Ele já foi Jesus, jogou xadrez com a morte e enfrentou o diabo

Todo mundo lembra que ele tirou o diabo do couro de uma menininha rechonchuda.

Muita gente lembra que ele jogou xadrez com a morte.

Há, mas em menor quantidade, os que lembram que ele já foi Jesus Cristo.

Max Von Sydow, o grande ator sueco dos filmes de Ingmar Bergman, faz 90 anos nesta quarta-feira (10).

Para os cinéfilos, o melhor de Sydow é seu trabalho com Bergman.

Foram parceiros em muitos filmes.

O Sétimo Selo, certamente, é o mais importante.

Max Von Sydow se projetou internacionalmente filmando com Ingmar Bergman.

Da Suécia para a América.

Em Hollywood, foi Jesus em A Maior História de Todos os Tempos, belíssima Paixão de Cristo dirigida pelo mesmo George Stevens de Um Lugar ao Sol e Os Brutos Também Amam.

Em O Exorcista, de grande sucesso comercial, fez o padre Merrin, convocado para salvar uma garotinha possuída pelo demônio.

Em Hannah e Suas Irmãs, como um irascível artista plástico casado com uma bela mulher, levou algo de Bergman para o cinema de Woody Allen.

Sob Steven Spielberg, vimos Sydow em Minority Report. Sob Martin Scorsese, em Ilha do Medo.

Grande trajetória a de Max Von Sydow.

Cinco CDs póstumos de Bowie são bons retratos do artista ao vivo

Investir em carreiras póstumas tem sido um bom negócio para a indústria fonográfica. Sobretudo quando há muito material inédito nos arquivos das gravadoras e dos próprios artistas.

Creio que Elvis Presley está no topo quando o assunto é discografia póstuma.

O artista morreu em 1977, e, de lá para cá, dezenas de discos inéditos enriqueceram os acervos dos colecionadores.

David Bowie morreu em janeiro de 2016.

Dois dias antes, lançara um disco novo (Blackstar) e completara 69 anos.

Tinha câncer no fígado e é muito provável que tenha optado por suicídio assistido.

Nesses três anos que nos separam da morte de Bowie, cinco álbuns duplos ao vivo chegaram ao mercado em edições físicas.

São bons retratos do artista no palco.

As gravações – tecnicamente bem feitas –  são de 1974, 1978, 1983, 1987 e 2000.

Nesses cinco álbuns, há o retorno a turnês que, em seu tempo, já haviam gerado outros discos ao vivo.

Há também material que já era conhecido em vídeo. E até conteúdo lançado anteriormente em CD, só que numa edição limitada.

Mas nada disso, para quem admira Bowie, tira o sabor da degustação desses lançamentos.

Dos cinco títulos, o que mais me agradou foi o Glastonbury 2000.  Pena que a edição brasileira veio sem o DVD (ou Blu-ray).

Seguem as capas.

CRACKED ACTOR

WELCOME TO THE BLACKOUT

GLASTONBURY 2000

SERIOUS MOONLIGHT

GLASS SPIDER

Apesar da retração da indústria do disco, esses cinco CDs duplos de David Bowie foram todos lançados em edições físicas no mercado brasileiro.

Bolsonaro é um homem sincero. Eis a grande tragédia nacional

O presidente Jair Bolsonaro é um homem sincero.

Sempre achei que ele, comumente, fala a verdade.

Diz o que pensa. Sem traquejo. Sem reflexão. Sem pensar no que está dizendo.

Lembro de um vídeo dele, bem mais jovem, defendendo a tortura num programa de televisão.

É isso mesmo. Ele defende a tortura. Ele tem Ustra como um herói nacional.

Já vimos Bolsonaro em falas completamente inaceitáveis.

Racismo. Machismo. Homofobia.

Tudo isso já vimos em Bolsonaro.

Ataques às instituições, à liberdade de imprensa, à Constituição. Também já vimos.

Ninguém falou por ele. Ninguém inventou nada. Ninguém colocou palavras na sua boca.

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Quarta-feira que vem (10), o governo alcança a marca dos 100 dias.

É uma marca simbólica, muito usada.

Os governantes (prefeitos, governadores, presidentes) comemoram 100 dias.

Pensemos nos 100 dias de Bolsonaro.

As coisas estão indo bem?

Estão dando certo?

As primeiras promessas estão sendo cumpridas?

A equipe é boa?

O diálogo com o parlamento é produtivo?

O desemprego está diminuindo?

A popularidade continua em alta?

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Bolsonaro admitiu que está com um abacaxi nas mãos.

O abacaxi é governar o Brasil.

O abacaxi é ser presidente da República.

Foi mais longe.

Bolsonaro disse que não nasceu para ser presidente. Nasceu para ser militar.

É uma confissão gravíssima para um homem que, há pouco mais de cinco meses, foi eleito presidente com 58 milhões de votos dos brasileiros.

