Quadrinhos Disney não saem mais pela Editora Abril. E agora?

Quem deu o alarme foi o site Planeta Gibi.

Em seguida, uma nota da área de assinaturas da editora confirmou, mas não explicou os motivos.

No Brasil, os quadrinhos Disney não saem mais pela Abril.

Termina uma história que se confunde com a trajetória da própria editora dos Civita.

A Abril foi fundada em 1950.

Começou publicando os quadrinhos do Pato Donald.

Eles estão nas bancas, portanto, há 68 anos!

Várias gerações cresceram consumindo essas publicações.

Eu as alcancei nos anos 1960, na infância, comprando mensalmente duas revistas: Tio Patinhas e Mickey.

O Mistério do Não Sei o Quê. Lembro até de alguns títulos.

Depois veio a coleção Clássicos Walt Disney, com a quadrinização dos filmes mais célebres da Disney.

E tantas outras.

Histórias e personagens que resistiram ao tempo e, no meu caso, à crítica que alguns professores faziam a Disney no curso de jornalismo.

Tinha até aquele livro Para Ler o Pato Donald. Nunca me convenceu.

Nos últimos quatro anos, sem dar nenhum sinal de que perderia o licenciamento, a Editora Abril colocou no mercado brasileiro edições luxuosíssimas (e muito caras!) dos quadrinhos Disney, enfatizando, por exemplo, a obra de um artista como Carl Barks, o melhor e mais importante de todos os desenhistas que trabalharam produzindo HQ para Walt Disney.

Foram dezenas livros de capa dura.

Uma verdadeira preciosidade para os cultores do gênero.

Fica a pergunta:

Qual será agora o destino das revistas de Walt Disney no Brasil?

Há quem aposte na italiana Panini.

Aguardemos.

Feministas não deveriam dar audiência às baixarias da televisão

Eu jamais saberia que o apresentador de um programa policial falou mal das mulheres que não pintam as unhas e outras coisas mais.

Soube através das manifestações de feministas nas redes sociais.

Deduzi que algumas delas ligam a TV para ver o cara. Vão no face dele, no instagram.

Ou seja: perdem tempo com um sujeito que entra nas casas para dizer coisas absolutamente indefensáveis.

Sou jornalista, mas nem por razões profissionais quero saber quem é esse cara, o que ele faz, de onde veio, as barbaridades que diz, etc.

Não faz parte da minha vida.

Não pertence ao universo das coisas que me interessam e me enriquecem.

Não está inserido no jornalismo que produzo.

Na Globo, de quem se fala tão mal, William Waack, que é um jornalista qualificadíssimo, caiu por muito, mas muito menos.

E que bom que assim tenha sido.

Aqui, não.

Numa nota, a emissora pede desculpas ao telespectador, mas menciona o respeito à liberdade de expressão do apresentador.

OK.

Por liberdade de expressão, lutamos todos nós.

Mas isso não nos dá o direito de dizer tudo. De defender o que não pode ser defendido. Como vemos seguidas vezes nos programas policiais dos canais abertos de televisão.

Passei em frente à emissora e vi mulheres gritando palavras de ordem, exibindo cartazes, batendo tambores.

Manifestações assim, desde que pacíficas, são sempre legítimas. É o que penso.

Mas, francamente, estão dando cabimento demais a quem não merece.

Quando trabalhei numa emissora que abre muito espaço para esses programas popularescos, lá dentro vivi a ilusão de que eles têm uma repercussão extraordinária.

Repercutem, sim. É verdade.

Mas, de volta ao mundo real, verifiquei que, do lado de fora, se fala muito menos dessas “estrelas” do jornalismo do que se pensa.

O mundo desses personagens tem muita fantasia que eles próprios alimentam.

E tem – claro – o diálogo deles com o mercado, com os políticos, com interesses que não são os mesmos das pessoas comuns.

Não raro, defendem argumentos machistas, racistas, homofóbicos. A tortura, a pena de morte, a justiça com as próprias mãos. São contra os direitos humanos.

Estão na contramão dos marcos das sociedades civilizadas.

As feministas vivem hoje uma intensa retomada de suas pautas mais importantes.

Têm uma agenda de prioridades.

