O Correio das Artes foi capa do Segundo Caderno de O Globo (1)

O Correio das Artes está fazendo 70 anos.

É uma data a comemorar.

Tenho uma história a contar sobre o suplemento literário (ou cultural) de A União.

O resumo é: como o Correio das Artes foi capa do Segundo Caderno de O Globo.

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Em 2009, editor de A União, tornei concreto um velho projeto: fazer uma extensa entrevista com Caetano Veloso só sobre cinema.

A entrevista foi capa do Correio das Artes.

Caetano Cinevivendo era o título. Uma sugestão de Jomard Muniz de Britto, nosso guru nordestino do Tropicalismo.

Na capa, uma bela foto de Germana Bronzeado.

Um texto de abertura assinado por mim falava da relação de Caetano com o cinema, desde os tempos em que era estudante em Salvador e fazia crítica de cinema nos jornais da cidade.

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Numa feira literária no Recife, Jomard esteve com Geneton Moraes Neto e deu a ele um exemplar do Correio das Artes com a entrevista de Caetano.

Alguns dias depois, Geneton me ligou se desculpando por ter publicado, sem pedir autorização, um trecho da entrevista no blog Dossiê Geral, que mantinha no G1.

Eu respondi que ele não precisava se desculpar e fui ler o material.

Confesso que fiquei surpreso.

Transcrevo e, num próximo post, conto o resto da história.

WOODY ALLEN É UM “CINEASTA PEQUENO”, “UM CARETA” DE “VISÃO ESTREITA” E “FRASES BRILHANTES”. ASSINADO: CAETANO VELOSO

ter, 13/10/09
por Geneton Moraes Neto |

Woody Allen vem aí. Deve fazer um filme no Brasil. O Dossiê Geral publicou dois posts sobre o homem nos últimos dias.

O Festival Woody Allen ganha, hoje, um último acréscimo, graças a um acaso : um exemplar de um suplemento literário me foi entregue quando eu flanava pelos corredores da Bienal do Livro de Pernambuco.  

Por coincidência, justamente ele, Woody Allen, é um dos temas de uma entrevista que Caetano Veloso concedeu ao Correio das Artes, suplemento literário do jornal paraibano A União. Bem editado, o suplemento circula há sessenta anos. É gol da pequenina Paraíba! 

“É um careta, um cineasta pequeno”, declara Caetano Veloso sobre Woody Allen, em depoimento que se estende por onze páginas.  Assunto exclusivo da entrevista : cinema. 

Eis a íntegra do que Caetano Veloso diz sobre Woody Allen no depoimento a Sílvio Osias :

“Fizeram uma espécie de festival Woody Allen no Telecine Cult. Vi por acaso: passavam os filmes nas horas em que vou me deitar. Gostei de todos: dos que revi e dos que nunca tinha visto. Mas sei que ter saído de casa para ir ao cinema era um pouco demais para filmes tão estreitos. A TV é o perfeito veículo para Allen.O primeiro filme dele que vi foi Boris Gruschenko e achei que parecia um programa de TV meio malfeito”.

“Depois, ele melhorou a estrutura dos roteiros e o uso da câmera. Passou a fazer filmes melhores. Mas sempre muito anti-sixties,um tanto reacionário. Muito hétero, muito reverente com os amantes de ópera que vivem no Upper East Side, muito chegado a uma decoração creme por trás de roupa bege. Careta até não poder”.

“Gay, maconha, rock, Bob Dylan, tudo isso é desprezado por ele. Eu entendo: vemos peças da Broadway pós-rock (o pós-rock que se usa na Broadway) e pensamos em quão genial eram Porter, Gershwin e Rogers: essas baladas que se ouvem nos espetáculos novos ( dos 70 para cá) são chatérrimas- o mesmo se dando com os desenhos animados em longa metragem: em Branca de Neve, quando os personagens param para cantar é um alumbramento; em Aladim ou Moisés, Príncipe do Egito, é um bocejo: são uma mistura de campo com igreja, um negócio que sempre parece que a Mariah Carey vai cantar, com dramaticidade negra de igreja mas abastardada, sem a malícia e a urbanidade, a inteligência de uma canção de Berlin ou de Kern. Então, é gostoso que um cara velho seja sincero a esse respeito. E muitas das piadas ( “one liners”) são excelentes. Mas sempre se revela uma visão estreita”.

“O público que o adorava quando ele era uma novidade com filmes ruins não gosta nem dos bons que às vezes ele faz. Meu filme favorito dele é Bullets Over Broadway: é uma comédia de verdade. Diane Wiest está genial (nada da chatice que ela apresenta quando faz personagens “sensatos” em filmes de outros diretores: ela é falsa, parece uma maluca fingindo que é sã),tem situações ótimas. E Allen tem a grande elegância de dar a seus filmes a duração que os filmes tinham quando ele era menino. Talvez isso contribua para para o seu relativo frascasso comercial nos EUA: o público exige supersized movies”.

“Os produtores descobriram que o povo pensa que se um filme não dura mais de duas horas e quinze ele não está sendo “bem servido”. É como um restaurante vulgar – e como o ar-condicionado dos cinemas: os idiotas pensam que, quanto mais frio, melhor”.

“Allen faz filmes do tamanho de filmes. Adoro Nova Iorque – e ele a conhece e sabe filmar a arquitetura da cidade. Além disso, ele é o grande herdeiro do cinema novaiorquino, independente de Los Angeles. Ele não é nenhum Cassavetes, mas merece estar ligado à tradição que este iniciou. É um careta, um cineasta pequeno, mas é um cara legal, com frases brilhantes, com algunas cenas espetaculares como ator- e canta muito, muito bem na cena curta em que o faz, em Everybody Says I Love You. Considero uma conquista imensa ele ter o “final cut” dos seus filmes”.