CD de Gilberto Gil tem grande conversa sobre a vida e a morte

O novo trabalho de Gilberto Gil já está disponível em CD, LP e nas plataformas digitais.

OK OK OK é o primeiro disco de canções inéditas desde Fé na Festa, lançado há oito anos.

Sei que não dei nenhuma opinião
É que eu pensei, pensei, pensei, pensei
Palavras dizem sim, os fatos dizem não

Começo com o que diz respeito ao coletivo.

OK OK OK, a faixa que dá título ao disco, abre o repertório com uma resposta de Gil às cobranças que lhe são feitas. “E então, não vai se posicionar sobre a atual situação?” – coisas assim.

Vi num artigo alguém dizer que a letra é ambígua. Não me parece. Gil costuma olhar o mundo com riqueza e complexidade e não o faz de forma diferente quando o assunto é o Brasil e seus impasses.

Uma entrevista de dias atrás fala disso: o artista foi ao show Lula Livre na Lapa, cantou Cálice com Chico Buarque, mas disse depois que não votaria necessariamente em Lula.

Sua presença no evento tem a ver com princípios e preocupações que vão além do desejo real de que o ex-presidente seja posto em liberdade e da possibilidade de votar nele.

OK OK OK  me remeteu a Metáfora, de 1982. Aqui, acolá, nas soluções melódicas. Sobretudo na letra. Deixem o poeta em paz. Ele diz tudo sem dizer nada.

Agora vou ao pessoal.

Há algum tempo, a morte se incorporou às conversas que tenho com Gil. Por causa da passagem dos anos, por causa das perdas que vão se acumulando.

Uma década atrás, ouvi dele uma lição que recebeu de Walter Smetak: todos os dias, é preciso tirar um tempinho para refletir sobre a inevitabilidade da morte. Pode não ser fácil, mas é importante fazê-lo.

OK OK OK, o disco, é uma grande conversa sobre a vida e a morte. Ao modo de Gil.

A doença grave que enfrentou há dois anos, o envelhecimento, a família (após os filhos, os netos e bisnetos), os amigos, os colegas de ofício, os médicos, a ausência de Jorge Bastos Moreno (um “irmão” tardio) – tudo isso foi mexendo com o compositor. Foi se juntando para montar uma espécie de retrato que é esse primeiro disco da velhice, como Gil chamou OK OK OK.

É uma conversa serena. Uma conversa que é construída pelo conjunto das canções (12 + três bônus). Com essa serenidade e com a sabedoria que Gil foi acumulando ao longo da vida.

Musicalmente, tem o reencontro com João Donato (velho parceiro), o encontro com Yamandu Costa (exímio violonista), o diálogo profícuo com Bem, o filho músico, a quem se deve muito da sonoridade do disco.

Na hora de compor, Gil está afiado. É o Gil de ontem, o Gil de sempre, sem deixar de ser o Gil de hoje. É curioso como ele consegue ser o mesmo sendo outro. Como ele é perene e atual.

Esse disco começou num momento difícil, de doença, riscos e longas permanências no hospital.

Uma canção, outra, mais outra, aos poucos reveladas, ainda nuas, nas redes sociais.

Pronto, OK OK OK sobrepõe a vida à morte.

E reúne infinitas belezas para nós que amamos Gil.