Caetano e filhos trazem “Ofertório” a João Pessoa em outubro

Caetano Veloso e os filhos Moreno, Zeca e Tom vão se apresentar em João Pessoa.

O show Ofertório será no teatro A Pedra do Reino, do Centro de Convenções, no dia 25 de outubro.

A produção local confirmou o show e em breve dará detalhes sobre preços e venda de ingressos.

Quando vi Ofertório no Recife, em janeiro, escrevi o seguinte:

O show é de uma delicadeza singular.

De uma beleza incomum.

Um pai fazendo música ao vivo com seus filhos.

O caráter familiar não está só no encontro dos quatro, mas também no repertório que apresentam.

Uma canção para Dedé, a mãe de Moreno. Outra para Paula, a mãe de Zeca e Tom. As canções do pai para os filhos. As parcerias do pai com os filhos. A presença da mãe de Caetano. A canção (O Leãozinho) que tantos pais gostam de cantar para os filhos. A lembrança dos avós e dos tios. A religiosidade dos filhos, o pai irreligioso que compôs um Ofertório para ser cantado na missa em Santo Amaro.

Tudo gira em torno desses amores, desses afetos.

São verdadeiros presentes que eles se dão.

E são verdadeiros presentes que eles nos dão.

Chico Buarque conseguiu se desfazer de A Banda. Caetano não conseguiu fazer o mesmo com Alegria, Alegria. Acabou sendo muito bom. Meio século mais tarde, podemos ouvir a canção sem o impacto das guitarras elétricas, mas como a marchinha que ela sempre foi.

Ela e Eu virou samba. O Seu Amor remete a Gil e aos Doces Bárbaros. Dona Canô está em Reconvexo e Genipapo Absoluto. O samba de roda da Bahia está em Boas Vindas e How Beautiful Could a Being Be. Todos estão em Gente.

Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome.

Há 40 anos, quando Moreno era uma criança e Zeca e Tom nem eram nascidos, os críticos de Caetano não prestavam atenção nesse verso.

Ele ainda me comove.

Continua belo. Permanece necessário.

Nesse grande artista, tal como ele um dia disse de Tom Jobim, é vivíssimo o amor pela música, pelos homens humanos e pela travessia do Brasil.

Michael Jackson nasceu há 60 anos

Se estivesse vivo, Michael Jackson faria 60 anos nesta quarta-feira (29).

Ele morreu em 25 de junho de 2009.

Transcrevo, em seguida, algo que escrevi na época da sua morte.

Tudo em Michael Jackson é feito de matéria pop: sua grande música, sua grande dança, sua vida mínima. Em nossos dias, só ele tem a mesma carga de popismo de Marilyn ou Elvis ou Elizabeth Taylor. Perto dele, Madonna parece uma mera teórica.

Quem disse foi Caetano Veloso. Está no encarte do disco Tropicália 2, de 1993.

Na época, Michael Jackson ainda não enfrentava as dificuldades com que conviveu nos seus últimos anos. Dangerous não fora tão bem sucedido quanto Thriller ou Bad, mas mantinha o artista em evidência com sua música (é lá que está o hit Black or White) e não com a exposição da sua intimidade. De todo modo, um detalhe no comentário de Caetano chamou minha atenção: a menção à vida mínima de Michael. A partir de então, passei a pensar que ele morreria cedo.

A morte de Michael Jackson, em junho de 2009, chegou pela Internet. Enquanto, na noite do dia 25, o Jornal Nacional dizia, em sua escalada, que o astro pop sofrera uma parada e estava num hospital em Los Angeles, um site americano dedicado a celebridades já dera a notícia.

A repercussão da sua morte foi ainda maior do que a de Elvis Presley ou a de John Lennon por causa da rede mundial de computadores cuja existência era coisa de ficção-científica tanto em 1977 quanto em 1980.

A sua música, síntese de elementos riquíssimos criados pelos negros americanos (blues, gospel, jazz, soul) e a sua dança (como se pudéssemos ter ali um Fred Astaire do fim do século) fizeram de Michael Jackson o melhor astro pop depois da geração de Elvis e da dos Beatles.

Com todas as suas virtudes e todos os seus defeitos, ele representou seu tempo com talento, graça, charme e elegância como nenhum outro que vimos dos 1980  para cá.

O menino que esbanjava talento nos tempos do Jackson 5, o adolescente que cantava baladas como Ben, o adulto recordista de vendas com Thriller – a música de Michael Jackson arrebatou milhões de fãs, mas não devolveu a felicidade que lhe foi retirada na infância.

