Muriçocas começaram a morrer quando se aliaram a jogo político

Vi as Muriçocas do Miramar no nascedouro.

Em fevereiro de 1987, a TV Cabo Branco ainda não tinha dois meses quando, por sugestão do repórter Saulo Moreno, mandei cobrir o desfile de um pequeno bloco que desceria a Epitácio Pessoa em carroças. Era uma turma ligada à professora Vitória Lima, me disse Saulo.

Nos anos seguintes, vi – vimos! – o bloco se transformar num fenômeno extraordinário. Numa manifestação genuinamente popular e absolutamente autêntica, como são outras grandes manifestações do carnaval brasileiro. Sim, o carnaval como êxtase social, talvez dissesse Gilberto Gil.

“João Pessoa sonha com seu verde colorindo o azul do mar…” – não tinha preço ver o trio de Fuba descer a avenida ao som desse frevo lindo que conquistou a cidade e a ela passou a pertencer.

Vi tantas vezes. Como folião no asfalto. Como folião instalado no inesquecível camarote da casa de Dona Creusa Pires. Como chefe de redação a comandar a cobertura da TV Cabo Branco. Era sempre um dia especialíssimo.

Mas vi também os primeiros sinais de decadência. O que é autêntico, espontâneo, logo e inevitavelmente vai virando um negócio. Perde parte da beleza. Sofre contaminações. Começa a cansar o próprio folião, de cuja adesão o bloco depende.

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30 de setembro de 2004. Era uma quarta-feira, a quatro dias da eleição municipal que teria Ricardo Coutinho como vencedor.

À noite, eu estava no restaurante Tábua de Carne, na Ruy Carneiro, jantando com os repórteres Heraldo Pereira e Delis Ortiz, da Rede Globo, que mediariam, no dia seguinte, debates com os candidatos que disputavam as eleições para prefeito de João Pessoa e Campina Grande.

De repente, nossa conversa foi interrompida pelos fogos de artifício que iluminavam o céu do Miramar.

Era um carnaval fora de época. Eram as Muriçocas fora de época. Até o nome fora mudado para Girassoca. O bloco descia a Epitácio Pessoa para dizer que estava apoiando o candidato Ricardo Coutinho.

Eu também votaria nele, mas isso não me impedia de enxergar o erro grosseiro que estava sendo cometido.

Ora, um bloco que pertence a uma cidade não pode se alinhar a uma candidatura. Mesmo que seja – e era! – a melhor entre todas as candidaturas.

Em 2004, foi Ricardo. Em 2010, foi Ricardo com Cássio. E assim por diante.

O político está certo. Está no jogo dele.

O bloco está errado. Está num jogo que não deve ser o de uma agremiação carnavalesca amada pelo povo da cidade onde nasceu e cresceu.

Partidos e políticos representam pedaços. Mesmo que grandes pedaços.

As Muriçocas do Miramar conquistaram muito legitimamente o direito de representar o todo.

O todo é o povo de João Pessoa, que canta (cantava?) com orgulho o hino do bloco e se vê (via?) nos versos escritos por Fuba.

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Agora, às vésperas da quarta-feira de fogo de 2019, o bloco anuncia que não vai mais descer a Epitácio Pessoa.

Vai se concentrar no bairro onde nasceu.

Atingido pela falta de grana e por um formato que já deu o que tinha que dar, tenta uma reinvenção. Uma volta às origens.

Quem quiser que diga o contrário, mas, para mim, e eu já disse isso a Fuba, as Muriçocas do Miramar começaram a morrer quando se aliaram ao jogo político.

De todo modo, ainda torço, sinceramente, por um renascimento.