55 anos do golpe militar de 64. Do Brasil, SOS ao Brasil

Neste domingo (31), faz 55 anos que um golpe militar derrubou o presidente João Goulart.

Durante 21 anos, o Brasil viveu sob uma ditadura.

Houve prisões, cassações, exílios, tortura, assassinatos, desaparecimentos.

Houve fechamento do Congresso, censura à imprensa e à produção cultural, e perseguição a lideranças civis, estudantes, padres e bispos.

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O presidente Jair Bolsonaro quer reescrever a História. Nem é papel dele, nem ele teria capacidade intelectual para fazê-lo.

O que se tem hoje no Brasil é uma direita burra a exaltar a ignorância.

Bolsonaro mandou que as forças armadas comemorassem o 31 de março.

Depois, num recuo, disse que rememorassem.

O golpe militar e a ditadura que a este se seguiu foram muito comentados nos últimos dias.

O debate me levou a pensar nas canções da época.

Músicas que a gente ouviu com Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Geraldo Vandré, Tom Jobim, Chico Buarque, Gonzaguinha, Paulinho da Viola, Ivan Lins, João Bosco, Luiz Melodia, Elis Regina, Sérgio Ricardo, Belchior, MPB4.

O que temos a seguir é um painel montado a partir de versos de 25 canções lançadas entre a segunda metade dos anos 1960 e o início da década de 1980.

Canções de guerra, de amor, de luta, de tristeza, de esperança.

Há muitas outras, mas escolhi essas:

 

Aqui é o fim do mundo

Aqui é o fim do mundo

Aqui é o fim do mundo

 

Vamos passear nos Estados Unidos do Brasil

Vamos passear escondidos

Vamos desfilar pela rua onde Mangueira passou

Vamos por debaixo das ruas

 

Morte vela sentinela sou

Do corpo desse meu irmão que já se foi

Revejo nessa hora tudo que aprendi

Memória não morrerá

 

Eu já fui até soldado

Hoje muito mais amado

Sou chofer de caminhão

 

Vou deitar à sombra de uma palmeira que já não há

Colher a flor que já não dá

E algum amor talvez possa espantar

As noites que eu não queria

E anunciar o dia

 

Esqueça que está desempregado

Você merece, você merece

Tudo vai bem, tudo legal

 

Meu amor eu não esqueço

Não se esqueça por favor

Que eu voltarei depressa

Tão logo a noite acabe

Tão logo esse tempo passe

Para beijar você

 

Um grande país eu espero

Espero do fundo da noite chegar

 

Sumir desse jeito não tem cabimento

Me conta quem foi, porque foi

E tudo que você passou

Preciso saber seu tormento

Preciso saber da aflição

 

Mas ovelha negra me desgarrei

O meu pastor não sabe que eu sei

Da arma oculta na sua mão

 

Tente usar a roupa que estou usando

Tente esquecer em que ano estamos

Arranje algum sangue, escreva num pano

Pérola negra, te amo, te amo

 

O Brazil não conhece o Brasil

O Brasil nunca foi ao Brazil

 

Minha fortaleza é de um silêncio infame

Bastando a si mesma

Retendo o derrame

A minha represa

 

Quem cala sobre teu corpo

Consente na tua morte

Talhada a ferro e fogo

Nas profundezas do corte

 

Ele, o artesão

Faz dentro dela a sua oficina

E ela, a tecelã

Vai fiar nas malhas do seu ventre

O homem de amanhã

 

Esse silêncio todo me atordoa

Atordoado eu permaneço atento

Na arquibancada pra a qualquer momento

Ver emergir o monstro da lagoa

 

Gente lavando roupa

Amassando pão

Gente pobre arrancando a vida com a mão

No coração da mata gente quer prosseguir

Quer durar, quer crescer

Gente quer luzir

 

Não se incomode

Quando a gente pode, pode

O que a gente não pode, explodirá

A força é bruta

E a fonte da força é neutra

E de repente a gente poderá

 

Olha o vazio nas almas

Olha um violeiro de alma vazia

 

A voz resiste, a fala insiste, você me ouvirá

A voz resiste, a fala insiste, quem viver verá

 