Edu Lobo, um dos grandes da era dos festivais, completa 75 anos

Edu Lobo, um dos grandes compositores da era dos festivais, faz 75 anos nesta quarta-feira (29).

Está aí ele em 1967, vencedor, com Ponteio, do III Festival da Música Popular Brasileira.

Está aí ele agora, em seu disco mais recente, ao lado dos contemporâneos Dori Caymmi e Marcos Valle.

Eduardo de Góes Lobo se projetou na era dos festivais. Era um vencedor com músicas como Arrastão (letra de Vinícius de Moraes), que revelou Elis Regina, e Ponteio (parceria com José Carlos Capinam). Na segunda metade da década de 1960, poderia ter se transformado num artista tão popular quanto seus contemporâneos Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, que também conquistaram dimensão nacional através dos festivais de MPB. Mas não era este o seu desejo e não foi esta a sua opção. Nadou contra a corrente, contrariou as regras do mercado de música popular, trocou o Brasil pelos Estados Unidos e foi estudar composição, arranjo, regência. Quando voltou, já estava à margem do sucesso e não mais o procurou. Aprimorou seu repertório autoral, escreveu arranjos como os de Calabar, de Chico Buarque, gravou pouco, atuou discretamente em suas performances ao vivo. Seguiu o caminho que escolheu.

Vi Edu Lobo no palco pela primeira vez no Projeto Pixinguinha de 1978. Era um show vigoroso que resumia o seu trabalho. Desde os sucessos da época dos festivais até as músicas mais recentes (o disco novo se chamava Camaleão). O que mais me surpreendeu foi o seu desempenho ao vivo. Não tinha nada com o hermetismo que eu imaginava ser marca dos shows que fazia. Edu, àquela altura, não era mais um artista popular, com um grande público, mas o repertório sofisticado não dificultava o seu diálogo com a plateia. O trabalho refinado era muito atraente quando executado ao vivo. O músico se acompanhava ao piano e ao violão e, além do quarteto vocal Boca Livre, tinha ao seu lado uma banda que ia dos ritmos nordestinos, assimilados nas férias recifenses da infância e da adolescência, ao jazz.

Edu Lobo tem grandes discos. Difícil escolher os melhores. Podemos mencionar logo o LP em que é acompanhado pelo Tamba Trio (A Música de Edu Lobo por Edu Lobo). Ou pensar naquele disco que começa com No Cordão da Saideira e marca a sua estreia como arranjador. É lá que está a belíssima Canto Triste. Em Cantiga de Longe, registrado num estúdio de Los Angeles, junta-se a músicos brasileiros como Hermeto Pascoal e Airto Moreira. São todos dos anos 1960. Limite das Águas, dos anos 1970, traz o Edu bem depois da temporada americana. Camaleão teve uma faixa (Lero Lero) executada no rádio, mas não podemos dizer que a música escrita em parceria com Cacaso o reconciliou com o êxito comercial.

Edu & Tom é soberbo. No início da década de 1980, Edu Lobo estava gravando um novo disco, sob a produção de Aloysio de Oliveira. Convidou Tom Jobim para participar de uma faixa. Tom chegou ao estúdio e foi ficando. O que era um projeto solo virou um encontro antológico. Um visitando o repertório do outro. Os dois dividindo vozes e instrumentos. Tudo muito cool. Formação acústica, diminuta. Piano, violão, contrabaixo, bateria, um trompete. Pra Dizer Adeus, de Edu e do poeta tropicalista Torquato Neto. Chovendo na Roseira, do Tom ecológico. Vento Bravo, Ângela, Canção do Amanhecer, Luiza. Um mestre e um aluno aplicadíssimo, talvez o compositor mais jobiniano de sua geração. Depois, teríamos um outro encontro e uma nova parceria: O Grande Circo Místico. Melodias de Edu, letras de Chico Buarque. A compilação Álbum de Teatro resume o trabalho dos dois.

Nos últimos anos, Edu Lobo tem gravado discos distribuídos pelo selo Biscoito Fino. O mais recente, lançado há pouco, é dividido com os contemporâneos Dori Caymmi e Marcos Valle. Seu cancioneiro é belo e exuberante. Cada novo disco reafirma o imenso talento de Edu do mesmo modo que a sua decisão de não ser um autor para muitos ouvintes.

