RETRO2018/Roger Waters

Quem vai ao show de Chico Buarque sabe da militância política do artista.

Na turnê Caravanas, que passou há pouco por João Pessoa, nem era preciso que Chico gritasse o “Lula livre”. A plateia já se manifestava espontaneamente.

Quem vai ao show de Roger Waters sabe da militância política do artista. Muito maior do que a de Chico Buarque porque se dá em escala planetária.

No caso do ex-Pink Floyd, não é necessário que a plateia se manifeste. O grito vem do palco, do artista, está estampado explicitamente nos telões.

O neofascismo está crescendo. Trump nos Estados Unidos. Le Pen na França. Putin (com uma interrogação) na Rússia. Bolsonaro no Brasil. O alerta de Waters é claro.

Nesta terça-feira (09/10), Roger Waters se apresentou em São Paulo. E foi surpreendido.

Uma parte expressiva do público que pagou caro para vê-lo cantar grandes sucessos dos tempos do Pink Floyd não gostou do engajamento político do artista (sobretudo do “ele não” exibido no telão). Como se não o conhecesse, como se não soubesse que ele faz assim em qualquer parte do mundo.

Waters foi vaiado. Foi xingado. Chamado de “filho da puta”.

O músico pode até ter ficado constrangido nos quatro minutos de vaias e xingamentos, mas reafirmou a sua postura em favor dos direitos humanos e falou especificamente sobre o Brasil:

“Vocês têm uma eleição importante em três semanas. Vão ter que decidir quem querem como próximo presidente. Sei que não é da minha conta, mas eu sou contra o ressurgimento do fascismo por todo o mundo. E como um defensor dos Direitos Humanos, isso inclui o direito de protestar pacificamente sob a lei. Eu preferiria não viver sob as regras de alguém que acredita que a ditadura militar é uma coisa boa. Eu lembro dos dias ruins na América do Sul, e das ditaduras, e foi feio”.

RETRO2018/OK OK OK é o melhor disco do ano

OK OK OK, de Gilberto Gil, é, para mim, o melhor disco de música popular brasileira do ano que está terminando.

Na RETRO2018, republico o que escrevi quando o CD foi lançado.

Sei que não dei nenhuma opinião
É que eu pensei, pensei, pensei, pensei
Palavras dizem sim, os fatos dizem não

OK OK OK, a faixa que dá título ao disco, abre o repertório com uma resposta de Gil às cobranças que lhe são feitas. “E então, não vai se posicionar sobre a atual situação?” – coisas assim.

Vi num artigo alguém dizer que a letra é ambígua. Não me parece. Gil costuma olhar o mundo com riqueza e complexidade e não o faz de forma diferente quando o assunto é o Brasil e seus impasses.

Uma entrevista de dias atrás fala disso: o artista foi ao show Lula Livre na Lapa, cantou Cálice com Chico Buarque, mas disse depois que não votaria necessariamente em Lula.

Sua presença no evento tem a ver com princípios e preocupações que vão além do desejo real de que o ex-presidente seja posto em liberdade e da possibilidade de votar nele.

OK OK OK  me remeteu a Metáfora, de 1982. Aqui, acolá, nas soluções melódicas. Também na letra. Deixem o poeta em paz. Ele diz tudo sem dizer nada.

*****

Há algum tempo, a morte se incorporou às conversas que tenho com Gil. Por causa da passagem dos anos, por causa das perdas que vão se acumulando.

Uma década atrás, ouvi dele uma lição que recebeu de Walter Smetak: todos os dias, é preciso tirar um tempinho para refletir sobre a inevitabilidade da morte. Pode não ser fácil, mas é importante fazê-lo.

OK OK OK, o disco, é uma grande conversa sobre a vida e a morte. Ao modo de Gil.

A doença grave que enfrentou há dois anos, o envelhecimento, a família (após os filhos, os netos e bisnetos), os amigos, os colegas de ofício, os médicos, a ausência de Jorge Bastos Moreno (um “irmão” tardio) – tudo isso foi mexendo com o compositor. Foi se juntando para montar uma espécie de retrato que é esse primeiro disco da velhice, como Gil chamou OK OK OK.

É uma conversa serena. Uma conversa que é construída pelo conjunto das canções (12 + três bônus). Com essa serenidade e com a sabedoria que Gil foi acumulando ao longo da vida.

Musicalmente, tem o reencontro com João Donato (velho parceiro), o encontro com Yamandu Costa (exímio violonista), o diálogo profícuo com Bem, o filho músico, a quem se deve muito da sonoridade do disco.

Na hora de compor, Gil está afiado. É o Gil de ontem, o Gil de sempre, sem deixar de ser o Gil de hoje. É curioso como ele consegue ser o mesmo sendo outro. Como ele é perene e atual.

Esse disco começou num momento difícil, de doença, riscos e longas permanências no hospital.

Uma canção, outra, mais outra, aos poucos reveladas, ainda nuas, nas redes sociais.

