Um THE BEST do Roberto Carlos que não é tão antigo assim

Somente o Roberto Carlos antigo presta.

Há essa discussão, sobretudo entre os detratores desse grande artista a quem chamamos de Rei.

Claro que, de um modo geral, na música popular os artistas parecem produzir melhor na juventude. Dos Rolling Stones a Chico Buarque, aconteceu com todos, não só com Roberto Carlos. Mas isso não quer dizer que, a partir de um certo momento da vida e da carreira, todas as novas canções sejam desprezíveis.

Nesta sexta-feira (19), Roberto Carlos faz 78 anos. Vou, então, fazer um THE BEST da sua fase, digamos, ruim. A compilação começa em 1982, um ano depois daquele que muitos consideram o último grande disco autoral do Rei, o LP que tem Emoções.

Na ordem cronológica, seguem as canções:

PENSAMENTOS

FERA FERIDA

O CÔNCAVO E O CONVEXO

CORAÇÃO

EU E ELA

ALELUIA

CAMINHONEIRO

APOCALIPSE

DO FUNDO DO MEU CORAÇÃO

AMOR PERFEITO

AMAZÔNIA

TODAS AS MANHÃS

LUZ DIVINA

MULHER PEQUENA

NOSSA SENHORA

ALÔ

QUANDO DIGO QUE TE AMO   

EU TE AMO TANTO

AMOR SEM LIMITE

O CADILAC

ESSE CARA SOU EU

O romântico, o roqueiro, o religioso, o ecológico, o erótico, o nostálgico, o apaixonado – os vários ROBERTOS que conhecemos estão nessa lista, o cara que a gente chama de REI e que continua fazendo shows primorosos.

Se eu tivesse que escolher somente uma, entre essas 21 canções, ficaria com Alô, que é de 1994. Leva a assinatura de Roberto e Erasmo Carlos. Tocou um bocado, mas não foi um grande sucesso. É do momento em que o artista se preparava para quebrar a tradição do disco de final de ano.

Não por acaso, é a canção que Nando Reis escolheu para abrir o álbum que, neste 19 de abril, lança em tributo a Roberto Carlos.

Anitta não precisa da Bossa Nova para ser legitimada

Leio que Anitta tem vontade de gravar um disco de Bossa Nova.

É um desejo legítimo.

Mas penso que ela não precisa disso para afirmar seu talento.

Nós, que como ouvintes nos abrigamos sob o guarda-chuva de um negócio chamado “música de qualidade”, cobramos isso de artistas de quem, em tese, não gostamos. Ou achamos que fazem música de má qualidade.

Vou dar um exemplo pessoal. Anos atrás, quando vi que Ivete Sangalo é ótima cantora e sabe tudo de palco, esperei dela um repertório de MPB no lugar do que costuma cantar. Equívoco completo. Ivete não precisa da chamada MPB para brilhar. Ela é muito boa fazendo o que faz.

Anitta é assim. Está construindo uma carreira, e o êxito da sua caminhada virá de um talento genuíno que tem.

Se quer gravar Bossa Nova, que grave. Fará bem, certamente. Mas não dependerá disso para ser reconhecida.

Seus críticos são preconceituosos.

No fundo, não aceitam que ela seja o que é tendo vindo de onde veio.

Anitta é um fenômeno pop.

Sua voz estará no próximo álbum de Madonna. Não é pouco.

Ela merece o sucesso.

O Rei dos Reis tem a melhor música de uma Paixão de Cristo

Em O Evangelho Segundo São Mateus, Pasolini usou música erudita e o spiritual dos negros americanos.

Em A Maior História de Todos os Tempos, Stevens botou a Aleluia, de Handel, na cena da ressurreição de Lázaro.

Em Jesus Cristo Superstar, Jewison transpôs para a tela as canções da ópera-rock original.

Em A Última Tentação de Cristo, Scorsese trabalhou com um homem do rock, o ex-Genesis Peter Gabriel.

Em O Rei dos Reis, Ray teve Miklos Rozsa como autor dos temas musicais.

O húngaro Rozsa era um gigante no seu ofício. Fazer música para cinema foi sua especialidade.

A trilha de Ben-Hur é dele. A de El Cid, também.

