Será que homem da Cultura de Bolsonaro viu Naná tocando?

Capoeira me mandou
Dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou
Vai ter briga de amor
Tristeza camará…

O governo de Bolsonaro não terá Ministério da Cultura.

A cultura foi para o Ministério da Cidadania.

O cargo era reivindicado pelo senador Magno Malta, mas o titular será o médico Osmar Terra, deputado do MDB, que já foi ministro de Temer.

Terra disse que só sabe tocar berimbau.

Sabe mesmo ou ele quis dizer que de cultura não entende nada?

O futuro ministro pensa que tocar berimbau é fácil?

Será que, algum dia, ele viu de perto Naná Vasconcelos tocando o instrumento que o levou a ser considerado sucessivas vezes o melhor percussionista do mundo?

Será que ele já botou um disco de Naná pra tocar?

Com ou sem ministério, cultura é coisa séria.

No Brasil, muitos acham bacana dizer que não.

Na Rússia, mesmo sob Putin, crianças e adolescentes leem Dostoievski. Quem me diz é o amigo Astier Basílio, que mora na Rússia.

Crianças e adolescentes brasileiros leem Machado de Assis?

Esse desprezo pela cultura, essa ignorância dos que falam contra uma lei que incentiva a produção cultural – tristemente, essas coisas dão conta do processo de imbecilização que atinge o Brasil.

Sinais? Há muitos, nesse Brasil que testemunha a falência de suas duas maiores redes de livrarias.

Mas vou resumir assim: no Brasil de 2018, o homem que indica ministros ultraconservadores para áreas cruciais do novo governo (Educação, Relações Exteriores) é o mesmo que facilmente substitui bons argumentos por palavrões.

E ainda é chamado de filósofo.

Filme sobre George Harrison é aula de cinema documental

Living in the Material World, de Martin Scorsese, é um documentário com duração de três horas e meia. Conta a história de um homem rico que se voltou para as coisas do espírito. E viveu dividido entre o mundo material e a crença que as religiões oferecem de que o melhor é o que vem depois da morte. Morreu antes dos 60 anos, consumido pelo câncer, e deixou a fortuna para a família (mulher e filho) e os irmãos de fé. O personagem retratado por Scorsese não é um anônimo. É o beatle George Harrison.

Há muitas histórias neste longo filme. Uma delas, a dos Beatles. O documentário Anthology não a esgotou. Scorsese usa Harrison para contá-la através da sua sensibilidade. E consegue mostrar o que ainda não havíamos visto. A exemplo da sequência em que Astrid diz que fotografou John Lennon e George Harrison no lugar em que Stu trabalhava. Stu, morto prematuramente, fora integrante da primeira formação dos Beatles e namorado de Astrid. Duas ou três fotos desconhecidas ilustram a fala. John está devastado. George segura a barra dele. A alemã, que vimos bela e jovem, é uma senhora de 70 anos cujo envelhecimento não acompanhamos. Scorsese nos reencontra com ela.

No começo, vemos George no jardim. Ele está indo embora. Como se estivesse morrendo. Depois, algumas pessoas falam da ausência dele. Do que diriam se o reencontrassem. A narrativa volta para a década de 1940, quando nasceu. A guerra, a vitória dos aliados. A canção que ouvimos garante: tudo passa. All Things Must Pass. Scorsese vai contando várias histórias. A do garoto pobre que conquistou a fama através do talento. A do jovem astro que mergulhou fundo no misticismo. A do músico preterido pelos companheiros de banda, mais talentosos do que ele. A do homem que viu o melhor amigo levar sua mulher. Canções e imagens de uma época ilustram cada uma das histórias.

O documentário mostra George Harrison vivendo no mundo material, o título nos assegura. Dividido entre a escolha religiosa e a fortuna que fez com sua guitarra e suas canções. Entre o senso de humor e a amargura. Mundano e cheio de luz. Assim os amigos o definem. Assim Martin Scorsese o revela neste retrato que poucos cineastas tirariam com tanta propriedade e delicadeza. Era preciso que um realizador como Scorsese se dispusesse a transformar George em personagem de um filme. Porque o seu cinema, desde o início, está repleto de música. Ele trabalha com as duas formas de expressão artística, o cinema e a música, do mesmo modo que é tão talentoso na ficção quanto no documentário.