Terminado, OK OK OK sobrepõe a vida à morte.

E reúne infinitas belezas para nós que amamos Gil.

BOAS FESTAS!

Boas Festas é a mais tradicional de todas as canções natalinas compostas no Brasil.

O autor, Assis Valente, estava sozinho num quarto de pensão, numa noite de Natal, quando escreveu a música.

Era um homem triste que acabou se matando.

A letra remete à tristeza do autor, mas a canção fez sucesso, e muita gente canta Boas Festas no Natal sem se dar conta do desencanto que há nos seus versos.

Aqui, Boas Festas com Caetano Veloso e Gilberto Gil.

NOITE FELIZ!

Neste Natal de 2018, a canção Noite Feliz está completando 200 anos.

Originalmente, Stille Nacht.

Nos países de língua inglesa, Silent Night.

Melodia de Franz Gruber sobre versos de Joseph Mohr.

É, muito provavelmente, a mais popular de todas as canções natalinas.

Pertence à humanidade.

Nesse vídeo, Silent Night na versão voz e piano de Aretha Franklin, que nos deixou em 2018.

ENTÃO É NATAL!

Nas últimas décadas, não há nenhuma canção natalina tão forte e marcante quanto Happy Xmas (War Is Over), de John Lennon e Yoko Ono. Pelo menos que tenha se tornado popular.

No Brasil, a música foi banalizada pela versão de Simone, executada à exaustão.

Mas, no original, conserva toda a sua beleza.

A gravação começa com dois sussurros:

Happy Xmas, Yoko – diz Yoko.

Happy Xmas, John – diz John.

Aí entra a voz inconfundível do beatle:

So this is Christmas.

Yoko aparece na segunda parte. Ela e as crianças do Harlem Community Choir.

São as crianças que fazem o contracanto: A guerra acabou/Se você quiser.

Composta há quase meio século e inicialmente associada a uma campanha pacifista de John e Yoko, Happy Xmas permanece atual nesse mundo conflagrado.

As imagens desse vídeo oficial mostram que o casal Lennon não estava brincando de ceia de Natal.

RETRO2018/Leonard Bernstein

Os americanos celebram neste sábado (25/08) o centenário de nascimento de Leonard Bernstein.

Não, não. Dizer os americanos é pouco.

O mundo da música celebra neste sábado o centenário de nascimento de Leonard Bernstein.

Está aí ele jovem, regendo.

Está aí ele velho, regendo.

Está aí ele “louco”, feito um astro do rock, regendo.

Leonard Bernstein foi um dos músicos mais importantes do século XX. Imenso em tudo o que fez. Grande compositor, grande pianista, grande regente de orquestra.

Como homem do seu tempo (embora sofresse por acreditar que havia pouca contemporaneidade em sua música), Bernstein tem seu nome junto dos que produziram o melhor repertório erudito do século XX. Também figura ao lado dos regentes mais notáveis da era do disco (sobretudo nos anos em que esteve à frente da Filarmônica de Nova York). Conduzindo uma orquestra, era performático, “louco”, expressivo, passional. Usou a televisão para divulgar a música clássica numa extensa série de concertos dedicados sobretudo ao público jovem. Tinha ainda uma admiração singular pelo jazz e o difundiu através de programas didáticos que fizeram história.

Bernstein era um astro pop. Ousado, provocativo, controvertido.

Casou com a atriz chilena Felicia Montealegre, com quem teve três filhos, mas era gay. Também era de esquerda. “Me respeitem! Sou um veado vermelho!”, teria dito certa vez aos seus críticos (se é lenda, imprima-se a lenda!). Judeu, vivendo em Nova York, vizinho de John Lennon no Edifício Dakota, o maestro não gostava somente do jazz quando o assunto era a música popular. Amava o rock de Elvis, dos Beatles e dos Rolling Stones. E cutucava os colegas do mundo erudito ao dizer que, se pensarmos na relação do homem com a música, os Beatles foram mais importantes do que os clássicos contemporâneos do século XX.

Quando a Orquestra Filarmônica de Israel tocou Richard Wagner pela primeira vez, o público reagiu mal por causa da preferência de Hitler pelo compositor. Bernstein, mesmo sendo judeu, defendeu a escolha, afirmando que Wagner não poderia estar ausente do repertório de nenhuma orquestra moderna. Já no concerto em comemoração pela queda do muro de Berlim, regeu a Nona Sinfonia de Beethoven e, no trecho cantado, trocou a palavra alegria por liberdade.

Seu amor pela música popular foi recompensado. São dele as melodias de um dos musicais mais populares do século XX: West Side Story, que transpõe a tragédia de Romeu e Julieta para a Nova York dos anos 1950, colocando o casal apaixonado (Tony e Maria) no meio de duas gangues de rua. O tema da luta dos imigrantes pela conquista do sonho americano permanece atual, mais ainda agora sob Donald Trump. West Side Story virou filme, dirigido por Robert Wise, que no Brasil se chama Amor, Sublime Amor.