É uma confissão gravíssima para um homem que governa o Brasil há pouco mais de três meses.

O problema é que, num tempo em que tudo é banalizado, não é dada a uma fala como esta a dimensão que ela de fato tem.

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O presidente Jair Bolsonaro é um homem sincero.

Ele disse a verdade.

Bolsonaro não nasceu para ser presidente.

Esta é que é a grande tragédia nacional.

O pior dele ainda não me surpreenderá.

Flávio Tavares pergunta se artistas plásticos têm medo de protestos

O artista plástico paraibano Flávio Tavares tem participado ativamente das manifestações populares convocadas pela esquerda.

Neste domingo (07), ele estava no ato em defesa do ex-presidente Lula realizado na Lagoa.

Nesta segunda-feira (08), Flávio Tavares usou o Facebook para falar sobre a ausência dos artistas plásticos nessas manifestações.

O questionamento de Flávio:

FRIEZA? DESCASO? ALIENAÇÃO? MEDO? Talvez seja a clausura dos seus ateliês…

Ou um execrável auto polimento nos seus EGOS.

Sinto uma AUSÊNCIA quase total da “classe” de artistas plásticos nos múltiplos PROTESTOS atuais. 

1968 a coragem tinha CARA E COR. 

Maior mérito de Coppola foi ter realizado O Poderoso Chefão

O cineasta americano Francis Ford Coppola faz 80 anos neste domingo (07).

Seu maior mérito foi ter realizado O Poderoso Chefão, um dos maiores filmes do mundo.

Coppola é muito diferente de Steven Spielberg e Martin Scorsese, seus contemporâneos. Ele filmou menos e tem uma obra mais irregular.

Mas até Spielberg e Scorsese, a despeito dos grandes filmes que realizaram, não fizeram nada que se compare a O Poderoso Chefão.

A primeira parte da trilogia baseada no romance de Mario Puzo é um desses filmes perfeitos.

Realizado em 1972, O Poderoso Chefão é extraordinariamente bem construído, tem um grande elenco (do experiente Marlon Brando ao jovem Al Pacino) e temas musicais marcantes do mesmo Nino Rota dos filmes de Federico Fellini.

O Poderoso Chefão fala dos subterrâneos do poder muito mais do que da máfia, daí a permanente atualidade da sua trama e dos seus personagens.

Na filmografia de Francis Ford Coppola, destaco também as duas sequências de O Poderoso Chefão (sobretudo a segunda parte), A Conversação e Apocalypse Now.

Há ainda a bela versão do Drácula de Bram Stoker.

O jornalista tem alguma coisa a comemorar em seu dia?

Neste domingo (07), logo cedo, sou lembrado por alguns amigos: hoje é o dia do jornalista.

A pergunta que logo me ocorre:

O jornalista tem alguma coisa a comemorar em seu dia?

Sim e não.

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Começo pelo não.

um. O terremoto digital estabeleceu parâmetros que apontam para um futuro absolutamente incerto.

dois. Nas redes sociais, muitos imbecis pensam que são jornalistas.

três. As notícias falsas se confundem com as verdadeiras.

quatro. A redução de quadros atinge todas as redações, mesmo as maiores.

cinco. Os salários continuam baixos.

seis. Os jornalistas que se dedicam às piores práticas aprimoraram seus métodos.

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E o sim?

A liberdade de imprensa.

Mas isso não existe, muitos dirão.

O que existe é a liberdade de empresa, argumentarão.

Mesmo assim, o sim vai para a liberdade de imprensa. A que temos. A que é possível ter. Com todos os seus defeitos, com todas as suas limitações.

Sem ela, saberíamos muito pouco.

Quando ela foi suprimida, soubemos muito pouco.

Sem ela, não haveria um título assim:

“Os brasileiros botaram um idiota na presidência da República”.

Kisses, o novo álbum de Anitta, tem dueto com Caetano Veloso

Anitta lançou seu novo álbum nesta sexta-feira (05), o primeiro desde Bang, de 2015.

Kisses está disponível nas plataformas digitais.

O álbum em três línguas (português, espanhol e inglês) tem dez faixas.

A última faixa de KissesVocê Mentiu – traz um dueto de Anitta com Caetano Veloso.

Confira o áudio da canção.

Brasil é um abacaxi, e Bolsonaro não tem apetite para o cargo

Fulano não tem apetite para governar.

Como jornalista, desde cedo ouvi essa frase.

Diz respeito a políticos que, de fato, não conseguem se adaptar à dura rotina de um governante.

O óbvio ululante: governar é difícil. Um negócio de altíssima complexidade.

Na linguagem de hoje: governar não é para os fracos.

Ou, como diria Bolsonaro: governar o Brasil é um abacaxi.

Diria, não. Ele disse.

Disse e tentou corrigir.

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Surpresa?

Zero!