A morte é um dos temas principais do filme. Está no prólogo e no epílogo. Na abertura, o filho, Dhani, conta que sonhou com o pai. Perguntou onde ele estivera e ouviu a resposta: nunca saíra de perto. No final, os mais chegados dizem do que sentem falta. Da amizade, do amor. E não parecem bem resolvidos com a ausência física. Ao contrário de George, que, guiado pela religião, lidava melhor com a ideia da morte. O campeão Jackie Stewart perdeu colegas em acidentes nas pistas, mas não conhecia um luto tão severo. Ringo Starr chora ao narrar o último encontro com o amigo. Se acreditarmos na conversão de George, assistiremos ao filme convencidos de que ele não comporta lágrimas.

Aos 15 anos, Passa Disco é uma debutante bem arrumadinha!

Recife.

Você sai do trânsito agitado da Agamenon Magalhães e entra no bairro do Espinheiro.

Na Rua da Hora, na galeria que leva o nome da rua, lá está ela: a PASSA DISCO.

Uma loja de discos. CD, vinil.

Somente música brasileira.

Muita música pernambucana.

Um oásis improvável na era dos serviços de streaming.

Espaço convidativo, muito bem decorado pelas mãos do dono.

Sim. O dono.

Ele é Fábio Cabral, primo do poeta João Cabral.

Fábio vende discos e sabe tudo do que vende.

Como se não bastasse, ainda é um notável contador de histórias.

A PASSA DISCO está fazendo 15 anos.

É uma debutante bem arrumadinha que veio da Estrada do Encanamento para a Rua da Hora.

A comemoração é nesta quarta-feira (28) à noite com um show coletivo em frente à loja e o lançamento do CD Arrisque!.

O CD é um retrato da cena contemporânea pernambucana, uma produção do selo Passa Disco, que pertence à loja e já lançou outros discos.

Arrisque! é uma coletânea de 18 faixas organizada por Fábio Cabral para marcar os 15 anos da PASSA DISCO.

“É um disco geracional”, define o jornalista e antropólogo Bruno Albertim no encarte do CD.

Tem a marca das coisas boas que Pernambuco produz – senti logo na primeira audição.

Aos 15 anos, a PASSA DISCO é um espaço de resistência cultural dentro do Recife.

Festejemos!

Bertolucci parece dizer que o melhor do homem está na arte

Maio de 68. A geração que virou a França de cabeça para baixo está afetuosamente retratada por Bernardo Bertolucci em Os Sonhadores.

Trancados num apartamento, três jovens fazem as suas revoluções individuais, enquanto, nas ruas, milhares fazem a revolução coletiva. Quando eles descem e se encontram com a multidão, enfrentam uma das questões cruciais daquele momento: adotarão a violência ou a não violência?

Realizado em 2003, o filme de Bertolucci vê maio de 68 de longe. Mas não fica somente nele. Nem no desejo que se tinha de contestar o sistema e tomar o poder.

Seus personagens falam muito de cinema e música. Chaplin ou Keaton? Hendrix ou Clapton? Dylan, Garbo, Joplin, Godard. A cinemateca francesa, as imagens de Fuller. Paixões que Alucinam, crítica de filmes, cinema americano versus cinema europeu. O encontro de Belmondo e Seberg em Acossado.

Maio de 68 pode ser a síntese de tudo. O instante em que a geração que queria mudar o mundo se manifestou de forma mais eloquente e radical. Mas Bertolucci se debruça sobre questões que não estão circunscritas a um mês nem a um ano determinado.

Para mim, o trecho mais belo de Os Sonhadores é quando os namorados vão ao cinema. Não como transgressores, mas como jovens comuns. O filme é Sabes o que Quero, comédia adorável da década de 1950, direção de Frank Tashlin. No início, tem aquela brincadeira com o cinemascope – a meia tela se expande para os lados e a tela toda é tomada pela imagem. Bertolucci usa a cena dos Platters e a música deles (You’ll Never Never Know) para dar um clima romântico ao programa dos dois personagens.

Na volta, eles se deparam com a realidade. Numa praça, o saldo de mais um dia de confronto entre policiais e manifestantes. O mundo está convulsionado. Mataram Luther King, líder da não violência. Logo matarão Bob Kennedy.

Se formos em busca do Bertolucci do final dos anos 1960, vamos encontrá-lo fazendo O Conformista. Um cineasta jovem olhando para o passado (a Itália sob o fascismo) para compreender e explicar o presente. No salto de quase quatro décadas até Os Sonhadores, seu cinema tratou do individual e do coletivo. Dos personagens sem nenhuma perspectiva de O Último Tango em Paris aos revolucionários de 1900.