A música de O Rei dos Reis é a melhor escrita para uma Paixão de Cristo.

Quem não a conhece?

Quem não a associa imediatamente à Semana Santa e aos dramas da Paixão?

SOBRE é por cima. SOB, por baixo

Em 1979, já quase morta, a TV Tupi quis reeditar a era dos festivais. Um ano antes do MPB 80 da Globo.

Não deu muito certo, mas aconteceu.

Caetano Veloso participou cantando Dona Culpa Ficou Solteira, uma música de Jorge Ben.

Foi vaiado pela plateia. Era o tempo das patrulhas ideológicas.

Nos bastidores, a repórter perguntou como ele se sentia saindo do palco sobre vaias.

Caetano questionou o português ruim da moça, que não sabia a diferença entre sobre e sob, mas disse que, ao errar, ela acabou acertando.

Claro! Caetano sempre está sobre as vaias!

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Sobre e sob.

Isso a gente sabe desde a infância, quando aprende a falar.

Antes mesmo de ir para a escola.

Mas vamos ao dicionário (o “pai dos burros”, o velho e bom Aurélio que tem aqui em casa):

SOBRENa parte superior de; em cima, por cima ou acima de. Acerca de, a respeito de, em relação a. 

SOBDebaixo de. Ao abrigo de. Debaixo de autoridade de. No tempo de.

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Sob Bolsonaro, tem ministro que confunde sobre com sob.

Ministro com curso superior.

Vergonha alheia!

Dos meus comunistas, cuido eu!

Antes da Copa de 70, o presidente Médici quis escalar Dadá para a Seleção Brasileira.

O técnico João Saldanha, que era comunista, reagiu:

O presidente escala os seus ministros, eu escalo os meus jogadores.

Saldanha foi demitido, e o Brasil foi tri no México com a equipe que ele montou.

*****

O jornalista Roberto Marinho, presidente das Organizações Globo, foi questionado pelo governo militar:

Tem muito comunista nas suas redações.

Dr. Roberto, reconhecidamente um homem de direita, reagiu:

Dos meus comunistas, cuido eu.

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João Saldanha foi um dos comunistas de Roberto Marinho.

As duas histórias são parecidas.

E são ótimas histórias.

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Não se faz bom jornalismo sem comunistas, assim como não se faz boa dramaturgia sem homossexuais.

A frase é atribuída a Roberto Marinho.

Realidade?

Lenda?

Não importa.

Quando a lenda é melhor do que a realidade (aprendemos com John Ford), imprima-se a lenda.

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Durante boa parte do século XX, o mundo era dividido em duas bandas.

Numa, estavam os Estados Unidos.

Na outra, a União Soviética.

O mundo sem essa divisão não cabia na cabeça de ninguém.

Digamos que a direita tinha razões de sobra para temer os comunistas porque de fato havia comunistas.

Hoje, temos no Brasil gente que vê comunistas onde não há comunistas.

A exaltação da ignorância está na moda.

Morreu Bibi Andersson, uma das musas de Ingmar Bergman

Eu ainda era um menino quando fui atraído pela beleza de Bibi Andersson.

Na frente do Cine Santo Antônio, lá estava ela nas fotografias em preto & branco do cartaz de Persona (Quando Duas Mulheres Pecam, título horrível no Brasil).

Mas me faltava idade para ver o filme. Ficou para alguns anos mais tarde.

Neste domingo (14), li a notícia triste:

Bibi Andersson morreu. 

Tinha 83 anos e não se recuperara de um AVC.

Bibi Andersson foi uma das musas de Ingmar Bergman, o grande diretor sueco.

Ela está em O Sétimo Selo, em Morangos Silvestres, em Persona.

Também foi dirigida por John Huston e Robert Altman.

Em Bibi, sobravam talento e beleza.

Só mesmo um imbecil pode acreditar que a Terra é plana!

SÓ MESMO UM IMBECIL PODE ACREDITAR QUE A TERRA É PLANA!

Acordei pensando nisso.

Sabem o motivo?

É que nesta sexta-feira (12) faz 58 anos que Yuri Gagarin se tornou o primeiro homem a voar em órbita da Terra.

A Terra é azul.

