A bela música de um belo filme sobre cinema. Vamos ouvir?

O título:

Grand Choral de La Nuit Americaine.

O autor:

Georges Delerue.

Essa música é bonita demais!

Está guardada na minha memória afetiva há 45 anos.

Parece uma peça barroca, mas é música contemporânea.

Vamos ouvi-la?

Dura pouco mais de dois minutos.

O filme em que a música é ouvida:

A Noite Americana. La Nuit Americaine. Day for Night.

É sobre cinema. Conta a história de uma filmagem num estúdio na França.

François Truffaut é o diretor do filme de verdade e do filme dentro do filme.

O diretor da ficção sonha com o dia em que, garoto, roubou as fotos de Cidadão Kane de um cartaz de cinema.

O diretor da vida real veio da crítica e foi um dos artífices da Nouvelle Vague.

A Noite Americana é uma declaração de amor de um homem pelo seu ofício.

Totonho vai da matriz centenária do samba até o funk carioca

A alma anda roubando o alimento do corpo

Tem mais igreja do que supermercado

As primeiras notas do cavaquinho e as batidas iniciais da percussão sugerem que vamos ouvir uma marcha-rancho.

Mas não é isso. Logo, o violão de sete cordas revela que estamos diante de um samba bem carioca.

Parece um samba de sempre com uma letra de hoje – se é que me faço entender.

“Ela é a rainha do sistema/Ela é ninja e a vibe é arengar” – canta Totonho na faixa de abertura do seu novo CD.

Samba Luzia Gorda é um disco de sambas? Sim e não.

Seria, então, um disco de transambas? Quem sabe?

Prefiro dizer que é um trabalho de muitas conexões.

Vem do vínculo estabelecido por esse cara que saiu da Paraíba e foi morar no Rio. Do diálogo dele com a música e os músicos de lá e da relação que estabeleceu com a cidade.

Samba Luzia Gorda flagra Totonho percorrendo um longo caminho que vai da matriz centenária do samba até o funk carioca.

Seu disco é sobretudo muito (muitíssimo!) contemporâneo.

O CD, que começa com um samba e termina com um funk, confirma mais uma vez o talento que Totonho exibe desde que apareceu, há uns 30 anos, naqueles festivais que o Sesc realizava em João Pessoa.

Ele é muito bom de música e de letra e sabe juntar os dois elementos.

Samba Luzia Gorda é um disco inteiro num tempo de poucos discos inteiros.

Você ouve todo. E gosta do todo. Das músicas, das letras incríveis, da concepção dos arranjos, de como os gêneros são abordados.

De Judialva. De O Samba. De A Carioca. De Minha Gatinha Não. De Tem Mais Igreja do que Supermercado. De Amassar a Lataria.

Totonho e Os Cabra.

Totonho e seus convidados (André Abujamra, Quinteto da Paraíba, Moreno Veloso, Otto, etc.).

Totonho no samba.

Totonho no funk.

Totonho onde ele quiser.

Ele diz o que é preciso dizer a quem ouve o que é bom de se ouvir.

IZA grava Divino, Maravilhoso e confirma atualidade da canção

É PRECISO ESTAR ATENTO E FORTE

NÃO TEMOS TEMPO DE TEMER A MORTE

Divino, Maravilhoso.

Essa é uma das canções mais fortes e mais políticas do Tropicalismo.

Composta por Caetano Veloso e Gilberto Gil, foi gravada há 50 anos por Gal Costa.

Também deu nome ao programa de televisão dos tropicalistas.

Na época (e depois), não foi bem entendida por uma parcela da esquerda.

A letra era considerada alienada em relação ao quadro político nacional e à necessidade de enfrentamento do governo militar.

Quase uma década mais tarde, Belchior, em Apenas um Rapaz Latino Americano, ainda contestava o conteúdo dessa canção tropicalista.

O tempo passou (meio século!), e Divino, Maravilhoso continua atual.

Tem, aliás, uma incômoda atualidade nesse Brasil de agora, embora tenha sido composta para dar conta do Brasil de 1968.

Em releitura poderosa, com uma pegada contemporânea, a gravação de IZA (em dueto com Caetano Veloso) vem confirmar a permanência da canção.

Atenção para o refrão!

Linda Blair faz 60 anos. Êxito de O Exorcista não se repetiu

Esta é Linda Blair em 1973.

A garotinha possuída pelo demônio em O Exorcista tinha 14 anos.

Esta é a Linda Blair que, nesta terça-feira (22), chega aos 60 anos.

Ela se projetou internacionalmente com O Exorcista, mas não conseguiu construir uma carreira de sucesso.

O Exorcista é de 1973.

Chegou ao Brasil no final de 1974.

Longas filas. Casas cheias. Ambulância na porta do cinema. Era assim.

O livro de William Peter Blatty era um best seller.

O filme dirigido por William Friedkin (de Operação França) foi um sucesso absoluto.

Os críticos de cinema, de um modo geral, faziam restrições.

No fundo, parecia haver uma reação preconceituosa por causa do êxito comercial.

O tempo passou.

Hoje, O Exorcista é considerado um grande filme de terror. Um verdadeiro clássico do gênero.