West Side Story parece música popular, se transformou em música popular, mas não é. Suas “canções” e seus temas instrumentais foram escritos com o rigor da música erudita. Leonard Bernstein, já no fim da vida, gravou pela primeira (e única) vez este grande musical. E o fez com uma orquestra montada com músicos que arregimentou em Nova York e maravilhosos cantores líricos, de Kanawa a Carreras, de Troyanos a Ollmann.

Leonard Bernstein morreu em outubro de 1990, aos 72 anos. Tinha câncer de pulmão.

A música de Lenny está viva!

RETRO2018/Dona Ivone Lara

Dona Ivone Lara morreu na noite desta segunda-feira (16/04), no Rio de Janeiro.

A sambista tinha 97 anos.

Dona Ivone Lara nasceu no samba.

O pai tocava. A mãe cantava.

Mas o Brasil tardou a conhecê-la.

Ela era de 1921, e o samba que a projetou nacionalmente foi sucesso no carnaval de 1965.

Os Cinco Bailes da História do Rio.

Silas de Oliveira, Bacalhau e Dona Ivone Lara assinaram o samba-enredo da Império Serrano.

Um dos mais belos do gênero. Absolutamente antológico.

E quebrou uma regra: mulher não podia fazer samba-enredo.

Dona Ivone fez!

Dona Ivone Lara era enfermeira. Só se dedicou totalmente à música a partir de 1977, quando já estava aposentada.

Em 1979, Maria Bethânia e Gal Costa gravaram Sonho Meu, provavelmente, sua música mais popular.

Dona Ivone demorou a ser reconhecida como grande compositora de sambas. Mas a vida longa permitiu que ela desfrutasse o reconhecimento.

Dona Ivone Lara era uma rainha do samba!

RETRO2018/Ângela Maria

A cantora Ângela Maria morreu na noite deste sábado (29/09), em São Paulo.

Ela estava hospitalizada há 34 dias com um quadro infeccioso grave.

Tinha 89 anos.

Abelim Maria da Cunha, como foi batizada.

Ângela Maria, o nome artístico que adotou.

Sapoti, como foi chamada pelo presidente Vargas.

Rainha do Rádio, como era conhecida pelos seus fãs.

Ângela Maria aprendeu a cantar no coro da igreja. Seu pai era pastor. Foi operária. Projetou-se no rádio. Começou a gravar em 1951.

Era uma cantora popular de verdade. Seu repertório nem precisava ser refinado. O que importava mesmo era como as canções soavam na sua voz.

Conheceu o sucesso pleno. Também ficou à margem.

Fez grande parceria com seu amigo Cauby Peixoto. Vi os dois no palco uma vez – performances absolutamente inacreditáveis.

Alguém cantava Babalú como ela?

E Vida de Bailarina? Nem Elis!

Seu último disco foi dedicado às canções de Roberto e Erasmo Carlos.

Ângela Maria foi (é) uma imensa cantora do Brasil!

RETRO2018/Ingmar Bergman

Ingmar Bergman é tão importante que, nos 100 anos do seu nascimento, corre o mundo um documentário sobre o cineasta.

Ingmar é o homem.

Bergman é o artista.

Li em algum lugar e gostei da tentativa de separar o inseparável.

Fui ver Bergman, 100 Anos numa sessão de domingo e fiquei triste com a sala vazia. Só havia nove espectadores. Sinal desses tempos em que críticos e cadernos de cultura preferem os blockbusters e se deslumbram com filmes de super-heróis.

Continuo preferindo Bergman.

O documentário de Jane Magnusson, de 50 anos, traz um retrato de Ingmar e de Bergman.

É centrado em um só ano (já nos assegura o título original), 1957, o ano de O Sétimo Selo e Morangos Silvestres, crucial para o artista e a consolidação do seu trabalho, mas recua e avança no tempo. Vai do nascimento à morte. Passa pela fase da juventude em que nutriu simpatia pelo nazismo, fala dos seus tormentos e da relação destes com os filmes que realizou e as peças que montou.

Não há Bergman sem Ingmar, filho de um pastor luterano. As muitas mulheres, os muitos filhos. As conexões entre a vida real e a arte. O caráter autobiográfico do seu cinema, do extraordinário legado.

O documentário tem presenças desnecessárias e ausências imperdoáveis. Barbra Streisend não faria falta. Max Von Sydow faz uma falta imensa. Liv Ullmann fala pouco.

Mas é um belo filme. Franco quando trata dos defeitos de Ingmar. Justo quando se debruça sobre o trabalho de Bergman.

Que homem atormentado!

Que artista excepcional!

Quando penso naqueles cinco ou seis cineastas que deram ao mundo o melhor dessa arte do século XX, Ingmar Bergman é um deles.

Seus filmes têm crescido ainda mais com a passagem do tempo.

Não são chatos nem difíceis de entender, como muitos dizem.

São apenas os mais contundentes entre os tantos que buscam desnudar o ser humano e suas dores que não têm cura.