Madrinha é pouco! Beth Carvalho era uma rainha do samba!

Dias atrás, era fake news.

Agora é verdade.

Beth Carvalho morreu nesta terça-feira (30) no hospital onde estava internada desde o início do ano, no Rio de Janeiro.

Faria 73 anos em maio.

Beth Carvalho descansou. É um clichê que cabe bem nela. A cantora vinha de um sofrimento longo. Chegou a fazer um show deitada.

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Beth Carvalho está entre os artistas que mais se identificaram com o samba.

Ela era o próprio samba.

Uma bela voz a serviço do samba do Rio de Janeiro.

Lá no começo, na juventude, consagrou-se cantando Andança num festival, mas o seu legado é a dedicação de décadas ao gênero que melhor representa a música popular do Brasil.

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Beth Carvalho era Mangueira. Era Botafogo. Era Brizola.

A imagem que quero guardar dela?

Beth e Nelson Cavaquinho no palco do Teatro de Santa Roza, em João Pessoa, no Projeto Pixinguinha de 1978.

Sim. Beth e Nelson cantando Juízo Final, esse samba extraordinário, um dos mais belos de todos.

O sol há de brilhar mais uma vez

A luz há de chegar aos corações

Do mal será queimada a semente

O amor será eterno novamente 

Madrinha ainda é pouco! Beth Carvalho era uma rainha do samba!

Os bolsonaristas fanáticos sabem o que é macartismo?

Dias atrás, li uma entrevista com Cacá Diegues.

Homem de cinema e agora membro da Academia Brasileira de Letras, ele está naturalmente preocupado com os ataques do governo Bolsonaro à produção cultural.

Cacá é lúcido. Também sabe enxergar os erros da esquerda.

Nos anos 1970, o cineasta cunhou a expressão “patrulhas ideológicas”.

Na entrevista, diz que não existe marxismo cultural.

O que, segundo ele, há no Brasil de hoje é macartismo cultural.

Faz sentido.

Será que os bolsonaristas fanáticos sabem o que é macartismo?

Duvido!

O Ouro do Pó da Estrada é um grande disco de Elba Ramalho

Elba Ramalho tem 40 anos de carreira, se tomarmos como referência o lançamento de Ave de Prata, seu primeiro LP. Mas ela já estava na estrada há muitos anos quando fez sua estreia em disco.

Se quisermos, seu novo álbum, O Ouro do Pó da Estrada, marca esse tempo. Lançado no final do ano passado nas plataformas digitais, agora está disponível em edição física da Deck.

Na capa, temos Elba fotografada numa estrada com um longo vestido branco que se espalha pelo chão.

O caminho, sempre comprido e sinuoso, enche de pó quem o percorre, e, nele, a artista tenta encontrar e retirar o ouro.

É isso o que há em O Ouro do Pó da Estrada.

Manutenção de carreiras longas é uma coisa complicada.

Aos 67 anos (68 em agosto), Elba tem conseguido estar bem posicionada num mercado sempre em rápida transformação. No novo trabalho, porém, vai além da média dos artistas que não têm mais o frescor da juventude como aliado. Oferece não um disco bom e correto, como costuma fazer com o talento e a experiência que tem, mas um grande disco!

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Há serenidade e sabedoria em O Ouro do Pó da Estrada.

Há também raízes e antenas.

Raízes que guiam Elba e fincam seus pés nas fontes da música nordestina.

Antenas de quem permanece atenta ao presente e de olho no futuro.

Raízes de Luiz Gonzaga e Dominguinhos.

Antenas dos autores contemporâneos por ela gravados.

O Ouro do Pó da Estrada tem as matrizes do Nordeste, essa nave mãe que conduz gente como Elba. E tem o som forte da contemporaneidade.

Tem Roberta Sá, Maria Gadú e Lucy Alves, vozes da MPB atual. E tem Ney Matogrosso, que vem de longe, sem nunca perder o link com o novo.

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Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Belchior, Arnaldo Antunes, Siba, Chico César, Marcelo Jeneci, Tonido Garrido, Lula Queiroga. Todos eles estão no impecável repertório de 13 faixas do álbum de Elba, assinando as canções.

O Fole Roncou, que fecha o disco, tem um dado interessante. Elba faz uma releitura pesada da música de Luiz Gonzaga. Mas, quando esta foi gravada, lá nos anos 1970, trazia um surpreendente Rei do Baião acompanhado por guitarras elétricas. Como se Gonzaga, sem abrir mão das raízes, buscasse também as antenas.