Há quem diga que pode passar na Sessão da Tarde sem assustar mais ninguém, mas eu não tenho tanta certeza disso.

O cinema de terror feito atualmente é mais explícito. Tecnicamente, mais bem acabado. Só que carece de elementos subjetivos que há em O Exorcista e que mexem muito mais com o medo do espectador.

Quem, aos 54 anos, fez o padre chamado para tirar o demo do corpo de Regan, a menina interpretada por Linda Blair, foi Max Von Sydow, um dos atores preferidos de Ingmar Bergman. O cara que jogou xadrez com a morte em O Sétimo Selo.

Ellen Burstyn, com pouco mais de 40 anos, era a mãe da personagem de Linda Blair.

E ainda havia, no elenco, no papel do policial, o grande Lee J. Cobb.

*****

Linda Blair depois contracenou com Burt Lancaster numa sequência de O Exorcista.

Também atuou num dos filmes da franquia Aeroporto.

Mas a menina que, na tela, venceu o demônio, não viu, na vida real, sua carreira deslanchar.

Onde você estava quando Elis morreu?

Era começo da tarde. 13 horas, talvez. Eu ia para o jornal.

Parei numa banca de revistas, e uma notícia no rádio chamou minha atenção.

Falava da morte de uma cantora de 36 anos.

No primeiro instante, não entendi de quem se tratava. Mas fiquei ligado.

Veio, então, o choque:

Elis Regina já chegou morta ao hospital!

Eu me perguntei:

Elis? Não é possível!

A mistura fatal:

Cinzano com cocaína. (Mas ela não era “careta”?)

19 de janeiro de 1982. Há exatos 37 anos.

Onde você estava no dia em que perdemos Elis?

Elis Regina morreu há 37 anos. Saudade de Elis. Saudade do Brasil

Dezembro, 1979: Elis em João Pessoa. Foto de Bertrand Lira.

Conheço gente jovem que ouve Elis Regina e se emociona.

Será pela qualidade do seu canto?

Será pelo encontro da grande voz com o grande repertório?

Será pela evocação de uma época e de uma luta por dias melhores?

Ou misturamos tudo para perguntarmos se não é pela imensa beleza da sua arte?

Elis Regina resistiu à passagem do tempo. Sua vida foi contada no palco, num musical que provoca a ilusão de que estamos diante dela. Chegou à tela do cinema, num filme que não é excepcional, mas é necessário. Está nas livrarias, numa biografia escrita pelo jornalista Júlio Maria.

Nada será como antes. Diz a canção do Clube da Esquina. Diz o título do livro.

Acho que tudo foi bem diferente dos sonhos de uma geração.

A música de Elis evoca um tempo e faz pensar na distância entre sonho e realidade. Por isso, soa anda mais bela. Porque vem carregada de melancolia.

O “façam a festa por mim” da canção de Ivan Lins e Vítor Martins é dilacerante, ouvido hoje! Não há festa a fazer!

O pedaço do seu cancioneiro dedicado às dores coletivas lembra noites escuras à espera de dias claros. Permanece como retrato de um tempo.

O pedaço que fala das dores individuais não tem tempo.

Elis era singular na mistura das duas dores. Como era singular na mistura de técnica com emoção.

No país de Ângela, Elizeth, Maysa, Gal, num país de grandes vozes femininas, Elis Regina, entre 1965 e 1981, edificou um legado que a gente tenta traduzir assim:

É mais do que uma intérprete excepcional. É uma intérprete excepcional, perfeccionista, posta a serviço da construção de um repertório de altíssima qualidade. A nos mostrar, ontem e hoje, que é possível!

Desafio dos 50 (e não dos 10) anos. O tempo não espera por ninguém

Agora tem o desafio dos 10 anos.

Como eu era em 2009. Como eu sou em 2019.

Brinco com o desafio e mudo o intervalo de 10 para 50 anos.

E o personagem não sou eu, mas um músico que admiro.

À esquerda, em 1969, esse belo rapaz de 20 anos com sua guitarra.

À direita, em 2019, o outrora belo rapaz, ainda com sua guitarra, aos 70, completados nesta quinta (17).

Mick Taylor – claro! – é o nome dele.

Foi um dos Rolling Stones entre 1969 e 1974 (até ser substituído por Ronnie Wood).

Ficou no lugar de Brian Jones.

Homem do blues. Tocava (ainda toca) muito!

Botou o som do seu instrumento nos melhores discos da banda.

Sticky Fingers, Exile on Main Street (querem mais?).

Dizem que entrou limpo. Saiu devastado pelos excessos.

O tempo não espera por ninguém.

O tempo não esperou por Mick Taylor.

Skyline Pigeon. Duvido que não esteja na sua memória afetiva!

Skyline Pigeon.

Esse baladaço de Elton John apareceu primeiro numa versão para voz e cravo (+ órgão) e não fez sucesso.

Está em Empty Sky, seu disco de estreia, lançado no Reino Unido em 1969.

A versão que se popularizou, na primeira metade dos anos 1970, foi aquela em que o artista se acompanha ao piano, ao lado de sua banda.

O registro é de 1972.

No Brasil, foi um grande sucesso, maior até do que em outras partes do mundo.

Duvido que essa canção não esteja muito bem guardada na sua memória afetiva!