Só quem está na frente não se queixa das pesquisas eleitorais

Pesquisa eleitoral fala, para mim, sobre a necessidade de separar o desejo da realidade.

É um exercício necessário para quem, de alguma forma, se envolve com as campanhas políticas, mas muitos não querem fazê-lo.

O que interessa não é quem você quer que ganhe, mas quem tem chances reais de ganhar.

Como cidadão e como jornalista, acompanho as pesquisas desde a volta das eleições para governador, em 1982.

Acompanhei muito de perto sobretudo durante as duas décadas em que estive no comando da redação da TV Cabo Branco, de 1986 a 2006.

A divulgação, como ocorreu na sexta-feira (24), de uma primeira pesquisa por um instituto crível (o Ibope – como o Datafolha – é um instituto crível) é sempre um momento importante numa campanha. É quando se tem um dado de fato concreto sobre como estão os candidatos. Antes disso, é só “achismo”.

Em seguida, vemos nas redes sociais como os números foram recebidos. As reações misturam desconhecimento de uns com envolvimento de outros.

O erro – há muito reconhecido – que o Ibope cometeu na eleição de 1990 (previu a vitória de Wilson Braga no primeiro turno, houve segundo turno, e Ronaldo Cunha Lima venceu) continua servindo para que se tente desqualificar o instituto. Mas essa desqualificação, feita ou por quem não tem boa memória ou por quem confunde as coisas de forma deliberada, acaba citando equivocadamente outras pesquisas de outros processos eleitorais.

Vi, por exemplo, alguém dizer que o Ibope errou ao afirmar que o candidato X, e não o Y, ganharia uma das nossas eleições para governador. Isso não ocorreu. O candidato X era favorito, mas o instituto não apenas flagrou o instante em que o Y cresceu, como acompanhou o seu desempenho já como favorito e, por fim, como vitorioso.

A cobertura jornalística de uma campanha – a agenda dos candidatos, a divulgação das pesquisas, a realização das entrevistas e debates, etc. – é minuciosamente planejada por uma emissora como a TV Cabo Branco. O primeiro telejornal a divulgar a pesquisa dá apenas os números da estimulada. Não importa quem está na frente e quem não está. Nos telejornais seguintes, são divulgados outros números, como se viu no sábado (25).

Mas campanhas políticas, infelizmente, são como jogos de futebol. Norteadas pela paixão, pela emoção, muito pouco pela razão. Daí é que vemos jornalistas e não jornalistas cometendo tantos enganos nas redes sociais.

Só quem está na frente não se queixa das pesquisas eleitorais.

Single dos Beatles com Hey Jude e Revolution foi lançado há 50 anos

Segunda-feira, 26 de agosto de 1968.

Nos Estados Unidos, ainda com o selo Capitol, é lançado o novo single dos Beatles.

No lado A, Hey Jude. No lado B, Revolution.

Sexta-feira, 30 de agosto de 1968.

Já com o selo Apple, Hey Jude e Revolution chegam às lojas do Reino Unido.

50 anos depois, qualquer garoto dirá que Apple é o nome da empresa de produtos eletrônicos fundada por Steve Jobs.

Meio século atrás, era outra coisa. Apple era o nome da empresa fundada pelos quatro Beatles para, fundamentalmente, comercializar os discos do grupo e lançar novos artistas.

Os singles (no Brasil, compactos simples) da Apple eram lindos.

No lado A, o verde da maçã ainda inteira.

No lado B, o branco da maçã partida ao meio.

Hey Jude/Revolution foi o primeiro single com o selo Apple.

Hey Jude é uma balada de Paul McCartney. Letra e música de Paul, apesar da assinatura Lennon/McCartney.

Revolution é um rock de John Lennon. Letra e música de John, apesar da assinatura Lennon/McCartney.

Hey Jude – O Jude do título na verdade é Julian, filho de Lennon que sofria com a separação dos pais. McCartney escreveu a canção pensando no garoto, que estava com cinco anos. É uma das suas melodias mais marcantes. E tem o “na-na-na-na” do longo coro que fecha a gravação. Hey Jude dura sete minutos, mas isto não impediu o seu sucesso radiofônico. A música atravessou meio século e ainda hoje fecha os shows de Paul McCartney, emocionando plateias do mundo inteiro.

Revolution – É a resposta dos Beatles aos acontecimentos de 1968, ao tema da revolução. Essa resposta só podia vir de Lennon, o mais politizado dos quatro. Como há duas versões (a do single e, em seguida, a do Álbum Branco), Lennon preferiu a ambiguidade. Podem contar com ele para a revolução? Uma versão diz que sim, a outra diz que não. No compacto, Revolution é um rock visceral, pesado, cheio de guitarras saturadas – do jeito que John gostava.