Sem pular faixas, ouvi algumas vezes O Ouro do Pó da Estrada.

Os versos de Siba ficaram na minha cabeça:

O mundo tá muito doente

O homem que mata, o homem que mente

Geraldo Azevedo, craque em voz e violão, faz Solo Contigo em JP

Solo Contigo.

O novo show de Geraldo Azevedo passa por João Pessoa neste sábado (27).

Será apresentado às 21 horas no Teatro A Pedra do Reino, do Centro de Convenções.

Solo Contigo é o nome do CD e do DVD que o compositor pernambucano está lançando.

O set list tem algumas surpresas, mas, basicamente, oferece uma síntese da trajetória de Geraldo.

Ele é craque no formato voz e violão e é assim que está se apresentando na atual turnê.

Segue o provável repertório do show:

01. Príncipe brilhante
02. Inclinações musicais
03. O amor antigramático
04. Estácio, eu e você
05. A saudade me traz
06. O charme das canções
07. O princípio do prazer
08. Letras negras
09. Canta coração
10. Veja (Margarida)
09. Você se lembra
10. Pensar em você
11. Tanto querer
12. Pensar em você
13. Caravana
14. Chorando e cantando
15. Parceiros das delícias
16. Talvez seja real
17. Estrela guia
18. Você se lembra
19. Bicho de sete cabeças I
20. Dona da minha cabeça
21. Dia branco
22. Moça bonita / Sabor colorido
23. Táxi lunar

Como foram os votos da Paraíba na Emenda Dante de Oliveira

Seis deputados da Paraíba votaram a favor da Emenda Dante de Oliveira:

Aluízio Campos

Carneiro Arnaud

João Agripino

José Maranhão

Raimundo Asfora

Tarcísio Burity

Todos do PMDB, à exceção de Tarcísio Burity, que era do PDS.

Cinco se abstiveram, todos do PDS:

Adauto Pereira

Álvaro Gaudêncio

Antônio Gomes

Edme Tavares

Ernani Sátiro

Da bancada da Paraíba, somente um deputado votou contra a Emenda Dante de Oliveira:

Joacil Pereira (PDS)

Emenda Dante de Oliveira, das Diretas Já, foi derrotada há 35 anos

Quando vi todo mundo na rua de blusa amarela
Eu achei que era ela puxando o cordão

Chico Buarque

Era início de 1984.

Em João Pessoa, na Praça do Povo do Espaço Cultural, o público assistia ao show do Trio Elétrico Dodô & Osmar.

Da beira do palco, alguém jogou um bilhete para Osmar, o patriarca da família Macedo.

Ele abriu o bilhete e, entre uma música e outra, leu em voz alta o que estava escrito:

Osmar! Pede diretas já para presidente! 

Nem precisou. A leitura do bilhete já era um pedido.

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A campanha pela volta das eleições diretas para presidente começou em 1983.

Mas só conquistou dimensão nacional em 25 de janeiro de 1984, dia do aniversário de São Paulo, quando um comício reuniu 300 mil pessoas na Praça da Sé.

Dali a três meses, a Câmara votaria a Emenda Dante de Oliveira, que devolveria ao povo o direito de escolher pela via direta o presidente da República.

A última eleição, de Jânio Quadros, havia sido realizada em 1960.

A ruptura foi em 31 de março de 1964, quando um golpe militar depôs o presidente João Goulart, o vice que assumira na renúncia de Jânio.

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Diretas Já. Eu quero votar para presidente!

Era assim que estava escrito naquelas camisas amarelas que usávamos com orgulho cidadão e alguma esperança.

Foram três meses de intensas atividades.

Um pedaço expressivo da sociedade civil abraçou a causa.

A Folha de S. Paulo botou na capa:

Vista amarelo pelas diretas já!

Mas a emenda do deputado peemedebista Dante de Oliveira não foi aprovada.

Faltaram 22 votos naquela noite/madrugada com Brasília sitiada pelas tropas do general Newton Cruz.

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Perdemos, mas ganhamos.

A campanha das diretas abriu caminho para a volta dos civis à presidência, no ano seguinte, com a eleição (ainda indireta) da chapa Tancredo Neves/José Sarney. Seguiram-se a promulgação da Constituição de 1988 e a retomada das eleições diretas para presidente em 1989.