E quando passarem a limpo

E quando cortarem os laços

E quando soltarem os cintos

Façam a festa por mim

 

A história é um carro alegre

Cheio de um povo contente

Que atropela indiferente

Todo aquele que a negue

 

Vejo uma trilha clara pro meu Brasil

Apesar da dor

Vertigem visionária que não carece

De seguidor

 

Você corta um verso, eu escrevo outro

Você me prende vivo, eu escapo morto

 

Do Brasil,

SOS ao Brasil   

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Marginália II/Enquanto seu lobo não vem/Sentinela/Ventania/Sabiá/Comportamento geral/Para um amor no Recife/Clube da esquina/Aparecida/Agnus sei/Pérola negra/Querelas do Brasil/Fortaleza/Menino/Primeiro de maio/Cálice/Gente/Realce/Calabouço/Não leve flores/Aos nossos filhos/Canção pela unidade latinoamericana/Nu com a minha música/Pesadelo/Querelas do Brasil. 

 

“Nelma, a vida não se acaba com a morte”

Neste sábado (30), faz um ano que Nelma Figueiredo morreu.

Escrevi esse texto em setembro do ano passado, no dia do aniversário dela.

Nelma me levou para perto da morte de um modo que eu nunca havia experimentado, a despeito de todas as perdas que já tive.

Nessa jornada que se estendeu por um ano e oito meses, fui puxado para junto dela e, igualmente, a quis junto de mim. Coisas que podem encontrar explicação nas religiões, para quem as tem, ou na força de uma amizade.

20 meses. Muito pouco tempo se pensarmos na sobrevida pela qual o paciente luta.

20 meses. Muito tempo se pensarmos no sofrimento de quem se vê consumido por uma doença devastadora como o câncer.

O diagnóstico inicial – um câncer de pulmão já com metástase – não deixava dúvidas sobre a gravidade do quadro. Não haveria cura. Uma cronicização da doença? Quem sabe?

Nelma era movida pela fé. Nela, encontrava forças para enfrentar o câncer. Trabalhava normalmente, tinha vida social ativa, aguardava ansiosamente o nascimento da neta Maria.

Eu não tinha qualquer otimismo, mas as nossas expectativas sobre a doença ficaram guardadas. Nelma vinha com a crença, eu ia com o silêncio. E ela parecia entender o quanto o meu silêncio era eloquente.

A metástase hepática, confirmada 40 dias antes da morte, trouxe a certeza de que não havia mais nada a fazer.

Vi minha amiga querida se entregar a uma tristeza profunda, a um recolhimento que não combinava com a sua natureza sempre muito inquieta.

Esperei que falasse comigo sobre a morte. O que eu diria? Que sim, que ela ia morrer? Não sei como seria essa conversa, mas estava certo de que ocorreria. E tentava estar pronto para enfrentá-la.

Houve um momento, numa das últimas consultas, em que Nelma perguntou ao oncologista:

E agora?

Ao que ele respondeu, com admirável serenidade:

A vida não se acaba com a morte.

Comigo, não. Nos dias finais, foi só silêncio.

Ou falas que não combinavam com a realidade:

E então, Sílvio, como foi o concerto de Geraldo Vandré?

Como se não quisesse ouvir o que eu, se abordado, não poderia deixar de lhe dizer.

Nelma se foi na tarde da sexta-feira santa. Vê-la morrer foi uma experiência dolorosa que só o tempo amenizará.

Sinto sua falta. Sobretudo das conversas diárias de anos e anos, já cheias de desencanto, sobre o ofício que escolhemos. Era o terreno das nossas maiores afinidades.

Nelma Figueiredo morreu há um ano

Neste sábado (30), faz um ano da morte da jornalista Nelma Figueiredo.

Às cinco da tarde, será celebrada uma missa na igreja São Pedro e São Paulo, no Brisamar.

Esse texto, que republico hoje, escrevi no dia em que Nelma morreu.

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Nelma Figueiredo morreu.

Dizer que ela foi uma das melhores jornalistas da minha geração pode ser um clichê, mas é absolutamente verdadeiro.

