonista), o diálogo profícuo com Bem, o filho músico, a quem se deve muito da sonoridade do disco.

Na hora de compor, Gil está afiado. É o Gil de ontem, o Gil de sempre, sem deixar de ser o Gil de hoje. É curioso como ele consegue ser o mesmo sendo outro. Como ele é perene e atual.

Esse disco começou num momento difícil, de doença, riscos e longas permanências no hospital.

Uma canção, outra, mais outra, aos poucos reveladas, ainda nuas, nas redes sociais.

Pronto, OK OK OK sobrepõe a vida à morte.

E reúne infinitas belezas para nós que amamos Gil.

Público de João Pessoa não vê Gil em teatro há mais de 30 anos

No dia seis de junho (quinta-feira da semana que vem), Gilberto Gil se apresentará no Teatro A Pedra do Reino, em João Pessoa.

Ele está em turnê com o show OK, OK, OK, título do CD com canções inéditas que lançou no ano passado.

Ver Gil ao vivo é sempre algo muito especial.

Melhor ainda quando o show é num teatro.

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Entre 1967 e 1987, Gilberto Gil cantou nove vezes em teatros de João Pessoa.

Uma vez em 1967, duas em 1975, duas em 1976 (Refazenda), três em 1977 (Refavela), uma em 1987 (O Poeta e o Esfomeado).

À exceção de O Poeta e o Esfomeado, no Teatro Paulo Pontes, os shows foram no Teatro Santa Roza, que o artista achou parecido com uma embarcação do Mississipi.

Na primeira vez, em 1967, Gil passava uma temporada no Recife e ainda não conquistara dimensão nacional. Dali a poucos meses, com Domingo no Parque, estaria entre os vitoriosos do mais importante de todos os festivais da música popular brasileira.

Quando voltou, em 1975, era um artista consagrado. E já passara pelas experiências da prisão e do exílio.

Na década de 1970, seus shows no Teatro Santa Roza foram memoráveis, inesquecíveis.

Só quem viu sabe o que era testemunhar Refazenda ou Refavela num teatro com 500 pessoas.

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Ao longo de sua carreira, Gil fez 19 shows em João Pessoa. Além das performances em teatro, se apresentou ao ar livre (Praia de Tambaú, Ponto de Cem Réis) ou em grandes ambientes fechados (Praça do Povo, Domus Hall).

Em teatro, a última vez foi em 1987 no Teatro Paulo Pontes, com Jorge Mautner em O Poeta e o Esfomeado.

Há 32 anos, portanto.

Mais um motivo para ir ao Pedra do Reino no dia seis de junho.

Jânio podia ser doido, mas tinha intimidade com o português

Bebo porque é líquido!

Se fosse sólido, comê-lo-ia!

Jânio Quadros

Eu tinha dois anos na renúncia de Jânio Quadros. Não lembro, portanto, da sua meteórica passagem pela presidência.

Mas acompanhei, adulto e jornalista, seu retorno à política.

Era uma figura folclórica.

Meio maluco?

Meio bêbado?

As duas coisas?

O fato é que ainda conseguiu ser prefeito de São Paulo, derrotando Fernando Henrique Cardoso em 1985, no momento em que as eleições para prefeitos das capitais foram retomadas.

Sua eleição para presidente, em 1960, foi uma aventura.

Sua renúncia, em 1961, parece ter sido uma tentativa de autogolpe que não deu certo.

Jânio podia até ser doido, mas tinha intimidade com o português.

Na juventude, fora professor e até publicara uma gramática da língua.

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Na presidência, a política externa de Jânio era ousada para tempos de Guerra Fria. Chegou a condecorar Guevara.

Mas seu governo tinha uma pauta de comportamento atrasada. Biquini, briga de galo, lança perfume, etc.

Internet? Redes sociais? Em 1961, nem na ficção científica!

Havia, porém, os bilhetinhos.

Como não tinha Twitter, o presidente usava bilhetinhos que enviava àqueles com quem queria se comunicar.

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“Fi-lo porque qui-lo”.

“Fi-lo porque qui-lo” teria sido a frase que Jânio pronunciou ao ser indagado sobre os motivos da sua renúncia.

