Morreu Ângela Maria, uma imensa cantora do Brasil

A cantora Ângela Maria morreu na noite deste sábado (29), em São Paulo.

Ela estava hospitalizada há 34 dias com um quadro infeccioso grave.

Tinha 89 anos.

É lugar-comum.

Mas é verdade.

Ainda será pouco tudo o que se disser para dimensionar essa voz e a importância de Ângela Maria na música popular do Brasil.

Sem ela, por exemplo, não haveria, do jeito que os conhecemos, nem Elis Regina nem Milton Nascimento.

Exagero?

Falando do tempo em que era aprendiz, é o próprio Milton que diz, cantando, em a A Feminina Voz do Cantor:

Sem o anjo que escutou

A Maria Sapoti

Quando é que seu canto

Iria se abrir?

Abelim Maria da Cunha, como foi batizada.

Ângela Maria, o nome artístico que adotou.

Sapoti, como foi chamada pelo presidente Vargas.

Rainha do Rádio, como era conhecida pelos seus fãs.

Ângela Maria aprendeu a cantar no coro da igreja. Seu pai era pastor. Foi operária. Projetou-se no rádio. Começou a gravar em 1951.

Era uma cantora popular de verdade. Seu repertório nem precisava ser refinado. O que importava mesmo era como as canções soavam na sua voz.

Conheceu o sucesso pleno. Também ficou à margem.

Fez grande parceria com seu amigo Cauby Peixoto. Vi os dois no palco uma vez – performances absolutamente inacreditáveis.

Alguém cantava Babalú como ela?

E Vida de Bailarina? Nem Elis!

Seu último disco foi dedicado às canções de Roberto e Erasmo Carlos.

Ângela Maria foi (é) uma imensa cantora do Brasil!

MARÍLIA MENDONÇA É A ROCK’N ROLL DA SOFRÊNCIA

“A Marília tem uma coisa especial. Eu acho que ela, na sofrência, tem um jeito de cantar áspero, meio rock’n roll. É a rock’n roll da sofrência

Quem disse foi Gal Costa, numa entrevista a Carol Prado, do G1.

Gal, que fez 73 anos na quarta-feira (26), está lançando nesta sexta (28) seu novo álbum.

O disco se chama A Pele do Futuro, e Marília Mendonça participa de uma faixa (Cuidando de Longe) como autora e fazendo dueto com Gal.

TITO MADI

Morreu Tito Madi.

Tinha 89 anos.

Veio antes da Bossa Nova, mas pode ser inserido no ambiente que gerou a Bossa Nova.

Era cool e refinado.

Fiquemos com Chove Lá Fora.

Caetano Veloso e Leo Gandelman.

Ainda louco após todos esses anos

Still Crazy After All These Years.

Ainda louco após todos esses anos.

Ouvi essa canção pela primeira vez aos 16 anos, em 1975.

Paul Simon, o autor, tinha 34.

Dava título ao LP que tem essa capa.

O tempo passou. Paul Simon vai fazer 77 anos agora em outubro.

Está mais ou menos assim, como nessa foto.

Mas Still Crazy After All Theses Years não se descolou dele.

Continua obrigatória no set list dos seus shows.

Volto sempre à canção, nas diversas versões que tenho.

Recentemente, como número de encerramento do grande concerto que Simon fez no Hyde Park, em Londres.

O show foi em 2012, mas só no ano passado se transformou num combo (ainda não distribuído no mercado brasileiro) com dois CDs e um DVD.

Still Crazy After All These Years é uma balada com uma atmosfera bluesy. Um piano elétrico acompanha o cantor. Uma bateria, um baixo, um teclado simulando cordas. No meio, tem um solo devastador de sax tenor. Parece ser sempre o mesmo, mas comporta a assinatura do músico da vez. Para mim, era o máximo quando Michael Brecker estava na banda de Simon.

Não é uma canção simples, fácil. É refinada, tem algo da sofisticação das grandes canções do american songbook. A melodia é bela. A performance vocal cresce depois do solo de sax, até chegar às notas mais altas do final.

A letra parte do reencontro com um velho amor. O autor conta pra gente como foi. E tem aqueles versos: I’m not the kind of man/Who tends to socialize/I seem to lean on/Old familiar ways.

Gosto de ouvir essa música pensando que é bom conservar algo das nossas loucuras juvenis, a despeito da passagem do tempo.

Still Crazy After All These Years cresce na medida em que os anos se vão.

Penso que cresce para o seu autor. Certamente, cresce para os seus ouvintes.