Dizer que ela lutou bravamente contra o câncer que a consumiu em menos de dois anos é outro clichê, mas foi exatamente assim.

Nelma enfrentou a doença com uma força singular.

Sabia, desde o início, que a cura era uma impossibilidade.

A luta era por mais tempo de vida.

Movida pela fé, tinha uma esperança que só se foi nas últimas semanas, quando entendemos que não havia mais nada a fazer.

Quando entendeu que a batalha estava perdida.

Na juventude, éramos assim, como nessa foto do tempo da universidade.

1983. Ou 1984. Parecíamos felizes.

O Brasil que estava mudando.

Os sonhos com um exercício digno da profissão que escolhêramos.

Nelma está no centro.

Tinha 19 ou 20 anos.

Era uma garota inquieta que morava no mesmo bairro que eu e me levava para as aulas noturnas de fotografia.

A partir de 1988 – ela com 24 anos, eu com 29 – juntamos a amizade com a parceria no campo profissional.

Convergimos muito.

Também divergimos.

Tivemos grandes desencontros afetivos e profissionais.

Daqueles que o tempo e a capacidade de perdoar resolvem.

E que parecem confirmar as verdadeiras amizades.

Não serei modesto: quando começamos, na TV Cabo Branco, fizemos jornalismo pioneiro. A televisão acabara de chegar a João Pessoa, e tínhamos consciência de que fazíamos história no jornalismo paraibano. Abríamos caminho para o que viria em seguida. Brigávamos pelo cânone, mas temíamos, com razão, muita coisa ruim que mais tarde contaminaria nossas telinhas.

Nelma amava a profissão.

Respirava notícia.

Era jornalista o dia todo, onde quer que estivesse.

Tinha predileção pela editoria de política.

Gostava de cobrir os bastidores do poder, os processos eleitorais.

Adorava conversar sobre os cenários e seus personagens em longos telefonemas.

Era repórter por excelência. Ágil, brilhante, com um feeling extraordinário.

Tinha orgulho do que fazia porque fazia muito bem.

Amava estar na rua com sua equipe.

Quando retornava à redação, corria para a ilha de edição para compartilhar comigo o que conseguira.

Comumente, ia além da pauta, trazia o melhor.

Nessa foto, de 2017, ela aparece tão bonita.

Mas estava triste.

Segurava uma barra que optou por dividir com poucos, poupando família e amigos.

Na tarde desta sexta-feira santa, descansou.

É outro clichê.

Mas foi assim mesmo.

Com Nelma Figueiredo, experimentei ter uma amiga a quem a gente pode dizer que ama.

E ouve que é amado.

O Correio das Artes foi capa do Segundo Caderno de O Globo (2)

Retomo o tema do post anterior.

Aproveito os 70 anos do suplemento literário de A União.

Resumi assim: como o Correio das Artes foi capa do Segundo Caderno de O Globo.

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Geneton Moraes Neto fez no seu blog o que eu não quis fazer no Correio das Artes.

Para Geneton, o importante foi pinçar algo que estava lá no meio da entrevista com Caetano Veloso sobre cinema para – digamos – “esquentar” o conteúdo.

Para mim, o importante não era o que Caetano dizia sobre Woody Allen.

Para mim, o essencial era ter Caetano falando longamente – e tão bem – sobre um negócio que ele ama profundamente, o cinema.

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Uma manhã qualquer, estava na minha sala em A União quando fui chamado por Nelson Coelho, nosso superintendente.

Nelson lembrou que eu assumira a editoria do jornal e ainda não ligara para Sebastião Nery, aquele do folclore político, que era um dos nossos colunistas.

Nelson, então, ligou para Nery e passou o telefone para mim. Trocamos algumas palavras, e ele disse:

Você está de Parabéns!

Agradeci e perguntei o motivo. Será pela editoria de A União? – indaguei.

Ao que Nery respondeu:

A entrevista com Caetano no Correio das Artes repercute aqui no Rio e hoje é capa do Segundo Caderno de O Globo.

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VAMOS COMER WOODY ALLEN era o título da matéria de capa, assinada por Arnaldo Bloch e Rodrigo Fonseca.