Já imaginaram?

Presidente, porque o senhor renunciou?

“Fi-lo porque qui-lo”.

Simples assim?

Claro que não!

Conhecedor da língua portuguesa, Jânio jamais teria dito desse modo.

Quando era perguntado sobre o assunto, tratava de negar a autoria da frase e vinha logo com o modo correto.

Se tivesse dito, seria assim:

“Fi-lo porque o quis”.

Se disse ou não o “fi-lo porque o quis” para explicar a renúncia, aí já é outra história.

Cinema de Kleber Mendonça está entre o que há de melhor no Brasil

Antes de ver o cinema de Kleber Mendonça Filho, li a crítica de cinema que ele fazia no Recife. Texto impecável, leitura precisa dos filmes que via e em seguida comentava. Um cara que honrava a tradição da melhor crítica feita no Brasil em décadas anteriores.

Da crítica para a realização, trilhando o caminho que alguns, mas não todos, seguiram com absoluto êxito. Meu primeiro contato com o seu cinema foi através do curta Recife Frio. Admirável. Absolutamente promissor. A confirmar que Kleber migrava da teoria para a prática com total domínio de bola.

Estive com Kleber Mendonça no momento em que finalizava o longa O Som ao Redor. Na Livraria Cultura, ao lado de Jomard Muniz de Britto, ele participou de uma conversa sobre Cinema por Escrito, compilação das críticas de Antônio Barreto Neto, livro que lancei em 2010 na condição de organizador.

Em seguida, o impacto de ver O Som ao Redor. Grande filme, no nível do que há de mais importante no cinema contemporâneo, em qualquer parte do mundo. Saí do cinema siderado e assim fiquei por alguns dias. Experiência inquietante para o espectador, no fundo e na forma, O Som ao Redor é cinema autoral de um realizador que tem uma assinatura muito singular.

Após O Som ao Redor, Aquarius. O segundo longa de ficção reafirmava os méritos de Kleber Mendonça. E ampliava a percepção do espectador sobre o seu estilo, o seu modo de fazer cinema, a sua caligrafia. O diretor vencia o desafio do segundo filme depois de uma estreia memorável como fora a de O Som ao Redor.

Quando mostrou Aquarius em Cannes, em 2016, Kleber Mendonça e equipe protestaram contra a deposição da presidente Dilma Rousseff. A manifestação foi legítima, mas a sobreposição do filme a ela é mais importante – eu disse isso a Kleber numa conversa no backstage do show de Caetano Veloso, no Recife.

O Som ao Redor e Aquarius transmitem ao espectador a certeza de que estamos diante de um artista com absoluto domínio do seu ofício. Isso é cristalino em Kleber. É o que o coloca em pé de igualdade com realizadores que não precisam provar mais nada.

Neste sábado (25), Bacurau, o novo filme de Kleber Mendonça Filho (dirigido em parceria com Juliano Dornelles), não foi laureado com a Palma de Ouro, mas conquistou o significativo prêmio do júri do Festival de Cannes. A premiação é fundamental como afirmação do que o Brasil produz de melhor. Melhor ainda porque ocorre neste momento em que artistas e produtores culturais são perseguidos por um governo de extrema direita como é o do presidente Jair Bolsonaro.

Viva Bacurau!

Viva o cinema brasileiro!

Djavan é ouro de mina

Nas redes sociais, por causa de uma entrevista, disseram que Djavan é bolsonarista.

Nas redes sociais, muita gente disse que não queria mais saber de Djavan.

Nesta sexta-feira (24), lembrei desse episódio de alguns meses atrás quando vi o artista ao vivo no Teatro A Pedra do Reino, em João Pessoa.

Como estamos mal!

Como estamos enfermos!

Como Djavan é grande!

Como quero ouvi-lo mais e mais.

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Lá se vão 40 anos desde que vi Djavan ao vivo pela primeira vez.

Foi no Projeto Pixinguinha de 1979, no Teatro do Parque, Recife.

Ele já era um belo esboço do cara que, logo depois, conquistaria o sucesso e a dimensão nacional.

