RETRO2018/Aretha Franklin

A cantora Aretha Franklin morreu nesta quinta-feira (16/08).

Ela tinha 76 anos e lutava contra um câncer no pâncreas, diagnosticado em 2010.

Paul Simon tem um CD duplo chamado Songwriter. É uma compilação com 32 das canções que escreveu.

Ele canta todas. Todas menos uma.

Bridge Over Troubled Water aparece na voz de Aretha Franklin.

Essa exceção (31 com Simon, uma com Aretha) fala sobre o tamanho dessa cantora extraordinária que acabamos de perder.

Ninguém – nem o próprio autor – faria com essa bela canção de amizade o que Aretha fez naquele disco gravado ao vivo no Fillmore.

Aretha Live at Fillmore West. Foi com esse disco que ela entrou na minha vida.

É lá que está a sua versão inacreditável de Eleanor Rigby.

Aretha Franklin aprendeu a cantar na igreja. Claro. Como as grandes vozes da América. Também tocava piano.

Cantou gospel, um pouco de jazz, blues, mas o seu negócio era mesmo a soul music. Ganhou o Grammy 18 vezes.

Na segunda metade da década de 1960, depois que se livrou da Columbia, assinou com a Atlantic e lá gravou seus melhores discos.

I Never Loved a Man the Way I Love You começa logo com esse petardo chamado Respect.

R-E-S-P-E-C-T!

RESPEITO!

Respeito pelos negros, pelos direitos civis, pelas mulheres, por Aretha e sua grande voz!

(You Make Me Feel Like) A Natural Woman, surge em seguida, no meio do repertório de Lady Soul.

O tempo passou. Mais de quatro décadas depois, A Natural Woman foi responsável por um desses momentos que só a música proporciona.

No palco, já lutando contra o câncer que a mataria, Aretha exibiu todo o seu absoluto domínio do canto ao interpretar mais uma vez a canção de Carole King.

Num camarote, Carole King não sabia se gritava ou se chorava, tomada por uma incontida emoção.

Ao seu lado, o presidente Obama, discretamente, chorava e enxugava as lágrimas.

Quer ouvir Aretha Franklin?

Esses cinco discos, reunidos num pequeno box lançado no Brasil, dizem porque, como Obama, a gente de vez em quando precisa enxugar as lágrimas ao ouvi-la cantar.

RETRO2018/Chico Buarque

Vou na estrada há muitos anos.

Sou um artista brasileiro

Backstage do teatro A Pedra do Reino. Sete da noite.

Os músicos entram primeiro.

O maestro Luiz Cláudio Ramos. O contrabaixista Jorge Helder. O percussionista Chico Batera. Todos eles. Os músicos que há muitos anos (uns 30) formam a grande banda de Chico Buarque.

Dessa vez, não tem mais Wilson das Neves, baterista lendário. Das Neves, que morreu no ano passado.

Em seguida, lá vem ele.

Um cumprimento rápido, uma foto.

Uma breve declaração de amor:

Chico, em 1966, eu tinha sete anos quando sua música entrou lá em casa para não sair mais.

Ao que ele responde, sorrindo:

Eu também era jovem.   

E completo:

Agora, vou fazer 60.

Ele está com 74.

O momento do diálogo, brevíssimo, está registrado na foto.

O artista – esse artista imenso – segue pelo corredor, por trás do palco. É hora de trabalhar.

Sete músicas fazem a passagem de som.

Uma sequência inteira do show, de Massarandupió até A Bela e a Fera.

Blues Pra Bia, A História de Lily Braun e A Bela e a Fera – o set bluesy/jazzy mostra o quão afiada é a banda.

A abertura do show também entra na passagem de som:

Minha Embaixada Chegou, velho samba de Assis Valente, e Mambembe. Ambas remetem a Quando o Carnaval Chegar, o filme e o disco de 1972.

Eu agradeço a licença que o povo me deu pra desacatar – é o que, duas horas mais tarde, quando as cortinas se abrem, Chico diz cantando, tornando seus os versos de Valente.

O show?

Vi embevecido.

Viram – creio – embevecidos todos os que foram nesta terça-feira (18/09) ao teatro A Pedra do Reino.

O set list percorre um longo caminho de 50 anos (do artista e do seu público), dá conta desse tempo e dialoga com o Brasil de hoje. Da remota parceria do jovem Chico com Tom, o Maestro Soberano, em Retrato em Branco e Preto, até As Caravanas, essa música porrada sobre o nosso apartheid social. De Sabiá (outra com Jobim) à valsa Massarandupió, composta com o mais novo parceiro, o neto Chico Brown. De Partido Alto a Tua Cantiga. Ao todo, 30 canções.

Chico Buarque no palco é um dos muitos retratos possíveis das belezas do Brasil.