Lá estava: “Meio artístico responde a Caetano Veloso, que, em entrevista, chamou diretor americano de “careta”, “reacionário” e “cineasta pequeno”. 

O Globo resolvera repercurtir o blog de Geneton.

O texto de abertura citava a autoria da entrevista e o veículo onde fora publicado.

Gente como Domingos Oliveira, Murilo Salles, Flávio Tambellini, Walter Carvalho, Ana Maria Magalhães, Roberto Muggiati e Geraldo Carneiro, entre tantos outros, comentava as declarações de Caetano Veloso sobre Woody Allen.

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Minha opinião sobre o episódio:

Foi positivo que o nosso pequenino Correio das Artes tenha obtido visibilidade nacional.

Mas, desde o primeiro instante, discordei do tratamento que o querido Geneton Moraes deu à entrevista em seu blog. Nada, no entanto, que maculasse toda a admiração que eu tinha por ele.

O Correio das Artes foi capa do Segundo Caderno de O Globo (1)

O Correio das Artes está fazendo 70 anos.

É uma data a comemorar.

Tenho uma história a contar sobre o suplemento literário (ou cultural) de A União.

O resumo é: como o Correio das Artes foi capa do Segundo Caderno de O Globo.

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Em 2009, editor de A União, tornei concreto um velho projeto: fazer uma extensa entrevista com Caetano Veloso só sobre cinema.

A entrevista foi capa do Correio das Artes.

Caetano Cinevivendo era o título. Uma sugestão de Jomard Muniz de Britto, nosso guru nordestino do Tropicalismo.

Na capa, uma bela foto de Germana Bronzeado.

Um texto de abertura assinado por mim falava da relação de Caetano com o cinema, desde os tempos em que era estudante em Salvador e fazia crítica de cinema nos jornais da cidade.

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Numa feira literária no Recife, Jomard esteve com Geneton Moraes Neto e deu a ele um exemplar do Correio das Artes com a entrevista de Caetano.

Alguns dias depois, Geneton me ligou se desculpando por ter publicado, sem pedir autorização, um trecho da entrevista no blog Dossiê Geral, que mantinha no G1.

Eu respondi que ele não precisava se desculpar e fui ler o material.

Confesso que fiquei surpreso.

Transcrevo e, num próximo post, conto o resto da história.

WOODY ALLEN É UM “CINEASTA PEQUENO”, “UM CARETA” DE “VISÃO ESTREITA” E “FRASES BRILHANTES”. ASSINADO: CAETANO VELOSO

ter, 13/10/09
por Geneton Moraes Neto |

Woody Allen vem aí. Deve fazer um filme no Brasil. O Dossiê Geral publicou dois posts sobre o homem nos últimos dias.

O Festival Woody Allen ganha, hoje, um último acréscimo, graças a um acaso : um exemplar de um suplemento literário me foi entregue quando eu flanava pelos corredores da Bienal do Livro de Pernambuco.  

Por coincidência, justamente ele, Woody Allen, é um dos temas de uma entrevista que Caetano Veloso concedeu ao Correio das Artes, suplemento literário do jornal paraibano A União. Bem editado, o suplemento circula há sessenta anos. É gol da pequenina Paraíba! 

“É um careta, um cineasta pequeno”, declara Caetano Veloso sobre Woody Allen, em depoimento que se estende por onze páginas.  Assunto exclusivo da entrevista : cinema. 

Eis a íntegra do que Caetano Veloso diz sobre Woody Allen no depoimento a Sílvio Osias :

“Fizeram uma espécie de festival Woody Allen no Telecine Cult. Vi por acaso: passavam os filmes nas horas em que vou me deitar. Gostei de todos: dos que revi e dos que nunca tinha visto. Mas sei que ter saído de casa para ir ao cinema era um pouco demais para filmes tão estreitos. A TV é o perfeito veículo para Allen.O primeiro filme dele que vi foi Boris Gruschenko e achei que parecia um programa de TV meio malfeito”.