50 anos se foram e cá estamos nós falando de Hey Jude e Revolution.

Parece que os Beatles faziam boa música, não é?

BERNSTEIN NASCEU HÁ 100 ANOS

Os americanos celebram neste sábado (25) o centenário de nascimento de Leonard Bernstein.

Não, não. Dizer os americanos é pouco.

O mundo da música celebra neste sábado (25) o centenário de nascimento de Leonard Bernstein.

Está aí ele jovem, regendo.

Está aí ele velho, regendo.

Está aí ele “louco”, feito um astro do rock, regendo.

Leonard Bernstein foi um dos músicos mais importantes do século XX. Imenso em tudo o que fez. Grande compositor, grande pianista, grande regente de orquestra.

Como homem do seu tempo (embora sofresse por acreditar que havia pouca contemporaneidade em sua música), Bernstein tem seu nome junto dos que produziram o melhor repertório erudito do século XX. Também figura ao lado dos regentes mais notáveis da era do disco (sobretudo nos anos em que esteve à frente da Filarmônica de Nova York). Conduzindo uma orquestra, era performático, “louco”, expressivo, passional. Usou a televisão para divulgar a música clássica numa extensa série de concertos dedicados sobretudo ao público jovem. Tinha ainda uma admiração singular pelo jazz e o difundiu através de programas didáticos que fizeram história.

Bernstein era um astro pop. Ousado, provocativo, controvertido.

Casou com atriz chilena Felicia Montealegre, com quem teve três filhos, mas era gay. Também era de esquerda. “Me respeitem! Sou um veado vermelho!”, teria dito certa vez aos seus críticos (se é lenda, imprima-se a lenda!). Judeu, vivendo em Nova York, vizinho de John Lennon no Edifício Dakota, o maestro não gostava somente do jazz quando o assunto era a música popular. Amava o rock de Elvis, dos Beatles e dos Rolling Stones. E cutucava os colegas do mundo erudito ao dizer que, se pensarmos na relação do homem com a música, os Beatles foram mais importantes do que os clássicos contemporâneos do século XX.

Quando a Orquestra Filarmônica de Israel tocou Richard Wagner pela primeira vez, o público reagiu mal por causa da preferência de Hitler pelo compositor. Bernstein, mesmo sendo judeu, defendeu a escolha, afirmando que Wagner não poderia estar ausente do repertório de nenhuma orquestra moderna. Já no concerto em comemoração pela queda do muro de Berlim, regeu a Nona Sinfonia de Beethoven e, no trecho cantado, trocou a palavra alegria por liberdade.

Seu amor pela música popular foi recompensado. São dele as melodias de um dos musicais mais populares do século XX: West Side Story, que transpõe a tragédia de Romeu e Julieta para a Nova York dos anos 1950, colocando o casal apaixonado (Tony e Maria) no meio de duas gangues de rua. O tema da luta dos imigrantes pela conquista do sonho americano permanece atual, mais ainda agora sob Donald Trump. West Side Story virou filme, dirigido por Robert Wise, que no Brasil se chama Amor, Sublime Amor.

West Side Story parece música popular, se transformou em música popular, mas não é. Suas “canções” e seus temas instrumentais foram escritos com o rigor da música erudita. Leonard Bernstein, já no fim da vida, gravou pela primeira (e única) vez este grande musical. E o fez com uma orquestra montada com músicos que arregimentou em Nova York e maravilhosos cantores líricos, de Kanawa a Carreras, de Troyanos a Ollmann.

Leonard Bernstein morreu em outubro de 1990, aos 72 anos. Tinha câncer de pulmão.

A música de Lenny está viva!

Gravadora divulga versão inédita de Imagine, de John Lennon

Uma versão inédita de Imagine, de John Lennon, foi divulgada pela gravadora Universal Music.

A gravação, uma demo original da canção, foi encontrada no início dos trabalhos do projeto Imagine – The Ultimate Collection, que será lançado mundialmente no dia cinco de outubro.

O registro, até então desconhecido, foi localizado pelo engenheiro Rob Stevens nos arquivos de Lennon.

Imagine – The Ultimate Collection é um box com rico material de áudio e vídeo distribuído em quatro CDs e dois Blu-rays.