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Foi bonita a festa – faço meu o verso de Chico sobre a lusitana Revolução dos Cravos.

Quem foi às ruas com aquela camisa amarela sabe do que estou falando.

Qual é o Rei DO Reis?

Roberto Carlos?

Acho que cada um tem o seu.

Depende de muita coisa. Da idade. Do tempo em que ouviu. Das lembranças que traz. Das associações que a música permite. De alegrias. De tristezas.

Com Roberto Carlos, é assim mesmo. Não adianta negar.

A pergunta é por causa de Nando Reis. Ele acaba de lançar um CD chamado Não Sou Nenhum Roberto, Mas às Vezes chego Perto.

Qual é, então, o Roberto Carlos de Nando Reis?

Ou: qual é o Rei DO Reis?

As 12 músicas do repertório respondem.

Nando é de 1963. Fez 56 anos em janeiro.

Seria natural imaginar que, vindo de uma banda como Titãs, o Rei DO Reis fosse o do rock.

Mas não é.

O Roberto de Nando é o dos anos 1970. Tem a ver com a idade em que ele, garoto, adolescente, foi apanhado por aqueles discos de final de ano.

OK. Nossa Senhora é dos anos 1990. Alô, também. Mas o que predomina no repertório são canções da década de 1970. Algumas, muito conhecidas. Outras, nem tanto. As escolhas de Nando têm essa vantagem: fogem do óbvio.

Em Nossa Senhora, a letra é substituída por um solfejo. Peço permissão para “viajar”: ficou parecida com a valsa Bebel, de João Gilberto.

Em A Guerra dos Meninos, a letra não é cantada, mas declamada. E sabem por quem? Por Jorge Mautner. É incrível ouvir o Rei por Mautner.

Não Sou Nenhum Roberto é, sobretudo, um disco reverente, uma homenagem feita por alguém que ama o homenageado. Esse amor sem preconceito.

A reverência começa pela capa. Nando tal como Roberto na capa dos seus discos.

Que Nando não é nenhum Roberto, isso a gente sabe. Aliás, ninguém é. Seu CD é mais um trabalho dedicado ao cancioneiro do Rei.

Há o de Bethânia, o de Cauby, o de Ângela, o de Lulu, o de Teresa Cristina, o da banda RC na Veia. Ouvi-los, gostar deles, vai depender muito da relação de cada ouvinte com as gravações originais. Elas são muito marcantes, e Roberto Carlos é o melhor intérprete de si próprio.

O que há no CD de Nando Reis é o respeito profundo, a grande admiração, a consciência plena de quem é esse cara que a gente chama de Rei.

E o desejo de dizer tudo isso cantando.

A Paraíba, que vai homenagear Jackson, falhou com Severino

Severino Araújo, o grande maestro da Orquestra Tabajara, nasceu num 23 de abril como hoje. Há 102 anos.

Agora em 2019, quando vejo a Paraíba se preparando para as justíssimas homenagens a Jackson do Pandeiro pelo centenário do seu nascimento, constato como o Estado foi injusto, em 2017, ao deixar passar em branco o centenário de Severino.

O maestro e sua extraordinária big band têm um lugar especial na minha memória afetiva.

Severino Araújo nasceu em Limoeiro, Pernambuco, em 23 de abril de 1917. O pai era mestre de banda. Foi seu primeiro professor.

Na Paraíba, tocou na banda da Polícia Militar antes de, em 1937, ingressar na Orquestra Tabajara como primeiro clarinetista. A orquestra pertencia à recém fundada Rádio Tabajara.

Severino assumiu o comando da orquestra em 1938, aos 21 anos, com a morte do maestro Olegário de Luna Freire.

O resto é História. Assim mesmo, com H maiúsculo.

A Tabajara foi para o Rio de Janeiro no início dos anos 1940 e se transformou na mais importante big band brasileira.

Severino esteve à frente da orquestra por 68 anos. Nela, acolheu seus irmãos: Zé Bodega (sax), Manoel (trombone), Jayme (sax) e Plínio (bateria).

Como autor, está nas antologias do choro com Espinha de Bacalhau. E nas do frevo com Relembrando o Norte.