Penso que Os Sonhadores é um filme que só poderia ter sido realizado por um homem velho. É isto que o torna mais belo, mais delicado, mais fiel como retrato de uma geração. É isto que o faz tão verdadeiro e, principalmente, justo com o espírito transgressor de uma época.

A geração que foi às ruas em maio de 68 chegou ao poder, já faz tempo. O pragmatismo de hoje destoa dos sonhos juvenis. Os Sonhadores é uma revisão poética de maio de 68. Bertolucci dá ênfase ao cinema e à música.

Encanta, comove e faz pensar que o melhor que o homem produziu está na arte.

A morte de Bernardo Bertolucci, Fascismo, fascistas, fascistoides

O cineasta Bernardo Bertolucci morreu nesta segunda-feira (26).

Tinha 77 anos.

Nascido em 1941 e diretor desde o início dos anos 1960, era um mestre do cinema contemporâneo.

Fascismo.

Fascistas.

Fascistoides.

A morte de Bernardo Bertolucci coincide com um tempo em que essas palavras são largamente usadas no Brasil.

Pela esquerda para falar de ultradireitistas. Às vezes, nem tão ultra assim.

Vou usar fascistoides.

Claro que a extrema direita brasileira está cheia de fascistoides. Mas também há comportamento fascistoide na esquerda.

O ambiente que conduz ao Fascismo é o que se tem em O Conformista (foto), que Bertolucci realizou quando ainda não tinha 30 anos.

Para mim, o seu melhor filme.

O Último Tango em Paris é o mais polêmico e foi muito marcante para nós, brasileiros, porque passou quase uma década proibido pela Censura. Símbolo da ação da Censura durante o regime militar, também simbolizou o fim dessa ação tão danosa quando então foi liberado.

O Último Imperador fez muito sucesso porque, além de ser um grande filme, saiu da América cheio de estatuetas do Oscar. Incluindo as de Melhor Filme e Melhor Diretor.

Bernardo Bertolucci é o último de um vasto conjunto de extraordinários diretores de cinema que a Itália legou ao mundo. E era o mais jovem deles.

Filho de um poeta, assistente de direção de Pier Paolo Pasolini, era por natureza um esteta. Ou um burguês romântico – assim classificado por Jean Tulard em seu Dictionnaire du Cinéma.

Bernardo Bertolucci morreu no ano em que o mundo lembrou os 50 anos de 1968. Os Sonhadores, um dos seus derradeiros filmes, é uma revisão poética de maio de 68.

No mundo do politicamente correto, houve uma discussão recente sobre a cena de sexo anal não consentido de O Último Tango em Paris.

Que o artista e a sua obra se sobreponham a esse debate improdutivo.

Melhor Orquestra Sinfônica da PB foi com Burity governador

O primeiro concerto da Orquestra Sinfônica da Paraíba foi no dia 29 de maio de 1946.

O lugar: Cine Plaza, no centro de João Pessoa.

O maestro: Francisco Picado, o tenente Picado.

Cresci vendo a foto daquele concerto inaugural na parede da casa do meu avô materno. É que minha tia Ofélia tocava violino na orquestra.

A orquestra do tempo do tenente Picado era uma reunião de músicos amadores.

A profissionalização só se deu mais de três décadas depois, no primeiro governo de Tarcísio Burity. E quem tornou isso possível foi a parceria do Estado com a Universidade Federal da Paraíba.

Se é verdade que faltou a Burity deixar garantias para que a orquestra funcionasse muito bem com ele fora do governo, é verdade também que, com Burity, a OSPB viveu seus melhores momentos. E, sem ele, nunca mais foi a mesma.

Burity amava e conhecia profundamente a música erudita. Sabia, em todas as suas dimensões, o real significado que uma orquestra sinfônica tem.

Na segunda metade da década de 1980, sob a direção artística e regência do maestro Eleazar de Carvalho, a OSPB foi colocada no nível das melhores orquestras sinfônicas do país.

Quem viu a orquestra executando Also Sprach Zarathustra sob a batuta de Eleazar sabe do que estou falando.

Burity governou a Paraíba por duas vezes.

