Zé Ramalho é irmão de Elba Ramalho. Incrédulo, li no jornal

Zé Ramalho é irmão de Elba Ramalho!

Você sabia?

Deu no jornal.

Um leitor me mandou um pequeno trecho de uma matéria de jornal impresso e pediu que eu descobrisse o erro.

Era um texto sobre o relançamento de 20 Palavras ao Redor do Sol, disco antológico de Cátia de França.

Foi tarefa facílima encontrar o erro.

Estava escrito:

“A gravação do disco, por sinal, contou com a presença de Elba e de seu irmão, Zé Ramalho, padrinho musical de Cátia”.

Onde foi? – perguntei ao leitor.

Ele me respondeu, e eu procurei a matéria completa para ler.

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Há pouco mais de 40 anos, desde que Elba e Zé Ramalho conquistaram dimensão nacional, é comum ler em matérias jornalísticas que os dois são primos.

Irmãos?

Leio pela primeiríssima vez!

“Ivete é grandiosa, diva, estrela e também uma foliã comum…”

Caetano Veloso usou as redes sociais para escrever sobre Ivete Sangalo.

Caetano diz de onde vem o luminoso resultado artístico e social da atividade pública da cantora.

É oportuno para os que ainda têm restrições a essa grande artista brasileira.

Segue o texto inteiro.

“Ontem foi o último dia de carnaval do 19. Infelizmente não calhou de eu ver @ivetesangalo na rua. Mas vi pela TV. Ivete é incrível. Sua presença sobre um trio em meio à multidão tem tudo o que pode haver de melhor em suas colegas. Em todos os colegas, de @bellmarques a @leosantana. O importante é o que ela tem além disso. Espontaneidade verdadeira, para lá do domínio musical (Ivete canta sentindo e entendendo os riffs, podendo estar tocando todas as tumbadoras da banda, reconstruindo, com a voz e o corpo, os arranjos junto aos músicos): ela vê cada pessoa real em que bate o olho, sua entrega é total. Todos sabem que todo ano ela sai no chão, mascarada. Dá pra ver que é isso que segue com ela até o topo do caminhão do trio. Ivete é grandiosa, diva, estrela e também uma foliã comum o tempo todo. Isso arrebata. Vendo-a na TV, de amarelo pinto ou de azul cobalto, a gente tem certeza de estar diante de uma das maiores personalidade da história da nossa cultura. Toda a economia que ela faz de suas energias, resguardando a privacidade ou evitando racionalizar opiniões é mais do que louvável: depende muito disso o luminoso resultado artístico e social de sua atividade pública.”

“Bolsonaro, vai tomar no…” foi um dos grandes hits do carnaval

Não há dúvida.

“Bolsonaro, vai tomar no…” foi um dos grandes hits do carnaval 2019.

Um grito espontâneo das multidões que brincaram nas ruas.

Houve outros hits, certamente, mas esse se destacou.

É ruim para um presidente eleito há quatro meses com 58 milhões de votos e um governo que tem apenas dois meses. Um presidente que, em tese, ainda deveria estar em lua de mel, como ocorrem nos governos novos.

Em dois meses, houve o vexame em Davos, a trapalhada com a Venezuela, a queda de Bebianno, os excessos dos filhos nas redes sociais, os laranjas do PSL, o episódio do Hino Nacional, a desnomeação ordenada a Moro. É muito para tão pouco tempo.

Em dois meses, não foi assim com Sarney, nem com Fernando Henrique, nem com Lula, nem com Dilma.

A gente olha para Bolsonaro e é natural que enxergue nele um muito provável despreparo para o exercício da presidência. E, junto a isso, uma inapetência para os indispensáveis rituais da liturgia do cargo.

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Parece evidente que o presidente não suportou o “vai tomar no…” que a multidão bradou.

Bolsonaro acusou o golpe na terça-feira de carnaval.

Primeiro, sem citar nomes, usou o Twitter para postar uma marchinha ridícula em resposta ao Proibido o Carnaval de Daniela Mercury e Caetano Veloso. Chamou de “artistas” – assim mesmo, com aspas – artistas que são Artistas – assim mesmo, com letra maiúscula.

Mais tarde, foi além do que se pode esperar de um presidente da República. Postou um vídeo, gravado durante o desfile de um bloco, tentando transformar a exceção em regra.

Obsceno. Escatológico. Pornô. Vi várias classificações. A Folha, em manchete no online, usou obsceno.

Não vou classificar. Prefiro dizer que é absolutamente incompatível com a postura de um presidente.

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Nos Estados Unidos, o deep state funciona muitíssimo bem. É quem controla os excessos de Trump.

No Brasil, sequer há deep state.

Quem, então, vai desarmar o palanque, confiscar o smartphone de Bolsonaro e dizer que ele comece a governar?

Getúlio tinha Villa-Lobos. Bolsonaro – pobre Brasil – não tem ninguém

Lembrei de Villa-Lobos nesta terça-feira (05) de carnaval.

É que ele nasceu num dia cinco de março, como hoje.

