A LUTA CONTINUA!

Em 2015, Caetano Veloso e Gilberto Gil saíram juntos em turnê.

Quando o show passou pelo Recife, entrevistei os dois para a edição impressa do Jornal da Paraíba.

O título da matéria era A luta continua.

Hoje, reproduzo aqui duas falas de Caetano.

Em Verdade Tropical, você menciona o país utópico trans-histórico que temos o dever de construir e que vive em nós. Lembro como mote para uma reflexão de hoje sobre os impasses brasileiros. Mas não sobre o impasse brasileiro de hoje.

Numa passagem sobre Jorge Ben, não é? Os impasses brasileiros de sempre estão na superfície hoje, sem que isso indique que estamos mais perto de solucioná-los. Sinto agora, como em alguns outros momentos ao longo das décadas, que persistiremos no atraso. O país utópico trans-histórico parece apagado dentro de nós. Em mim, nunca de todo.

“Quando grito, cada vez que se arma uma celebração retrospectiva do Tropicalismo, ‘a luta continua’, é isso que estou querendo dizer”. É frase sua num artigo publicado na Folha. A luta continua? Como é que você vê o Tropicalismo de longe?

Ali eu estava respondendo a um autor que tinha acusado o Tropicalismo de pecados que ele não cometera. Para mim, a luta continua sempre. É uma luta contra o mundo, contra nós mesmos, contra o medo de tentar a grandeza. Quando canto Tropicália e Gil canta Marginália II, reaprendo a canção que deu nome ao movimento, observo sua estranha atualidade. O pessimismo da letra de Marginália II produz expressões de interrogação no rosto de espectadores, interrogação sobre o presente, sobre o tempo que vai do Tropicalismo a nossos dias. “Em suas veias corre muito pouco sangue”, “E no joelho uma criança sorridente, feia e morta estende a mão”, “Aqui é o fim do mundo”, “Aqui o Terceiro Mundo pede a bênção e vai dormir” são frases que contam o Brasil de 1967 e fazem pensar sobre como agora parece que a realidade mal roça a possibilidade de superá-las.