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Caetano e Gil foram presos há 50 anos. País vivia sob força do AI-5

Nesta quinta-feira (27/12), faz 50 anos que Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos pela ditadura militar.

Não havia acusação formal contra eles.

A prisão, por homens da Polícia Federal, ocorreu ao amanhecer, em São Paulo.

Os dois artistas foram levados para o Rio de Janeiro e entregues ao Exército.

Fazia duas semanas que o governo editara o AI-5 e endurecera o jogo.

Era o golpe dentro do golpe.

É preciso estar atento e forte

Não temos tempo de temer a morte

Caetano Veloso e Gilberto Gil conquistaram dimensão nacional um ano antes no festival em que lançaram Alegria, Alegria (Caetano) e Domingo no Parque (Gil). As duas músicas levaram as guitarras elétricas da Jovem Guarda para a MPB e iniciaram o movimento tropicalista.

1968 foi o ano do Tropicalismo. O disco-manifesto do movimento reuniu Caetano e Gil + Gal Costa, Os Mutantes, Tom Zé, Nara Leão, Torquato Neto e Capinam. Todos sob a batuta do maestro Rogério Duprat. Os Beatles tinham George Martin, os tropicalistas tinham Duprat.

O Tropicalismo propunha a retomada da linha evolutiva da música popular brasileira. É uma boa definição.

Outra: o Tropicalismo juntava a Pipoca Moderna da Banda de Pífanos de Caruaru com a Strawberry Fields Forever dos Beatles.

Na MPB, havia a esquerda resguardada pós-Bossa Nova e, em 1968, passou a haver o conjunto de transgressões estéticas e de comportamento do Tropicalismo.

Os tropicalistas eram muito mais ousados. Mais subversivos – se quisermos usar a palavra da época.

Então é esta a juventude que diz que quer tomar o poder? – perguntou Caetano, entre a fúria e a lucidez, no discurso de É Proibido Proibir.

Caetano confessa que não tinha medo. Gil tinha.

No tempo meteórico do movimento tropicalista, Caetano foi movido por um grande destemor. Gil, não.

Quando foram presos, Caetano viveu todos os medos.

Gil conseguiu um violão e compôs, na cadeia, músicas que seriam gravadas no seu LP de 1969. Chegou a fazer um show para a tropa do quartel para onde fora levado.

Presos em dezembro de 1968, soltos em fevereiro de 1969, os dois ficaram confinados em Salvador até julho daquele ano. Fizeram um show de despedida no Teatro Castro Alves e partiram para o exílio. London, London – onde viveram por mais de dois anos.

No livro de memórias Verdade Tropical, há um capítulo no qual Caetano Veloso fala do período em que esteve preso. Narciso em férias é o nome do capítulo. Ele tem vida própria. Parece um livro com começo, meio e fim. É um texto impressionante, além de muitíssimo bem escrito. Devia ser lido pelos jovens de hoje. Serve também de argumento contra os que andam dizendo que não houve ditadura militar no Brasil.

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Em 1992, no show Circuladô, Caetano Veloso revelou que Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos foi feita para ele, depois que recebeu a visita de Roberto Carlos no exílio londrino.

No show, antes de cantar a música, Caetano falava do quanto o entristecia a consciência de que a ditadura vinha de regiões profundas do ser do Brasil. Ao mesmo tempo, dizia que, de regiões não menos profundas, vozes asseguravam que aquilo não era tudo.

Se trouxermos para hoje a leitura ontológica que Caetano fez da ditadura militar, por certo, cabe a pergunta: até que ponto a eleição de Jair Bolsonaro não vem também de regiões profundas do ser do Brasil?

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Na semana passada, Roberto Carlos cantou Como Dois e Dois em seu especial natalino. Em seguida, na Folha de S. Paulo, Caetano escreveu que a canção composta no exílio para o Rei gravar continua tão violentamente atual.

Há três anos, perguntei a Caetano sobre como ele via o Tropicalismo de longe, e ele respondeu:

Para mim, a luta continua sempre. É uma luta contra o mundo, contra nós mesmos, contra o medo de tentar a grandeza. 

Fiz a mesma pergunta a Gil, de quem ouvi a seguinte resposta:

Se o Tropicalismo continha, em seu tempo jovem, um significado de luta, como diz Caetano, para mim também, em quem o Tropicalismo ainda não passou, a luta continua!

Naquele 27 de dezembro de 50 anos atrás, ao prender Caetano Veloso e Gilberto Gil, a ditadura parecia ter posto fim ao Tropicalismo do modo com que o movimento fora colocado ao longo de 1968. Mas – resistência!, resistência! – os tropicalistas ainda estão aí, ajudando a organizar o movimento.