Um papel a desempenhar.

Não deveriam perder tempo com programas policiais.

Nesse episódio recente, deram visibilidade e mais audiência a quem não merece.

Disseram que o cara existe a quem nem sabia. Ou a quem sabia, mas nunca tinha visto.

Em que medida contribuíram para abrir um debate concreto e com resultados sobre o necessário compromisso que quem é responsável por esses programas deve ter com as questões que envolvem os direitos humanos?

Acredito – sinceramente – que erraram mais do que acertaram.

“Os jornais querem saber de sua vida. Deveriam tentar saber melhor de sua música”

João Gilberto completou 87 anos neste domingo (10).

Agora à noite, Caetano Veloso usou o Facebook para postar este texto sobre João.

Transcrevo:

“João Gilberto é o maior artista brasileiro. Ele não procura exibir capacidade neuronal para a música. Ele vai sempre mais para dentro do essencial da música (da canção escolhida, da música composta, da Música como instância humana) e mostra com simplicidade a complexa rede de sugestões de que uma peça poético-musical é capaz, abrangendo História, religião, política, plasticidade, matemática, psicologia, moral, afetos. Com ele não é gincana em que competem velocidade de execução, precisão de afinação do instrumento e enfeite harmônico (que tantas vezes ilude-se de enriquecer o que já é rico). Não. João vai ao fundo do que é a peça e analisa seu contexto. Mudou a história da música popular no Brasil, seu passado e seu futuro. Os jornais querem saber de sua vida. Deveriam tentar saber melhor de sua música. Sua música é vida”. 

A santíssima trindade de João Gilberto

João Gilberto faz 87 anos neste domingo (10).

Três discos resumem a importância da sua música.

Chega de Saudade, 1959.

O Amor, O Sorriso e A Flor, 1960.

João Gilberto, 1961.

Seminais, os três discos formam um conjunto de excepcional beleza e grande unidade.

São tão indissociáveis quanto a fusão da voz de João Gilberto com a batida do seu violão.

No Brasil, estão fora de catálogo por causa de uma longa batalha judicial do artista com a gravadora EMI.

Na Europa, nos Estados Unidos, no Japão, são encontrados em edições não autorizadas.

E O SENHOR? TAMBÉM É JORNALISTA?

Alguns anos atrás, fui trabalhar numa emissora de televisão que investia fortemente no jornalismo popularesco.

Aquele da crônica policial, da violência, do politicamente incorreto.

Do sangue, como costumam dizer.

O jornalismo do “bandido bom é bandido morto!”, posso resumir assim.

Um jornalismo que está na contramão dos avanços do mundo civilizado, que veio do rádio e ocupou grandes espaços nos canais abertos de televisão.

Fui contratado para editar o telejornal da noite, o menos contaminado por esse tipo de conteúdo.

Entenderam – e estavam corretos – que eu, pelo perfil profissional que tenho, me adequaria melhor do que se fosse atuar em outros horários da casa.

No segundo ou terceiro dia de trabalho, depois de editar as matérias, eu estava na redação escrevendo o texto que seria lido à noite pelos apresentadores.

Eis que entra na sala uma das estrelas do jornalismo policial da casa.

Nós não nos conhecíamos pessoalmente, mas é óbvio que eu sabia quem ele era.

Afinal, estava no vídeo todos os dias e gozava de grande popularidade.

O cara sentou numa cadeira próxima à minha, me olhou, deu boa tarde e fez a pergunta:

E O SENHOR?

TAMBÉM É JORNALISTA?

Ao que respondi:

SIM!

TAMBÉM SOU JORNALISTA!

A resposta que cabia ficou guardada:

EU SOU JORNALISTA!

VOCÊ, NÃO!

Jornalismo popularesco na TV? Não vejo!

Esse jornalismo popularesco, focado na crônica policial e defensor dos conceitos mais abjetos, ouvi muito no rádio que se fazia nos anos 1960, quando eu era menino.

Apenas migrou para a televisão.

Dá a impressão de que estão fazendo rádio na TV.

Já paguei muitos pecados trabalhando com esse tipo de jornalismo.