“Depois, ele melhorou a estrutura dos roteiros e o uso da câmera. Passou a fazer filmes melhores. Mas sempre muito anti-sixties,um tanto reacionário. Muito hétero, muito reverente com os amantes de ópera que vivem no Upper East Side, muito chegado a uma decoração creme por trás de roupa bege. Careta até não poder”.

“Gay, maconha, rock, Bob Dylan, tudo isso é desprezado por ele. Eu entendo: vemos peças da Broadway pós-rock (o pós-rock que se usa na Broadway) e pensamos em quão genial eram Porter, Gershwin e Rogers: essas baladas que se ouvem nos espetáculos novos ( dos 70 para cá) são chatérrimas- o mesmo se dando com os desenhos animados em longa metragem: em Branca de Neve, quando os personagens param para cantar é um alumbramento; em Aladim ou Moisés, Príncipe do Egito, é um bocejo: são uma mistura de campo com igreja, um negócio que sempre parece que a Mariah Carey vai cantar, com dramaticidade negra de igreja mas abastardada, sem a malícia e a urbanidade, a inteligência de uma canção de Berlin ou de Kern. Então, é gostoso que um cara velho seja sincero a esse respeito. E muitas das piadas ( “one liners”) são excelentes. Mas sempre se revela uma visão estreita”.

“O público que o adorava quando ele era uma novidade com filmes ruins não gosta nem dos bons que às vezes ele faz. Meu filme favorito dele é Bullets Over Broadway: é uma comédia de verdade. Diane Wiest está genial (nada da chatice que ela apresenta quando faz personagens “sensatos” em filmes de outros diretores: ela é falsa, parece uma maluca fingindo que é sã),tem situações ótimas. E Allen tem a grande elegância de dar a seus filmes a duração que os filmes tinham quando ele era menino. Talvez isso contribua para para o seu relativo frascasso comercial nos EUA: o público exige supersized movies”.

“Os produtores descobriram que o povo pensa que se um filme não dura mais de duas horas e quinze ele não está sendo “bem servido”. É como um restaurante vulgar – e como o ar-condicionado dos cinemas: os idiotas pensam que, quanto mais frio, melhor”.

“Allen faz filmes do tamanho de filmes. Adoro Nova Iorque – e ele a conhece e sabe filmar a arquitetura da cidade. Além disso, ele é o grande herdeiro do cinema novaiorquino, independente de Los Angeles. Ele não é nenhum Cassavetes, mas merece estar ligado à tradição que este iniciou. É um careta, um cineasta pequeno, mas é um cara legal, com frases brilhantes, com algunas cenas espetaculares como ator- e canta muito, muito bem na cena curta em que o faz, em Everybody Says I Love You. Considero uma conquista imensa ele ter o “final cut” dos seus filmes”.

Bolsonaro quer, mas golpe militar não se comemora

Meu pai me ensinou logo cedo:

Está errado dizer Revolução de 31 de Março.

Esta é a versão oficial, mas não houve revolução coisa nenhuma.

O que houve foi a deposição, por militares, de um presidente civil.

Isto é um golpe militar.

Legitimamente, Jango foi eleito vice em 1960 e assumiu a presidência no ano seguinte, na renúncia de Jânio.

Mas meu pai me ensinou também que era perigoso falar em golpe militar, ditadura, etc.

Só mais tarde faremos isso livremente – ele me disse.

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A ditadura militar brasileira durou longos 21 anos. Da deposição de Jango, em março de 1964, à posse de Sarney, em março de 1985.

Houve prisões, cassações, exílios, tortura, assassinatos, desaparecimentos.

Houve fechamento do Congresso, censura à imprensa e à produção cultural, e perseguição a lideranças civis, estudantes, padres e bispos.

Como costuma haver nas ditaduras que começam com um golpe militar contra um presidente civil.

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No tempo da ditadura, todo ano havia comemoração do 31 de março.

A partir da redemocratização, ficou restrita aos quartéis.

Acabou no governo de Dilma.

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O golpe militar de 31 de março de 1964 fará 55 anos no próximo domingo.

O presidente Jair Bolsonaro mandou que fosse comemorado pelos militares.

Bolsonaro quer contar a história do jeito que ela era oficialmente contada durante a ditadura.

