Bowie foi homem e mulher, hétero e homo, velho e novo

Sexta-feira, oito de janeiro de 2016.

Na minha coluna na CBN, falei de dois aniversariantes do dia, Elvis Presley e David Bowie.

Elvis, se vivo fosse, estaria completando 81 anos.

Bowie festejava 69 com o lançamento de Black Star, seu novo disco.

Não imaginávamos que o artista estava morrendo.

Na segunda-feira, 11, acordamos com a notícia: David Bowie morrera no domingo.

Provavelmente, um suicídio assistido. Era paciente terminal com câncer no fígado.

David Bowie, com alguns dos seus melhores discos, fez parte da minha adolescência.

Primeira metade dos anos 1970.

O dono dos discos – um amigo da vizinhança – foi longe demais nas histórias de Bowie. Levado por homenzinhos verdes – relatou – numa nave imensa, pisou no planeta vermelho e voltou para casa.

Voltou mas não voltou. Se é que me entendem.

Os discos de Bowie saíram da minha vida junto com o surto do meu amigo. Nem cheguei a alcançar, com o olhar contemporâneo, a trilogia Low, Heroes e Lodger.

Somente em 2012, nos 40 anos de Ziggy Stardust, recuperei Bowie – esse artista imenso.

Cada disco das audições da adolescência. E os que se seguiram. Um a um. Numa corrida em busca do tempo perdido. Um pouco menos de quatro anos, entre a redescoberta de Ziggy e a morte do artista.

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O David Bowie que me restou, entre o quadragésimo aniversário de Ziggy Stardust (ainda de devastadora beleza) e o dia em que amanheci com a inesperada notícia de sua morte, tem o sabor inevitável de uma descoberta tardia. Mas não ouvi-lo teria sido muito pior. Não tê-lo a enriquecer a minha discoteca equivaleria, de resto, a ignorar o óbvio: o que sua música e sua figura (performance no palco, cinema, moda, comportamento, ousadia, experimentalismo) representam para a cultura pop da segunda metade do século passado.

A tese tropicalista de entrar em todas as estruturas e sair (inteiro) delas, Bowie viveu intensamente em sua carreira. Do pop mais banal ao experimentalismo mais ousado. Até o jazz que norteara a excepcional Sue, de 2014, que remete ao Milton Nascimento de Cais e Trastevere. Se me perguntam pelo Bowie que prefiro, digo que é o dos anos 1970, talvez pelo gosto do olhar contemporâneo. Mas o melhor é ouvi-lo todo. Só o conjunto dará a dimensão do artista extraordinário que ele foi.

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Três CDs duplos ao vivo foram lançados depois da sua morte. Cracked Actor é semelhante a David Live dos anos 1970. Welcome to the Blackout é parecido com Stage, também da década de 1970. Glastonbury 2000 chegou ao mercado no final de 2018. O título já diz tudo: traz o registro do show de Bowie na edição do ano 2000 do Festival de Glastonbury. Podemos juntá-los a outro duplo ao vivo editado quando o artista ainda estava vivo: Reality Tour.

São retratos expressivos de Bowie no palco.

Nos estúdios e nos palcos, David Bowie deixou as marcas de um grande artista pop do seu tempo. Na música e fora dela, Bowie era tudo. Foi homem e mulher, hétero e homo, velho e novo.