Tenho defendido essa tese desde o início do governo.

Bolsonaro não tem apetite para o exercício do cargo.

Ele queria chegar lá, mas, na prática, parece não se adequar a todos os rituais exigidos de um presidente da República.

Bolsonaro nunca foi tão verdadeiro. Nunca foi tão sincero.

Sabem aquelas coisas que a gente diz bem naturalmente, quase sem sentir que está dizendo? E que são de uma sinceridade absoluta?

Foi o que Bolsonaro disse sobre o abacaxi que é governar o Brasil e sobre a sua brevidade no cargo.

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Nesta quarta-feira (03), vi o ministro Guedes – agora articulador da reforma da Previdência – ser chamado de “tchuchuca” por um deputado e responder com um “tchuchuca é a mãe”.

Nesta quarta-feira, li a entrevista em que o ministro Vélez negou o golpe e a ditadura e defendeu a mudança progressiva nos livros de história.

Nesta quarta-feira, vi o presidente Bolsonaro admitir que governar o Brasil é um abacaxi.

O Brasil é que está com um gigantesco abacaxi para descascar!

Bolsonaro agride história quando diz que nazismo é de esquerda

O nazismo é de direita.

O fascismo é de direita.

Não resta dúvida alguma.

Os bons livros que se debruçam sobre a história do século XX sempre nos asseguraram.

É só lê-los.

O chanceler Ernesto Araújo andou dizendo que o nazismo e o fascismo são de esquerda.

Um vexame.

Foi ridicularizado por tal afirmação dentro e fora do Brasil.

Até no Jornal Nacional, que não é dado a esse tipo de discussão.

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Em Israel, Jair Bolsonaro visitou o Museu do Holocausto, onde depositou uma coroa de flores.

O museu, em seu site, define o nazismo como de direita.

Mas o presidente saiu de lá repetindo Araújo: O nazismo é de esquerda.

Não há o que fazer.

Essa onda de ignorância que varre o Brasil é assim mesmo.

Desmente a história.

Tenta transformar a verdade em mentira. E a mentira, em verdade.

Vê comunismo onde não há nenhum vestígio de comunismo.

Chega ao cúmulo de ver esquerda onde só há direita, como no nazismo e no fascismo.

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“Não houve golpe militar em 1964”.

“Não houve ditadura entre 1964 e 1985”.

“O nazismo é de esquerda”.

“O fascismo é de esquerda”.

A exaltação da ignorância e a sua banalização vão nos custar muito caro.

No Face, direita vai da ignorância à desonestidade intelectual

Estou farto de ler coisas vindas
De neuróticos, psicóticos, políticos de cabeça-de-porco,
Tudo que quero é a verdade, agora
Me dê só um pouco da verdade, agora

Uma postagem no Facebook chamou minha atenção.

Havia duas fotos.

Todas duas na orla do Rio de Janeiro.

Uma, provavelmente de uns 50 anos atrás, mostrava mulheres de biquini na calçada, carros no asfalto, gente à beira-mar, etc.

A outra, atual, registrava uma briga na areia da praia, talvez resultado de um arrastão.

A legenda da primeira dizia o seguinte:

Rio de Janeiro, anos 60. Segundo os comunistas, “cruel ditadura militar”. 

A legenda da segunda era assim:

Rio de Janeiro, 2016. “Socialismo”. “O maravilhoso mundo comunista”.

A primeira foto – uma cena bonita e comum de praia – poderia ter sido feita tanto num governo de direita quanto num de esquerda. Numa democracia ou numa ditadura.

A segunda foto – uma confusão na areia da praia – não guarda qualquer relação com “socialismo” ou “mundo comunista”.

Com o agravante de que, em 2016, sob Dilma ou sob Temer (tivemos os dois em 2016), o Brasil nem era comunista nem socialista. Aliás, nunca foi.

O post pode parecer uma bobagem, mas não é.

Retrata, com grande fidelidade, a triste realidade em que nós, brasileiros, estamos mergulhados.

Quem faz esse tipo de postagem pode ser simplesmente burro.

Quem posta essas coisas numa rede social pode ser apenas ignorante.

Muitos o fazem, no entanto, por desonestidade intelectual. O que é mais grave do que ser burro ou ignorante.

Desonestidade intelectual.

Sim, desonestidade intelectual a serviço das piores ideias.

Um problemão nesses tempos de tanta mentira.

O que leva, por exemplo, jornalistas – em tese, comprometidos com a verdade – a esses expedientes?

O que leva uma pessoa bem informada a agir desse modo?

Ontem, no primeiro de abril, o dia foi dedicado à mentira, uma tradição que tanto diverte quanto aborrece.

Prefiro crer que todos os dias do ano são dias dedicados à verdade.

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Os versos que abrem esse post são de John Lennon.

Estão em Gimme Some Truth

Têm quase 50 anos, mas continuam valendo.