A Tabajara foi criticada por tocar jazz. Bobagem. Era brasileiríssima. Mas também do mundo. Severino era um mestre. Compondo, arranjando, regendo. Band leader carismático, com um vigor e um charme invejáveis – quem viu ao vivo sabe!

A Orquestra Tabajara teve seus anos de ostracismo. Voltou no início dos anos 1980, nas domingueiras do Circo Voador, no Rio. Em João Pessoa, naquela década, fez vários carnavais do Clube Cabo Branco. Também fez bailes não carnavalescos e shows. O sexagenário Severino parecia um garoto comandando a sua big band!

Conheci Severino Araújo naquele retorno a João Pessoa. Estive perto dele sempre que pude, nos carnavais e fora deles. Nunca me faltou a consciência do quão significativo era aquele vínculo. Fui recompensado por seu afeto e suas histórias.

Uma noite, no intervalo de um baile, ele me disse que, na juventude, sonhava em dar ao Brasil uma grande orquestra popular. E que esperava ter realizado o sonho com a Tabajara.

Claro que realizou!

Música que há em Paêbirú é muito menor do que a lenda

Leio que o álbum-duplo Paêbirú, de Zé Ramalho e Lula Cortes, está sendo relançado em vinil.

Vai deixar de ser raro e, certamente, não precisará mais ser vendido por até R$ 950 no Mercado Livre.

Gravado em 1974, o álbum se transformou numa verdadeira lenda. Mais do que Satwa, de Lula e Lailson, e No Sub Reino dos Metazoários, de Marconi Notaro. Todos, produtos de uma mesma cena musical – o Recife da primeira metade dos anos 1970.

Sou contemporâneo. Ouvi na época. Foram muito festejados pelo underground. Sobretudo Paêbirú, que teve quase todos os exemplares destruídos por uma daquelas dramáticas enchentes que atingiam Pernambuco décadas atrás.

Confesso que a música que há em Paêbirú nunca me impressionou. Preferia outras coisas igualmente “viajosas”. Àquela altura, o trabalho que Zé Ramalho fazia sozinho era muito melhor. O show Atlântida, do mesmo ano de 1974, já revelava os méritos do artista que logo conquistaria dimensão nacional.

Paêbirú é um álbum importante? Sim. Porque se tornou um disco raro. Porque é retrato de uma cena musical criativa. Mas, principalmente, por que tem o nome de Zé Ramalho.

Estão muitíssimo equivocados os que acham que se trata do melhor trabalho do artista paraibano (e há quem ache!). Não é. O melhor de Zé está nos três primeiros discos que gravou na velha CBS (o LP que começa com Avôhai, A Peleja do Diabo com o Dono do Céu e A Terceira Lâmina). São três petardos com todas as marcas de originalidade do universo musical e poético de Zé Ramalho.

Sem medo de errar, digo hoje que a música que temos em Paêbirú não está à altura da lenda.

Filme sobre agonia de Tancredo é ruim, mas precisa ser visto

Neste domingo, 21 de abril, faz 34 anos que Tancredo Neves morreu.

O hábil político de Minas não viveu para ser o primeiro presidente civil depois de 21 anos de presidentes militares.

Para os contemporâneos dessa tragédia nacional, a sua morte ainda é um acontecimento que está bem guardado na memória. Para os garotos e garotas de hoje, deve ser uma história remota muito pouco conhecida.

O filme O Paciente, de Sérgio Rezende, se debruça sobre a agonia de Tancredo. Começa às vésperas da posse e termina com a sua morte.

Tem algumas virtudes e muitos defeitos. O maior deles: parece demais com televisão feita para a gente ver no cinema. No ritmo, nos enquadramentos, na montagem, no uso de imagens reais da época.

Uma das virtudes: o Tancredo Neves de Othon Bastos. Grande ator, Bastos recria com notável fidelidade o político que todos nós, seus contemporâneos, vimos em ação.

(Aliás, o Tancredo que vi de perto na sede do PMDB em João Pessoa, numa entrevista coletiva em outubro de 1984, já me pareceu uma pessoa doente, embora ninguém imaginasse que estaria morto seis meses mais tarde.)

O melhor seria se um filme como O Paciente pudesse cumprir um papel educativo, didático. Se pudesse ser visto por jovens, sobretudo nas escolas. Se suscitasse debates.

Sim. Jovens debatendo política nas escolas.

O inverso do que quer o presidente Bolsonaro.