Lucy, que não é mais Alves, força a barra em busca do sucesso

Para que fique bem claro:

Lucy Alves (que não é mais Alves, agora é só Lucy) tem muito talento. Nunca duvidei disso. Talento na música. Talento como atriz. Já deu muitas provas.

Mas pode estar no caminho errado, quando, em busca do sucesso, abre mão do que há de mais autêntico na sua música.

Foi a sensação que tive na época em que lançou o single Caçadora. Sensação que se repete, ainda mais fortemente agora, com Santo Forte.

Não há que se torcer contra o sucesso de ninguém. O sucesso é maravilhoso. É o que, no fundo, todos os artistas almejam.

Mas o sucesso com autenticidade. Com as marcas profundas da verdade de cada artista. Não um sucesso que empobreça.

Vejam Luiz Gonzaga, o símbolo maior da música popular que os nordestinos produziram. Foi grande – foi imenso – sendo autêntico, sendo absolutamente fiel à sua arte. Nunca abriu mão disso.

Não sou careta, não sou conservador, mas não enxergo beleza alguma no que Lucy está fazendo. A beleza que havia quando ela se projetou nacionalmente no The Voice Brasil, em 2013.

A Lucy de Santo Forte parece apenas um produto, uma “coisa” fabricada pelo mercado para dar certo. Pode até dar, mas será muito pouco para uma artista com o talento que ela tem.

Em apoio a Bolsonaro, Let It Be vira Ele Sim. Afronta aos Beatles

Começo com um vídeo.

Paul McCartney cantando Let It Be ao vivo em Nova York.

Let It Be é uma das mais belas canções dos Beatles. Deu título também ao último LP do grupo, lançado em maio de 1970, e ao documentário que retrata os estertores do quarteto. Leva a assinatura Lennon/McCartney, mas foi composta somente por Paul McCartney.

Let It Be nasceu de um sonho. Num momento de aflição, Paul sonhou com sua mãe, Mary, que morreu de câncer quando ele tinha 14 anos. Ela disse a ele que não se preocupasse, que tudo daria certo. “Eu me senti abençoado por haver tido esse sonho”, conta o músico.

Sobre a canção, Hunter Davis, biógrafo oficial dos Beatles, escreveu:

“Lançada num single em março de 1970, antes de o próprio álbum sair, é de longe a música mais comercial do LP. Embora seja quase um pastiche de hino religioso, com alusões e conotações bíblicas como hora da escuridão e uma luz que brilha sobre mim e, claro, a imagem de sua mãe associada à de Nossa Senhora, é sincera e comovente. Hoje, quando Paul a toca, as luzes são diminuídas e o público em geral acende velas e isqueiros ou levanta celulares ligados. Quase se tem a impressão de estar num encontro religioso nessa hora”.

Na época em que os direitos sobre as canções dos Beatles estiveram nas mãos de Michael Jackson, Paul McCartney temia que sua canção fosse dessacralizada, transformando-se, por exemplo, em trilha de um comercial qualquer.

Não imaginava ele que, tantos anos depois, seria muito pior. Let It Be ganhou uma letra em Português, foi chamada de Ele Sim e é divulgada nas redes sociais em apoio ao candidato Jair Bolsonaro.

Guto Sállen assina a versão, cujo refrão diz: “Melhor Jair se acostumando, ele sim”.

Que tristeza. Let It Be, a bela balada de Paul McCartney, virou Ele Sim.

OBVIUS BOSTIS!

Faz tempo que quero contar uma historinha.

Divertida historinha das redações de João Pessoa de algumas décadas atrás.

Vou omitir nomes para não correr o risco de ofender alguém.

É mais ou menos assim:

Um jornalista experiente, mais velho do que todos nós, gostava de brincar com os colegas nos textos que escrevia.

Uma brincadeira ferina que não agradava nem um pouco aos que eram escolhidos como alvos.

A ideia era trocar os nomes verdadeiros por nomes falsos, mantendo as iniciais do nome e do sobrenome.

Feito isto, vinha o comentário irônico, mordaz, nada abonador.

Faço um exercício. Nunca fui escolhido por ele, mas, se tivesse sido, meu nome poderia ficar assim: no lugar de Sílvio Osias, S de Sílvio e O de Osias dariam origem a – digamos – Silvícola Osário.

Um dos “eleitos” ficou verdadeiramente ofendido, magoado, e anunciou uma vingança à altura.

E como foi à altura!

Na sua coluna, no caderno de cultura, pegou o O do nome do autor das brincadeiras e o B do sobrenome e mandou ver:

OBVIUS BOSTIS!

Sim!

Você é um OBVIUS BOSTIS!

Preciso traduzir?