O Ouro do Pó da Estrada é um grande disco de Elba Ramalho

Elba Ramalho tem 40 anos de carreira, se tomarmos como referência o lançamento de Ave de Prata, seu primeiro LP. Mas ela já estava na estrada há muitos anos quando fez sua estreia em disco.

Se quisermos, seu novo álbum, O Ouro do Pó da Estrada, marca esse tempo. Lançado no final do ano passado nas plataformas digitais, agora está disponível em edição física da Deck.

Na capa, temos Elba fotografada numa estrada com um longo vestido branco que se espalha pelo chão.

O caminho, sempre comprido e sinuoso, enche de pó quem o percorre, e, nele, a artista tenta encontrar e retirar o ouro.

É isso o que há em O Ouro do Pó da Estrada.

Manutenção de carreiras longas é uma coisa complicada.

Aos 67 anos (68 em agosto), Elba tem conseguido estar bem posicionada num mercado sempre em rápida transformação. No novo trabalho, porém, vai além da média dos artistas que não têm mais o frescor da juventude como aliado. Oferece não um disco bom e correto, como costuma fazer com o talento e a experiência que tem, mas um grande disco!

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Há serenidade e sabedoria em O Ouro do Pó da Estrada.

Há também raízes e antenas.

Raízes que guiam Elba e fincam seus pés nas fontes da música nordestina.

Antenas de quem permanece atenta ao presente e de olho no futuro.

Raízes de Luiz Gonzaga e Dominguinhos.

Antenas dos autores contemporâneos por ela gravados.

O Ouro do Pó da Estrada tem as matrizes do Nordeste, essa nave mãe que conduz gente como Elba. E tem o som forte da contemporaneidade.

Tem Roberta Sá, Maria Gadú e Lucy Alves, vozes da MPB atual. E tem Ney Matogrosso, que vem de longe, sem nunca perder o link com o novo.

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Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Belchior, Arnaldo Antunes, Siba, Chico César, Marcelo Jeneci, Tonido Garrido, Lula Queiroga. Todos eles estão no impecável repertório de 13 faixas do álbum de Elba, assinando as canções.

O Fole Roncou, que fecha o disco, tem um dado interessante. Elba faz uma releitura pesada da música de Luiz Gonzaga. Mas, quando esta foi gravada, lá nos anos 1970, trazia um surpreendente Rei do Baião acompanhado por guitarras elétricas. Como se Gonzaga, sem abrir mão das raízes, buscasse também as antenas.

Sem pular faixas, ouvi algumas vezes O Ouro do Pó da Estrada.

Os versos de Siba ficaram na minha cabeça:

O mundo tá muito doente

O homem que mata, o homem que mente