Violão, baixo, bateria, creio que um teclado.

Djavan e seus sambas, harmonias refinadas, letras inspiradas, a voz incrível e os scats que se tornariam uma verdadeira assinatura.

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Vesúvio traz Djavan aos 70 anos.

Um excelente disco deu origem à turnê de agora.

O CD tem, a um só tempo, as marcas da trajetória longa e um certo frescor difícil de encontrar em artistas com a sua idade.

Foi apresentado como algo bem pop. Mas a classificação me parece imprópria. Não é tão pop assim. É Djavan. Do jeito que ele é. O músico e sua assinatura.

No palco, aí sim, Vesúvio é mais pop.

Durante duas horas, algumas canções do álbum se misturam a uma irresistível reunião de hits.

Djavan e uma banda vigorosa. Seus sambas que parecem vir dos velhos sambas de Gil. Aqui, acolá, uma pegada bem Stevie Wonder. Ou um clima jazzy. Ou uma valsa nova que soa como uma velha valsa brasileira. Ou o convite à dança da sequência que fecha o show.

Música de preto.

Djavan é ouro de mina.

Bob Dylan, um grande trovador do seu tempo, faz 78 anos

O livro No Direction Home confirma o quanto Bob Dylan é grande. A estreia, em 1962, revelava um artista de voz nasal totalmente voltado para o folk, que se acompanhava ao violão e usava uma gaita de boca presa numa armação metálica perto do pescoço. Em 1963, o biografado de Robert Shelton já mostrava que veio para ficar, cantando uma canção de protesto que faria história: Blowin’ in the Wind. Os versos continuam belos, a melodia ainda lhe pega na primeira audição, mesmo que o conteúdo tenha ficado para trás. O autor não consegue livrar-se dela, mas sabe que sua eficácia contestatória foi substituída pela melancólica evocação de um tempo que não volta mais.

Robert Allen Zimmerman, 78 anos nesta sexta-feira (24), é, nos Estados Unidos, o maior compositor popular de sua geração. E o mais influente. Até os Beatles foram influenciados por ele. Quando John Lennon trocou as letras ingênuas da Beatlemania por versos que falavam das suas dores, o fez por causa de Dylan. As marcas principais do que Bob Dylan criou estão nos primeiros anos da sua trajetória. O artista que ouvimos no início da carreira une a tradição folk à canção de protesto. E logo em seguida rompe com as duas. Abandona o acústico e adota o elétrico e abre mão do discurso engajado para falar de si próprio. Se quisermos sintetizar assim a sua produção, já teremos um retrato fidelíssimo do que ele é.

Ao se debruçar sobre Dylan no documentário No Direction Home, Martin Scorsese não passou de 1966, convencido de que contaria muito bem a história do artista ficando no passado. É ali que localizamos o essencial, embora tenhamos grandes discos e grandes canções por pelo menos mais uma década. Depois, aconteceu com ele o que ocorreu com todos os seus contemporâneos: hora de fazer a manutenção da carreira, aprimorar a presença no palco, produzir vigorosos registros ao vivo, gravar bons discos de estúdio de vez em quando, escrever as memórias. Dylan fez tudo isto e hoje se divide entre discos crus com sua voz estragada pelo tempo e uma turnê mundial que nunca termina.

Sete discos nos oferecem o melhor Dylan. De The Freewheelin’ (1963) a John Wesley Harding (1968). Entre os dois, temos Highway 61 Revisited e Blonde on Blonde. As questões cruciais do artista e sua obra estão neles. Mas é claro que há muito o que ouvir nos anos seguintes. De New Morning a Desire, de The Basement Tapes a Blood on the Tracks. E o ao vivo Before the Flood, em que divide o palco com o grupo The Band, que o acompanhou muitas vezes em estúdios e turnês. As canções, talvez não seja necessário listá-las. A relação é imensa. As melodias fáceis, as harmonias simples e a força poética das letras fazem o artista atravessar o tempo sem que percamos o amor pelo seu cancioneiro.