Não custa reconhecer que os governadores que o sucederam (Wilson Braga na primeira vez, Ronaldo Cunha Lima na segunda) não deram à orquestra o tratamento que ela merecia.

Se quisermos um exemplo recente, Ricardo Coutinho, em sua primeira gestão, cometeu o erro de entregar a sinfônica a João Linhares. O talento musical de Linhares não o credenciava ao posto.

Orquestra sinfônica é um organismo muito complexo.

Misturar música sinfônica com canção popular pode ser muito bom, mas é preciso não banalizar a coisa.

Levar música sinfônica ao povo também pode ser muito bom, mas não é necessário abrir mão do repertório erudito, como se o povo fosse incapaz de gostar dele.

Escrevo sobre a OSPB por causa de um livro que estou lendo:

Orquestra Sinfônica da Paraíba: trajetória artística e dimensões socioculturais é o seu título

O autor: Eduardo de Oliveira Nóbrega.

O livro é resultado de uma pesquisa de Eduardo, credenciado pela experiência como músico da orquestra, regente de corais e pelo currículo acadêmico.

A publicação, que faz parte da Coleção Humanidades, da Editora Universitária (UFPB), se debruça sobre toda a trajetória da Orquestra Sinfônica da Paraíba.

Golpe militar não merece comemoração!

Nesta sexta-feira (23), logo cedo, li na Folha que o futuro ministro da Educação, o colombiano Ricardo Vélez Rodriguez, disse que o golpe de 64 deve ser comemorado.

Um presidente civil, eleito pelo povo (Jango era o vice que assumiu na renúncia de Jânio), é deposto por militares que, por 21 longos anos, submetem o país a governos de exceção.

O que há para comemorar nisso?

A propósito, conto uma historinha que está bem guardada na minha memória:

Cresci durante a ditadura militar iniciada em abril de 1964 com a deposição do presidente João Goulart.

Logo cedo, aprendi com meu pai que a expressão “Revolução de 31 de Março” estava errada.

O certo era chamar de golpe militar o movimento que depusera Jango.

Na Semana da Pátria, nas escolas onde estudei, recebíamos como tarefa trabalhos sobre o que, oficialmente, era chamado de “Revolução”.

Na hora de fazer o dever de casa, uma vez perguntei ao meu pai que expressão deveria usar, e ele foi taxativo:

“Não use revolução porque está errado. Mas não use golpe militar porque não é permitido”.

E me ensinou um eufemismo: movimento militar de 31 de março.

Segui a lição do meu pai até o dia em que tive a liberdade de escrever e pronunciar golpe militar.

As fotos são do mestre Evandro Teixeira.

CD Esher Demos, dos Beatles, é verdadeiro presente de Natal

Parece difícil de acreditar, mas, no Natal de 2018, há CD inédito dos Beatles no mercado.

Sim. É verdade.

O disco se chama Esher Demos.

É uma preciosidade absoluta.

O que é, afinal, Esher Demos?

Se esse lançamento fosse há uns 25 anos, no auge da MTV, diríamos que era um unplugged dos Beatles.

Ou, mais precisamente, a versão unplugged do Álbum Branco.

Mas o MTV unplugged é coisa do passado.

Vou, então, chamar Esher Demos de um rascunho do Álbum Branco.

O CD, com 27 faixas, faz parte das edições comemorativas dos 50 anos do White Album.

Na edição standard, a única lançada no Brasil, vem o álbum original com seus dois discos + o CD bônus Esher Demos.

Esher é o lugar onde o beatle George Harrison tinha uma casa. Em 1968, depois do retiro espiritual na Índia, foi lá que o quarteto se reuniu para gravar as demos das novas canções. A maior parte delas estaria no álbum duplo que seria lançado em 22 de novembro daquele ano.

Esse material já correu o mundo em bootlegs, nunca num disco oficial, como agora. Oficialmente, no volume 3 do Anthology, em 1996, havia algumas poucas faixas das sessões de Esher. Mas não tantas como nesse Esher Demos.

As gravações têm boa qualidade técnica e mostram os Beatles “passando” 19 canções do Álbum Branco. As outras faixas ficaram para o Abbey Road ou para as carreiras solo.

Esher Demos deve ser ouvido como introdução ao Álbum Branco.

Em seguida, o ouvinte pode se deleitar com a nova mixagem do grande disco duplo que os Beatles lançaram em 1968. Exatamente há meio século, nesta quinta-feira 22 de novembro.