É um ataque à memória nacional e um desrespeito às regras do jogo democrático.

Golpe militar não se comemora.

O que temos sob Bolsonaro não é normal. A quem crê, digo: oremos!

O post de hoje surgiu numa conversa de redação.

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Nasci em 1959. O presidente era JK.

Tinha pouco mais de um ano quando Jânio foi eleito.

Pouco mais de dois quando renunciou.

Meu avô materno tinha um santinho da campanha de Jânio na parede. Ficou lá por muitos anos. Jânio e a vassoura com a qual prometera varrer a bandalheira. Antecipava, em quase 30 anos, a conversa de Collor sobre a guerra aos marajás. E, em quase 60, o discurso de Bolsonaro contra a “velha política”.

Eu ia fazer cinco anos quando os militares depuseram Jango. Lembro vagamente.

Sobre JK, Jânio e Jango, o que tenho arquivado na memória foi construído mais tarde.

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Castelo Branco

Um dia, meu pai disse à minha mãe que era bobagem acreditar que ele devolveria o poder aos civis e que logo teríamos gente como Brizola e Lacerda disputando as eleições presidenciais.

Costa e Silva

Teve a turbulência de 68, o AI-5, o golpe dentro do golpe, a junta militar que assumiu o poder.

Médici

Na escola, a professora repreendeu o aluno que chamou o presidente de “Garrafa Azul”. Teve o “milagre econômico”, o ame-o ou deixe-o e a frase que nunca deletei: “O país vai bem, mas o povo vai mal”.

Geisel

Teve o início da abertura lenta e gradual. E Golbery, que Glauber Rocha chamou de “gênio da raça”. Teve também Herzog e o murro na mesa quando o general Frota tentou depor o presidente.

Figueiredo

Ao cheiro do povo, preferia o cheiro dos cavalos. Disse que prenderia e arrebentaria os que se opusessem à abertura. Foi o último presidente do ciclo militar.

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Tancredo

Uma tragédia nacional.

Sarney

Na juventude, era da bossa nova da UDN. Depois, homem de confiança da ditadura. Rompeu para ser vice de Tancredo. Foi o primeiro presidente civil depois de 64 e o último eleito pela via indireta. Teve o Plano Cruzado e – lembram? – os “cinco anos para Sarney”.

Collor

Tipicamente, uma aventura brasileira. Era óbvio, para os que não votaram nele, que não daria certo. “As elites brasileiras são tão atrasadas que não aceitam nem Dr. Ulysses” – ouvi de Celso Furtado pouco antes da eleição.

Itamar

Mais um vice na presidência. Não era um Temer.

FHC

Teve a estabilidade da moeda, iniciada por Itamar no Plano Real. A esquerda não gosta dele, mas há que se reconhecer o seu papel na reconstrução da democracia brasileira.

Lula

Não sairíamos de Sarney para Brizola, mas saímos de FHC para Lula – um notável avanço no nosso processo civilizatório. Os erros do PT não apagarão o que houve de importante no seu governo.

Dilma

Não era para ser Dilma. Inviabilizou-se e foi inviabilizada.

Temer

Um desastre. O “tem que manter isso aí” não o derrubou, mas acabou o governo muito antes do fim.

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Bolsonaro

Jânio, Collor, Bolsonaro.

Mais uma aventura brasileira.

Quem quiser que ache o contrário, mas o que já vimos em três meses de governo não é normal.

Aos que creem, eu diria: “Oremos!”.

Domingos de Oliveira morre aos 83 anos

Domingos de Oliveira morreu neste sábado (23) aos 83 anos.

Estava em casa, no Rio de Janeiro, escrevendo quando passou mal.

Domingos de Oliveira era um artista múltiplo.

Ator e diretor. Sobretudo diretor.

Fez cinema, teatro e televisão.

Planejando a futura programação, já era da Globo quando a Globo ainda nem existia.

Realizou cinema de autor com textos muitíssimo inteligentes.

O filme de Domingos de Oliveira que me é mais caro?

Todas as Mulheres do Mundo, naturalmente.

É um dos grandes momentos do cinema brasileiro.