Prêmio Nobel de Literatura em 2016, Bob Dylan correu muitos riscos. Os primeiros, quando rompeu com a tradição folk e o engajamento político na América da primeira metade da década de 1960. Mas houve outros. De um, ao menos, ninguém esquece: o judeu convertido ao cristianismo na segunda metade dos anos 1970. Na década seguinte, voltou às origens e nunca mais cantou para Jesus. Assim é Bob Dylan. De cara limpa ou com o rosto todo pintado. Acústico ou elétrico. Engajado ou recolhido aos seus tormentos. Judeu ou cristão. Não importa. O que temos nele é um grande trovador do seu tempo. Com a beleza da voz nasal, da guitarra imprecisa e das imagens poéticas. Faltam respostas, mas o vento ainda está soprando ao seu lado.

Top 10 de Bob Dylan é tão difícil quanto top 10 de Chico Buarque

Faço nesta quinta-feira (23) um top 10 de Bob Dylan.

Não porque o Prêmio Camões dado a Chico Buarque remeteu ao Nobel de Literatura dado a Dylan.

O motivo é que o compositor americano faz 78 anos nesta sexta-feira (24).

Não custa lembrar, no entanto, que, pela qualidade do vasto cancioneiro dos dois, a tarefa é difícil tanto para Dylan quanto para Chico.

O top 10 de Dylan que posto hoje reúne somente clássicos do seu songbook.

Blowin’ in the Wind 

It Ain’t Me Babe

Mr. Tambourine Man

Like a Rolling Stone

Highway 61 Revisited

Just Like a Woman

Forever Young

Simple Twist of Fate

Hurricane

Jokerman

O Nobel de Bob Dylan caberia muito bem em Chico Buarque

Chico Buarque venceu a edição 2019 do Prêmio Camões.

O anúncio foi feito nesta terça-feira (21).

O prêmio, um dos mais importantes da língua portuguesa, foi pelo conjunto da obra (literatura, teatro, poesia, canção popular, etc.).

O artista vai receber 100 mil euros.

Premiação justíssima para um dos grandes artistas do Brasil.

Um cara que nos orgulha imensamente, sobretudo com o seu cancioneiro.

Chico é um gigante no seu ofício.

O Nobel de Literatura concedido a Bob Dylan caberia muito bem nele.

Fecho a coluna com uma letra de Chico.

Mas qual? São tantas letras absolutamente extraordinárias que fica difícil escolher uma.

Mexendo na memória, fico com Rosa-dos-Ventos. É de 1970.

A letra traz palavras proparoxítonas fechando os versos (não todos).

Logo depois, em Construção, uma das suas obras-primas, Chico constrói uma letra genial em que todos os versos terminam com proparoxítonas.

Seria Rosa-dos-Ventos um ensaio para Construção?

Rosa-dos-Ventos

E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr
Mas sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão
E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão

Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito do rio fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar
Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar

Bolsonaro está perdido? Bolsonaro vai cair?

Bolsonaro é um estorvo. 

O melhor serviço que pode fazer ao Brasil é renunciar

Bresser-Pereira

Bolsonaro vai sofrer um impeachment?

Bolsonaro vai renunciar?

Bolsonaro vai dar um autogolpe?

Bolsonaro está contra os generais do governo?

Os generais do governo estão contra Bolsonaro?

O Brasil é um país ingovernável?

Bolsonaristas vão às ruas pedir o fechamento do Congresso?

Bolsonaristas vão às ruas pedir o fechamento do Supremo?

O filho zero um de Bolsonaro está envolvido em corrupção?

A família Bolsonaro está envolvida com milicianos?

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Essas perguntas são feitas a todo momento nos veículos de comunicação e nas redes sociais.

São perguntas muito negativas.

Perguntas sobre um governo que mal começou.

Foi assim com Sarney?

Foi assim com Collor?

Foi assim com Itamar?

Foi assim com FHC?

Foi assim com Lula?

Foi assim com Dilma?

Foi assim com Temer?

Claro que não!

É normal que seja assim?

Claro que não!

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O governo Bolsonaro está nos estertores?

Bolsonaro está perdido?

Bolsonaro vai cair?

Perguntas e mais perguntas.

O Brasil e seus impasses.