Totonho vai da matriz centenária do samba até o funk carioca

A alma anda roubando o alimento do corpo

Tem mais igreja do que supermercado

As primeiras notas do cavaquinho e as batidas iniciais da percussão sugerem que vamos ouvir uma marcha-rancho.

Mas não é isso. Logo, o violão de sete cordas revela que estamos diante de um samba bem carioca.

Parece um samba de sempre com uma letra de hoje – se é que me faço entender.

“Ela é a rainha do sistema/Ela é ninja e a vibe é arengar” – canta Totonho na faixa de abertura do seu novo CD.

Samba Luzia Gorda é um disco de sambas? Sim e não.

Seria, então, um disco de transambas? Quem sabe?

Prefiro dizer que é um trabalho de muitas conexões.

Vem do vínculo estabelecido por esse cara que saiu da Paraíba e foi morar no Rio. Do diálogo dele com a música e os músicos de lá e da relação que estabeleceu com a cidade.

Samba Luzia Gorda flagra Totonho percorrendo um longo caminho que vai da matriz centenária do samba até o funk carioca.

Seu disco é sobretudo muito (muitíssimo!) contemporâneo.

O CD, que começa com um samba e termina com um funk, confirma mais uma vez o talento que Totonho exibe desde que apareceu, há uns 30 anos, naqueles festivais que o Sesc realizava em João Pessoa.

Ele é muito bom de música e de letra e sabe juntar os dois elementos.

Samba Luzia Gorda é um disco inteiro num tempo de poucos discos inteiros.

Você ouve todo. E gosta do todo. Das músicas, das letras incríveis, da concepção dos arranjos, de como os gêneros são abordados.

De Judialva. De O Samba. De A Carioca. De Minha Gatinha Não. De Tem Mais Igreja do que Supermercado. De Amassar a Lataria.

Totonho e Os Cabra.

Totonho e seus convidados (André Abujamra, Quinteto da Paraíba, Moreno Veloso, Otto, etc.).

Totonho no samba.

Totonho no funk.

Totonho onde ele quiser.

Ele diz o que é preciso dizer a quem ouve o que é bom de se ouvir.