Domingos de Oliveira tinha 83 anos, mas continuava trabalhando.

A morte de gente como Domingos me faz pensar em como essas pessoas fazem falta nesse Brasil em que tantos, hoje, exaltam a ignorância.

De volta ao Brasil, McCartney já foi tratado como lixo pop

Paul McCartney está de volta ao Brasil.

Na semana que vem, fará shows terça (26) e quarta (27) em São Paulo e sábado (30) em Curitiba, onde esteve pela última vez em dezembro de 1993.

Às vésperas de completar 77 anos, faz tempo que Paul é uma unanimidade no mundo do pop/rock.

Mas nem sempre foi assim.

Ele já foi considerado um verdadeiro lixo pop.

Precisou até de um livro – Many Years From Now – para tentar desfazer essa imagem.

Perrepistas e liberais.

Estados Unidos e União Soviética.

Flamengo e Vasco.

Sabem aquelas forças antagônicas?

Tipo Beatles e Rolling Stones?

Pois é. Um dia houve também John Lennon e Paul McCartney.

No início dos anos 1970, ou você era John Lennon ou era Paul McCartney.

Muito raramente havia espaço para os dois na mesma discoteca.

John Lennon era o gênio politizado.

Paul McCartney era o tolo que fazia muzak.

Uma bobagem sem tamanho que, em alguns, perdurou até a década de 1990!

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Nunca gostei dessa conversa.

Sempre amei imensamente os dois. Compreendendo que um era diferente do outro. Por isso, se completavam enquanto beatles.

John Lennon fez John Lennon/Plastic Ono Band. E Imagine.

Paul McCartney fez Band on the Run. E Venus and Mars.

E ainda teve George Harrison que fez All Things Must Pass. E Living in the Material World.

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Desde 2010, o relançamento dos discos de Paul McCartney, em caprichadas edições, propicia um feliz reencontro com o seu cancioneiro solo.

Já são 12 volumes remasterizados e com material inédito.

Agora mesmo, temos mais dois no mercado: Wild Life e Red Rose Speedway, da época do grupo Wings.

Foram execrados por críticos e ouvintes na primeira metade dos anos 1970.

Padeciam de um comercialismo vulgar – diziam os que detratavam Paul.

Hoje, são adoráveis. Reúnem rocks e baladas com a inconfundível e competentíssima assinatura do autor.

Não têm nada de lixo pop.

É pop/rock de primeira qualidade.

Reouço velho grito de paz quando muitos ainda querem guerra

Encontro um CD raro entre os usados expostos numa loja.

Live Peace in Toronto.

Traz o show de John Lennon, Yoko Ono e a Plastic Ono Band num festival realizado em 1969.

Minha reaudição coincide com a data (20 de março) em que faz 50 anos do casamento de John e Yoko.

Live Peace in Toronto foi gravado e lançado antes da separação dos Beatles.

No lado A, há seis números com Lennon.

No lado B, dois com Yoko.

Os números de Yoko talvez possam ser classificados como rock de vanguarda. Ela grita em cima de uma base de rock.

Falo um pouco sobre as faixas de Lennon.

John e a Plastic Ono Band tocaram praticamente sem ensaio em Toronto.

Muitos desejariam uma banda como aquela: Eric Clapton na guitarra, Klaus Voorman no baixo, Alan White na bateria.

Das seis músicas, três são clássicos do rock’n’ roll: Blue Suede Shoes, Money e Dizzy Miss Lizzy.

As outras três têm a assinatura de Lennon: Yer Blues (gravada pelos Beatles em 1968) e, do início da fase solo, Cold Turkey e Give Peace a Chance.

O som é áspero.

É rock básico sem nenhum adorno nem muita conversa.

Por isso mesmo, é vigoroso. E visceral.

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É de 1995 a edição que ouço agora, oficial da Apple, lançada pela Capitol no mercado americano.

A captação original foi remasterizada e remixada.

A remixagem mudou sem mudar, se é que me faço entender.

Até a nota errada que Clapton dava na introdução de Dizzy Miss Lizzy desapareceu sem ser apagada (!!).

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Live Peace in Toronto 1969 é um estridente grito de paz.