Música que há em Paêbirú é muito menor do que a lenda

Leio que o álbum-duplo Paêbirú, de Zé Ramalho e Lula Cortes, está sendo relançado em vinil.

Vai deixar de ser raro e, certamente, não precisará mais ser vendido por até R$ 950 no Mercado Livre.

Gravado em 1974, o álbum se transformou numa verdadeira lenda. Mais do que Satwa, de Lula e Lailson, e No Sub Reino dos Metazoários, de Marconi Notaro. Todos, produtos de uma mesma cena musical – o Recife da primeira metade dos anos 1970.

Sou contemporâneo. Ouvi na época. Foram muito festejados pelo underground. Sobretudo Paêbirú, que teve quase todos os exemplares destruídos por uma daquelas dramáticas enchentes que atingiam Pernambuco décadas atrás.

Confesso que a música que há em Paêbirú nunca me impressionou. Preferia outras coisas igualmente “viajosas”. Àquela altura, o trabalho que Zé Ramalho fazia sozinho era muito melhor. O show Atlântida, do mesmo ano de 1974, já revelava os méritos do artista que logo conquistaria dimensão nacional.

Paêbirú é um álbum importante? Sim. Porque se tornou um disco raro. Porque é retrato de uma cena musical criativa. Mas, principalmente, por que tem o nome de Zé Ramalho.

Estão muitíssimo equivocados os que acham que se trata do melhor trabalho do artista paraibano (e há quem ache!). Não é. O melhor de Zé está nos três primeiros discos que gravou na velha CBS (o LP que começa com Avôhai, A Peleja do Diabo com o Dono do Céu e A Terceira Lâmina). São três petardos com todas as marcas de originalidade do universo musical e poético de Zé Ramalho.

Sem medo de errar, digo hoje que a música que temos em Paêbirú não está à altura da lenda.