O projeto, supervisionado por Yoko Ono, revela todo o processo de gravação do álbum Imagine, que John Lennon lançou em 1971.

Os discos trazem o álbum original em versão novamente remasterizada, além de dezenas de takes que desnudam as canções.

Há também os filmes Imagine e Gimme Some Truth, restaurados e remasterizados em HD.

No Brasil, a Universal Music deve lançar uma edição com dois CDs e um DVD.

Se fosse vivo, John Lennon faria 78 anos no dia nove de outubro.

DVDs com filmes de Glauber voltam ao mercado em setembro

Nesta quarta-feira (22), aniversário da morte de Glauber Rocha (são 37 anos), tenho uma boa notícia para os admiradores do grande cineasta brasileiro.

Em setembro, a Versátil vai repor no mercado cinco DVDs duplos com filmes de Glauber.

Em cópias avulsas, serão relançados Barravento (o primeiro longa), Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (os três mais importantes) e A Idade da Terra (o último trabalho).

Ao mesmo tempo, num box, serão acondicionado todos esses, à exceção de Deus e o Diabo na Terra do Sol.

São cópias restauradas em edições cheias de material extra.

Já que o assunto é Glauber, fiquem com esse texto primoroso do crítico Antônio Barreto Neto, retirado do livro Cinema por Escrito.

GLAUBER, UM GUERRILHEIRO DE CÂMERA NA MÃO

Por Antônio Barreto Neto

Polêmico, anárquico, violento, delirante, agressivo, o cinema de Glauber Rocha foge radicalmente dos códigos e normas usuais da narrativa cinematográfica. Esta é a primeira dificuldade que o espectador comum, viciado pela linguagem padronizada do cinema importado, enfrenta diante de seus filmes. Infatigável, demolidor de estruturas – como Godard, um de seus modelos – Glauber desarticulou o signo fílmico, libertando a imagem cinematográfica dos liames literários e teatrais, instaurando uma linguagem nova, mais adequada à expressão do universo de pobreza e miséria do chamado Terceiro Mundo, que representa uma das maiores perspectivas de transformação social da História contemporânea.

Essa práxis cinematográfica desmistificou o realismo enquanto reconstituição fiel do real, promovendo a dissociação entre a realidade do Terceiro Mundo e suas aparências institucionais para denunciar as formas de alienação do povo e os mecanismos de opressão do poder – uma coisa se alimentando de outra e vice-versa, no ciclo fechado de miséria social e atraso cultural. Para Glauber, as relações entre a ficção e a realidade que a inspira devem ser dialéticas mais do que imediatas e precisas. Por isso, Corisco, o cangaceiro de Deus e o Diabo na Terra do Sol, embora sendo um personagem real, não se comporta no filme exatamente como seu modelo, mas como um símbolo dinâmico, uma ideia em movimento.

Síntese de antíteses aparentemente inconciliáveis, o cinema de Glauber Rocha compreende duas vertentes básicas: a mitologia popular e a consciência social. Seus filmes mergulham fundo no subsolo das mitologias do Terceiro Mundo, nas quais se integram os arquétipos da realidade brasileira. Glauber seleciona as combinações possíveis desses discursos míticos, erigindo os fragmentos do real captados pela câmera à condição superior de signos representativos do universo cultural terceiromundista, através dos quais denuncia as lei e axiomas sociais de que são corolários aqueles mitos. Daí a torrente de alegorias, metáforas e símbolos em que se articula sua antinarrativa demolidora e tangencial.

Esse cinema fenomenológico, analítico, feito de ideias em movimento constante e dialético, exprime o conflito de uma personalidade inquieta e rebelde com a realidade que o cerca. O sentimento desse conflito é dado, em termos de encenação, pelo comportamento dos personagens, sempre em luta constante com o meio em que se agitam. No cinema de Glauber, a reflexão do autor está no interior do plano, é um elemento substancial de sua arquitetura cênica. E a ação dos personagens torna-se função dessa reflexão. No cinema de Glauber, o temperamento do autor e a personalidade da obra se confundem na mesma força telúrica, no mesmo vigor lírico, no mesmo grito de revolta e inconformismo. Glauber foi um guerrilheiro de câmera em punho. (13/09/1981)

Não vi o debate da TV Master porque senti vergonha alheia

Sempre vejo os debates com candidatos na televisão.

Gosto como telespectador e acompanho também porque sou jornalista.

Nesta segunda-feira (20), comecei a ver o da TV Master com os candidatos que disputam o governo da Paraíba.