O show é um recorte pouco linear do seu vastíssimo cancioneiro.

Paratodos, na despedida, resume tudo.

“Vou na estrada há muitos anos. Sou um artista brasileiro”. 

Keith Richards faz 75 anos. Incrível!

Keith Richards faz 75 anos nesta terça-feira (18).

Dias atrás, o guitarrista dos Rolling Stones surpreendeu o mundo: anunciou que abandonara o álcool.

Está tocando sóbrio.

Bobagem.

Ele jamais deveria abandonar as drogas (lícitas ou ilícitas) nem o rock’n’ roll.

Viveu na transgressão. Permaneceria nela até a morte.

Keith Richards dividiu com Mick Jagger a autoria de muitos dos maiores números do rock.

À guitarra, criou riffs absolutamente antológicos.

No palco, quando cumprimenta o público, põe as mãos na cabeça, no peito e no órgão sexual.

Parece dizer que, com o cérebro, o coração e o sexo, está tudo em cima.

Devoto dos blues, ouvinte de Brahms, é rude, debochado, cínico e adorável.

Ele é o próprio rock’n’ roll. Selvagem, animal, profano.

Jagger e Richards são opostos. Os dois se completam.

Vê-los ao vivo, de perto, é uma das grandes experiências do mundo da música popular.

Que bom que Keith Richards tenha chegado aos 75 anos.

Os excessos nunca negados sugeriam que ele não iria tão longe.

Morre Isolda, que compôs “Outra Vez” para Roberto Carlos

Você foi o maior dos meus casos

De todos os abraços

O que eu nunca esqueci

Quem não conhece esses versos?

São de Outra Vez, uma das canções mais populares do repertório de Roberto Carlos.

A sua autora, Isolda Bourdot (ou, simplesmente, Isolda), morreu neste domingo (16) vítima de um infarto. Tinha 61 anos. Será velada e enterrada nesta terça-feira (18) em São Paulo.

Isolda teve várias músicas gravadas por Roberto Carlos. Nos anos 1970, ela compunha em dupla com o irmão, Milton Carlos. A dupla se desfez em 1976, quando ele morreu aos 22 anos num acidente de carro.

A esquerda que me perdoe, mas FHC tem minha admiração

Não se iludam

Não me iludo

Tudo agora mesmo

Pode estar por um segundo

O programa de 25 minutos começa com Gilberto Gil, sozinho ao violão, cantando Tempo Rei.

Sentado à sua frente, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ouve.

Quando o programa foi gravado, meses atrás, FHC tinha 86 anos. Gil, 75. Agora, têm um ano a mais.

Na série Amigos, Sons e Palavras, realizada pelo Canal Brasil, Gil atuaria como entrevistador, recebendo convidados.

Mas ficou diferente: a rigor, não há entrevistado nem entrevistador. Gil e os convidados conversam.

Vi há pouco a sua conversa com Fernando Henrique.

O ponto de partida é Tempo Rei.

Gil diz, cantando, o que FHC passaria horas para dizer, falando – admite o ex-presidente.

A letra serve de mote.

A conversa tem arte, filosofia, religião, política, avanços tecnológicos, memória, velhice, amor, morte.

Tem um jantar com Sartre, os cuidados de Simone com o marido, marxismo, existencialismo, a França de 68.

Tem tanta coisa!

No final, há a lembrança de Dona Ruth e o comentário (cantado) de Gil:

Até o fim, eu vou te amar

Até que a vida em mim resolva se apagar

Cerimonioso, Gil chama Fernando Henrique de professor. O ex-presidente diz que não precisa. E também atribui ao artista os méritos de um professor.

Depois que vi o programa, fiquei pensando em Fernando Henrique, com vontade de escrever algo sobre ele.

Lembro muito bem dele a partir da campanha de 1978. No velho MDB das lutas pela redemocratização. Numa sublegenda do partido, disputando o senado. O eleito seria Franco Montoro.

Um sociólogo de esquerda, um professor de esquerda entrando na política – assim era apresentado.

Sempre teve minha admiração.

Já há muitos anos, me causa espanto a virulência com que amigos de esquerda se referem a ele. Não deixam espaço para um elogio, para um reconhecimento, para uma defesa. Para a admissão das coisas positivas.

O argumento de que FHC direitizou-se tanto quanto o PSDB não me parece justo. Creio que é fruto do atual impasse brasileiro, de polarização e intolerância.

Fernando Henrique Cardoso tem um papel importante na construção da democracia brasileira. Os erros que a ele possam ser atribuídos não tornam menor esse protagonismo.

E, para além do político, há o homem que pensa o Brasil como poucos dos nossos políticos.

É bom ver a sua conversa com Gil. Ela aponta para tudo isso.