“Somos mais populares do que Jesus” é Lennon, não é Manuela

“O cristianismo vai acabar. Vai desvanecer e encolher. Não preciso discutir isso; sei que estou certo e será provado que estou certo. Somos mais populares do que Jesus agora. Não sei qual dos dois vai acabar primeiro – o rock’n’ roll ou o cristianismo. Jesus foi um cara legal, mas seus discípulos eram obtusos e banais. Foi a distorção deles que arruinou a coisa para mim”. 

A fala de John Lennon estava numa matéria que o Evening Standard publicou na Inglaterra no dia quatro de março de 1966. A transcrição que faço aqui é de John Lennon, a vida, biografia do músico escrita por Philip Norman.

A declaração não obteve qualquer repercussão no Reino Unido. O próprio Evening Standard não deu destaque a ela, não publicou em manchete.

Os Beatles mais populares do que Jesus Cristo? Isso pouco interessou na “cínica e agnóstica Grã-Bretanha”.

A reação ocorreu quatro meses depois e nos Estados Unidos. A Datebook, uma revista para adolescentes, ressuscitou a entrevista de Lennon e destacou a comparação entre rock e cristianismo, Beatles e Jesus Cristo.

Foi um escândalo e uma grave ameaça à turnê americana que o grupo estava prestes a iniciar.

Gente estimulando a garotada a se rebelar contra seus ídolos, discos queimados em praça pública.

Com a Ku Klux Klan no meio, a fatia mais conservadora da sociedade americana versus os Beatles – era o que se tinha da noite para o dia.

O empresário Brian Epstein tentou explicar. John Lennon também.

A coisa ganhou dimensão mundial. O Vaticano protestou.

“Há coisas que não podem ser tratadas de modo profano, nem mesmo no mundo dos beatniks”, disse o papa Paulo VI.

O tempo passou. Os Beatles sobreviveram. A música deles se sobrepôs ao episódio.

E cá estou eu, 52 anos depois, contando essa história por causa das eleições brasileiras.

O que as eleições brasileiras têm a ver com a polêmica entrevista de John Lennon?

Nada, não fosse a ideia, em posts nas redes sociais, de atribuir a Manuela D’ Ávila, vice de Fernando Haddad, o que o beatle disse.

Pode parecer sem importância, mas não é. A difusão desse tipo mentira, por gente intelectualmente desonesta, é um dos tantos retratos possíveis do processo eleitoral brasileiro.

Foi assim no primeiro turno. Imaginem no vale tudo do segundo.