Música 6:43

Edu Lobo, um dos grandes da era dos festivais, completa 75 anos

Edu Lobo, um dos grandes compositores da era dos festivais, faz 75 anos nesta quarta-feira (29).

Está aí ele em 1967, vencedor, com Ponteio, do III Festival da Música Popular Brasileira.

Está aí ele agora, em seu disco mais recente, ao lado dos contemporâneos Dori Caymmi e Marcos Valle.

Eduardo de Góes Lobo se projetou na era dos festivais. Era um vencedor com músicas como Arrastão (letra de Vinícius de Moraes), que revelou Elis Regina, e Ponteio (parceria com José Carlos Capinam). Na segunda metade da década de 1960, poderia ter se transformado num artista tão popular quanto seus contemporâneos Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, que também conquistaram dimensão nacional através dos festivais de MPB. Mas não era este o seu desejo e não foi esta a sua opção. Nadou contra a corrente, contrariou as regras do mercado de música popular, trocou o Brasil pelos Estados Unidos e foi estudar composição, arranjo, regência. Quando voltou, já estava à margem do sucesso e não mais o procurou. Aprimorou seu repertório autoral, escreveu arranjos como os de Calabar, de Chico Buarque, gravou pouco, atuou discretamente em suas performances ao vivo. Seguiu o caminho que escolheu.

Vi Edu Lobo no palco pela primeira vez no Projeto Pixinguinha de 1978. Era um show vigoroso que resumia o seu trabalho. Desde os sucessos da época dos festivais até as músicas mais recentes (o disco novo se chamava Camaleão). O que mais me surpreendeu foi o seu desempenho ao vivo. Não tinha nada com o hermetismo que eu imaginava ser marca dos shows que fazia. Edu, àquela altura, não era mais um artista popular, com um grande público, mas o repertório sofisticado não dificultava o seu diálogo com a plateia. O trabalho refinado era muito atraente quando executado ao vivo. O músico se acompanhava ao piano e ao violão e, além do quarteto vocal Boca Livre, tinha ao seu lado uma banda que ia dos ritmos nordestinos, assimilados nas férias recifenses da infância e da adolescência, ao jazz.

Edu Lobo tem grandes discos. Difícil escolher os melhores. Podemos mencionar logo o LP em que é acompanhado pelo Tamba Trio (A Música de Edu Lobo por Edu Lobo). Ou pensar naquele disco que começa com No Cordão da Saideira e marca a sua estreia como arranjador. É lá que está a belíssima Canto Triste. Em Cantiga de Longe, registrado num estúdio de Los Angeles, junta-se a músicos brasileiros como Hermeto Pascoal e Airto Moreira. São todos dos anos 1960. Limite das Águas, dos anos 1970, traz o Edu bem depois da temporada americana. Camaleão teve uma faixa (Lero Lero) executada no rádio, mas não podemos dizer que a música escrita em parceria com Cacaso o reconciliou com o êxito comercial.

Edu & Tom é soberbo. No início da década de 1980, Edu Lobo estava gravando um novo disco, sob a produção de Aloysio de Oliveira. Convidou Tom Jobim para participar de uma faixa. Tom chegou ao estúdio e foi ficando. O que era um projeto solo virou um encontro antológico. Um visitando o repertório do outro. Os dois dividindo vozes e instrumentos. Tudo muito cool. Formação acústica, diminuta. Piano, violão, contrabaixo, bateria, um trompete. Pra Dizer Adeus, de Edu e do poeta tropicalista Torquato Neto. Chovendo na Roseira, do Tom ecológico. Vento Bravo, Ângela, Canção do Amanhecer, Luiza. Um mestre e um aluno aplicadíssimo, talvez o compositor mais jobiniano de sua geração. Depois, teríamos um outro encontro e uma nova parceria: O Grande Circo Místico. Melodias de Edu, letras de Chico Buarque. A compilação Álbum de Teatro resume o trabalho dos dois.

Nos últimos anos, Edu Lobo tem gravado discos distribuídos pelo selo Biscoito Fino. O mais recente, lançado há pouco, é dividido com os contemporâneos Dori Caymmi e Marcos Valle. Seu cancioneiro é belo e exuberante. Cada novo disco reafirma o imenso talento de Edu do mesmo modo que a sua decisão de não ser um autor para muitos ouvintes.