Em 12 de abril de 1961, o cosmonauta Yuri Gagarin pronunciou a frase ao se transformar no primeiro homem que orbitou nosso planeta.

Eu tinha dois anos, claro que não tenho nenhuma lembrança do feito, mas cresci ouvindo meu pai falar da sua importância científica, do seu significado histórico e da força poética da frase.

A Terra é azul. 

A simplicidade do comentário de Gagarin não destoa da dimensão do seu voo pioneiro.

Antes, parece a mais perfeita tradução do impacto que aquela visão provocou.

O planeta visto de fora, como ninguém o havia observado antes.

Com seus próprios olhos, Gagarin viu também que a Terra é redonda.

E agora, em 2019, tem gente defendendo a tese de que a Terra é plana.

Não quero ser grosseiro, mas só mesmo os imbecis acreditam que a Terra é plana!

A Paixão de Cristo para ver (ou rever) na Semana Santa

Ver a Paixão de Cristo (ou um drama épico) no cinema era tradição na Semana Santa. Mas isso acabou, faz tempo.

Grandes cineastas (Ray, Stevens, Pasolini, Scorsese) filmaram a vida de Jesus.

Escolhi seis filmes que podem ser revistos em casa durante a Semana Santa. Ou – quem sabe? – apresentados à garotada.

O REI DOS REIS

Direção de Nicholas Ray. Jesus é Jeffrey Hunter. Tem um sermão da montanha filmado magistralmente. O narrador é Orson Welles. De 1961.

O EVANGELHO SEGUNDO SÃO MATEUS

Direção de Pier Paolo Pasolini. Jesus é um ator amador. Versão neorrealista da vida de Cristo filmada por um homossexual, marxista e ateu. De 1964.

A MAIOR HISTÓRIA DE TODOS OS TEMPOS

Direção de George Stevens. Jesus é Max Von Sydow, um dos atores de Bergman. A Aleluia de Handel dá rara beleza à sequência da ressurreição de Lázaro. De 1965.

JESUS CRISTO SUPERSTAR

Direção de Norman Jewison. Jesus é Ted Neeley. A Paixão de Cristo transformada num musical polêmico. A cena do Getsêmani é a mais bela do filme. De 1973.

JESUS DE NAZARÉ

De Franco Zeffirelli. Minissérie de televisão exibida nos cinemas em duas partes. Jesus é Robert Powell. de 1977.

A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO

De Martin Scorsese. Jesus é Willem Dafoe. Os dilemas da fé num filme que não agradou aos católicos. De 1988.

Beba por mim e por minha saúde, já que eu não posso mais beber

O ano era 1973.

Pablo Picasso, uma das figuras geniais do século XX, esteve com amigos à noite.

Pediu que bebessem por ele e por sua saúde já que não podia mais beber.

No dia seguinte, estava morto.

O homem que legou Guernica ao mundo tinha 91 anos.

*****

O ator Dustin Hoffman, num intervalo das filmagens de Papillon, contou essa história a Paul McCartney.

Paul pegou o violão e cantou mais ou menos assim:

Beba por mim

Beba por minha saúde

Você sabe que não posso mais beber

O resultado, mais tarde, foi uma bela canção chamada Picasso’s Last Words.

As últimas palavras de Picasso.

De Paul para Pablo.

O vídeo é do filme Rock Show, que mostra o grupo Wings em turnê pela América.

A gravação original de Picasso’s Last Words está no disco Band on the Run.

É uma pena que tudo aquilo tenha dado em Jair Bolsonaro!

10 de abril.

Nesta quarta-feira, faz 35 anos que, no Rio de Janeiro, foi realizado o comício da Candelária pela aprovação da emenda que restabelecia as eleições diretas para presidente.

Estavam todos lá. Ulysses, Tancredo, Lula, Brizola, Montoro – os líderes políticos unidos na luta pela redemocratização.

As diretas não passaram, mas o país se redemocratizou a partir da eleição, ainda indireta, de Tancredo/Sarney.

Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula, Dilma, Temer. Dois presidentes derrubados pela via do impeachment. Foi o caminho que percorremos.

Agora estamos sob Bolsonaro.

Ele será varrido. Li hoje na Folha. Quem disse foi Jorge Mautner.