O apresentador Alex Filho fez a abertura, agradecimentos pelas presenças, etc. Fez o que mandam as regras.

Chegou o momento em que os candidatos se apresentam.

O cronômetro não funcionou. O apresentador questionou a técnica. O cronômetro funcionou. O candidato se apresentou. O apresentador disse que houve uma falha no cronômetro e deu mais um minuto ao candidato. Era Lucélio Cartaxo. Ele se apresentou de novo.

Chegou a vez de João Azevedo. O candidato entrou sem áudio. Falou um pouco, e ninguém ouviu. O áudio passou a funcionar, e o candidato se apresentou.

O debate já ia seguir com o início das perguntas entre os candidatos quando Alex Filho foi avisado por um jornalista da plateia sobre a falha no áudio.

Houve? Não houve?. Ele queria saber. E avisou: só continuo quando souber.

As torcidas, reunidas lá fora, deram sinal: houve!

O apresentador pediu socorro ao departamento artístico da emissora.

O socorro veio, afinal: houve, sim, um problema com o áudio.

Alex, então, pediu que João Azevedo se apresentasse mais uma vez.

Senti vergonha alheia.

Desliguei a TV e fui dormir.

CD de Gilberto Gil tem grande conversa sobre a vida e a morte

O novo trabalho de Gilberto Gil já está disponível em CD, LP e nas plataformas digitais.

OK OK OK é o primeiro disco de canções inéditas desde Fé na Festa, lançado há oito anos.

Sei que não dei nenhuma opinião
É que eu pensei, pensei, pensei, pensei
Palavras dizem sim, os fatos dizem não

Começo com o que diz respeito ao coletivo.

OK OK OK, a faixa que dá título ao disco, abre o repertório com uma resposta de Gil às cobranças que lhe são feitas. “E então, não vai se posicionar sobre a atual situação?” – coisas assim.

Vi num artigo alguém dizer que a letra é ambígua. Não me parece. Gil costuma olhar o mundo com riqueza e complexidade e não o faz de forma diferente quando o assunto é o Brasil e seus impasses.

Uma entrevista de dias atrás fala disso: o artista foi ao show Lula Livre na Lapa, cantou Cálice com Chico Buarque, mas disse depois que não votaria necessariamente em Lula.

Sua presença no evento tem a ver com princípios e preocupações que vão além do desejo real de que o ex-presidente seja posto em liberdade e da possibilidade de votar nele.

OK OK OK  me remeteu a Metáfora, de 1982. Aqui, acolá, nas soluções melódicas. Sobretudo na letra. Deixem o poeta em paz. Ele diz tudo sem dizer nada.

Agora vou ao pessoal.

Há algum tempo, a morte se incorporou às conversas que tenho com Gil. Por causa da passagem dos anos, por causa das perdas que vão se acumulando.

Uma década atrás, ouvi dele uma lição que recebeu de Walter Smetak: todos os dias, é preciso tirar um tempinho para refletir sobre a inevitabilidade da morte. Pode não ser fácil, mas é importante fazê-lo.

OK OK OK, o disco, é uma grande conversa sobre a vida e a morte. Ao modo de Gil.

A doença grave que enfrentou há dois anos, o envelhecimento, a família (após os filhos, os netos e bisnetos), os amigos, os colegas de ofício, os médicos, a ausência de Jorge Bastos Moreno (um “irmão” tardio) – tudo isso foi mexendo com o compositor. Foi se juntando para montar uma espécie de retrato que é esse primeiro disco da velhice, como Gil chamou OK OK OK.

É uma conversa serena. Uma conversa que é construída pelo conjunto das canções (12 + três bônus). Com essa serenidade e com a sabedoria que Gil foi acumulando ao longo da vida.

Musicalmente, tem o reencontro com João Donato (velho parceiro), o encontro com Yamandu Costa (exímio violonista), o diálogo profícuo com Bem, o filho músico, a quem se deve muito da sonoridade do disco.

Na hora de compor, Gil está afiado. É o Gil de ontem, o Gil de sempre, sem deixar de ser o Gil de hoje. É curioso como ele consegue ser o mesmo sendo outro. Como ele é perene e atual.

Esse disco começou num momento difícil, de doença, riscos e longas permanências no hospital.

Uma canção, outra, mais outra, aos poucos reveladas, ainda nuas, nas redes sociais.

Pronto, OK OK OK sobrepõe a vida à morte.

E reúne infinitas belezas para nós que amamos Gil.