Por mais absurdo que possa parecer, lembrei de Villa-Lobos por causa de Bolsonaro.

Li que o que o ministro Vélez Rodriguez propôs às escolas (Hino Nacional, crianças perfiladas, gravação em vídeo e “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”) é parecido com o que Villa-Lobos fez no Estado Novo.

O que Villa-Lobos fez no governo Vargas (a educação musical, o canto orfeônico, as grandes concentrações estudantis, etc.) não pode ser subdimensionado a esse ponto de comparação com um ministro a propor ilegalidades (vídeos de menores sem autorização, uso de slogan de campanha eleitoral) às escolas.

Claro que é complicado defender o Estado Novo. Claro que é questionável que Villa-Lobos tenha emprestado seu nome à ditadura de Getúlio. Mas há um legado da sua relação com a Era Vargas. Vinham de lá (para dar um diminuto exemplo) as aulas de educação musical que tínhamos nas escolas até o início dos anos 1970.

E há a obra gigantesca de Heitor Villa-Lobos, o maior dos nossos compositores, que projetou o Brasil internacionalmente.

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O Ministério da Cultura foi criado no início da redemocratização, depois da ditadura militar iniciada em 1964.

Sarney teve o paraibano Celso Furtado como ministro. Um luxo absoluto.

Collor transformou o ministério em secretaria e a entregou ao paraibano Ipojuca Pontes, um direitista ressentido que acabou com o cinema brasileiro.

Itamar teve Antônio Houaiss, nosso imenso filólogo.

FHC teve Francisco Weffort, um intelectual brilhante.

Lula teve Gilberto Gil, um grande artista popular que redimensionou o papel do ministério.

Bolsonaro não tem ninguém. Nem Ministério da Cultura ele tem.

E serve para quê? – perguntarão os que hoje exaltam a ignorância.

O futuro dirá.

Avôs e avós, netos e netas. A propósito de Lula e Arthur

Meu avô paterno se chamava Onaldo.

Minha avó paterna se chamava Isaura.

Meu avó materno se chamava José Osias.

Minha avó materna se chamava Stella.

Meu avô Onaldo era militar. Lutou em 32 pelas forças getulistas e levou um tiro na nuca. Sobreviveu e foi reformado. Militou na UDN, foi gráfico em A União, fez poesia, escreveu dois livros, era espírita. Com ele, ouvi Orlando Silva & Pixinguinha & Luiz Gonzaga. No Natal de 1967, me deu de presente o disco com as músicas do festival de Alegria Alegria e Domingo no Parque.

Minha avó Isaura era uma mulher melancólica. Parecia estar sempre triste. Uma foto que guardo cuidadosamente revela que fora muito bonita na juventude. Foi quem me mostrou Quem Sabe, de Carlos Gomes, dizendo o quanto aquela música era bonita. Ficou para sempre associada a ela. Morreu quando eu tinha quinze anos. Foi meu primeiro contato muito próximo com a morte.

Meu avô Osias dizia que era nobre. Pertencia à família do Barão de Lucena. O barão faliu e ficou conhecido como “barão do nada tem”. Meu avô veio de Olinda, conheceu minha avó no carnaval de 1920, em Bananeiras. Foi ele que me ensinou a andar de bicicleta e a jogar xadrez. Dizem que era durão, mas conheci seu lado terno. Lia compulsivamente e adorava As Mil e Uma Noites. Não gostava de música.

Minha avó Stella tinha liderança na paróquia do bairro. Comandava as Mães Cristãs. Era irresistivelmente eloquente. Conquistava pela fala. Juntos, ouvimos muita música, os clássicos e os populares, os antigos e os novos. Foi ela que me levou para ver A Noviça Rebelde na estreia. Na velhice, descobriu a música de Egberto Gismonti. Ficaram amigos – uma experiência humana riquíssima da qual fui testemunha.

Avôs e avós.

Figuras especialíssimas na vida da gente.

Um amor diferente do amor de pai e mãe, mas de uma força incomum.

Netos e netas.

Também muito especiais na vida dos avôs e avós.

Amores essenciais na travessia dos verdadeiros homens humanos.

Andre Previn, entre o popular e o erudito, era um músico completo

Morreu Andre Previn.

Ia fazer 90 anos em abril.

Deve ser lembrado como um dos grandes músicos do século XX.

Andre Previn era judeu alemão.

A família fugiu do nazismo. Foi para a América.

Previn se fez músico. Grande músico. Foi atuar no cinema.

Ele era tudo. Compositor, pianista, arranjador, maestro.

Um erudito em diálogo permanente com o jazz, com o pop.

Dirigiu e conduziu grandes orquestras do mundo, entre elas a Orquestra Sinfônica de Londres.

Na vida privada, vou resumir assim:

Roubou Mia Farrow de Frank Sinatra. Perdeu Mia Farrow para Woody Allen.

Seu legado? A música maravilhosa que tem sua assinatura.

Mais: a crença no encontro entre expressões artísticas aparentemente divergentes.

Andre Previn era um músico completo.