Você tenta compreender, faz esforços de convivência profissional, mas é difícil. O conteúdo veiculado lhe violenta todos os dias. É o oposto daquilo em que você ainda acredita como prática jornalística possível.

Estou falando essas coisas por causa de uma discussão que tomou as redes sociais nesta quarta-feira (06) em João Pessoa.

Vi o vídeo no Facebook. Confesso que não fiquei surpreso. É tão indefensável quanto é compatível com esse tipo de jornalismo que ocupa grandes espaços em emissoras de televisão.

Sabem o que faço?

Não repercuto!

Não dou voz!

Não vejo!

Jornalismo popularesco, na contramão dos avanços do mundo civilizado?

Não faz parte da minha vida!

Simples assim!

DEUS! NÃO OUTRA VEZ!

22 de novembro de 1963:

O presidente John Kennedy é assassinado em Dallas!

Seis de junho de 1968:

O senador Robert Kennedy, em campanha pela presidência da república, é assassinado em Los Angeles!

50 anos nesta quarta-feira.

Bob parecia mais comprometido do que o irmão JFK com o enfrentamento de questões cruciais da América do seu tempo. Rompera com o presidente Johnson por discordar da escalada no Vietnã. Tinha um envolvimento corajoso na luta contra o racismo.

Na noite de quatro de abril, durante um comício, foi ele que deu a notícia do assassinato do reverendo Martin Luther King.

Na noite de cinco de junho, num hotel em Los Angeles, num evento de campanha, foi a vez dele.

O senador morreu horas depois, na manhã do dia seis de junho.

DEUS! NÃO OUTRA VEZ! – diz a manchete do Daily Mirror.

Fabiana Cozza não é branca! Uma mulher já foi Bob Dylan!

Estamos emburrecendo velozmente?

Claro que sim!

Não tenho dúvidas!

Fabiana Cozza não é negra o suficiente para viver Dona Ivone Lara no palco?

Quando pensamos assim, estamos de fato emburrecendo velozmente!

Apesar de todos os seus méritos e da aprovação da família da grande sambista, Fabiana Cozza, diante das pressões que sofreu e das duras críticas a ela dirigidas, desistiu de atuar no musical sobre Dona Ivone Lara.

Fabiana Cozza não é branca!

Fabiana Cozza é uma cantora absolutamente identificada com o mundo do samba!

Claro que ela poderia viver Dona Ivone Lara num musical!

“Tremenda injustiça, imenso e desagregador tiro no pé de quem persegue assim um irmão ou uma irmã militante da causa afro-brasileira”, disse muito bem Chico César no Instagram.

“São tiros no espelho”, afirmou o rapper Emicida.

De Dona Ivone Lara para Bob Dylan.

Conversando com um amigo sobre esse episódio envolvendo Fabiana Cozza, fomos parar em I’m Not There.

Ou Não Estou Lá.

Muitos fãs detestam, mas gosto imensamente desse filme sobre Dylan.

Em seu delírio narrativo, acaba sendo muito fiel ao universo criativo do artista e às suas esquisitices.

É um retrato dele tirado com muita liberdade.

Pois bem. Entre as seis pessoas que vivem Dylan na tela, confiram na foto: há um garoto negro!

O Zimmerman menino, vagando de trem em busca de raízes profundas da música americana, é um garoto negro!

E mais:

Há uma mulher entre os seis protagonistas!

Uma mulher fazendo Bob Dylan!

E que Bob Dylan!

Cate Blanchett, no papel do bardo judeu romântico de Minnesota, ganha dos demais!

Quase ganha do próprio Dylan!

A Associação Paraibana de Imprensa serve mesmo para quê?

Em 1961, na renúncia de Jânio, meu pai, que não era jornalista, saía do trabalho no final da tarde e passava na sede da Associação Paraibana de Imprensa para saber das novidades da cadeia da legalidade, comandada de Porto Alegre pelo governador Brizola para garantir a posse de Jango.

Em 1984, com 25 anos, jornalista e associado, eu passava na API porque lá fora instalado uma espécie de comitê suprapartidário da campanha das diretas já.

Em 1980, vindo do exílio, Prestes estava em João Pessoa, e a API era o lugar escolhido para a entrevista coletiva do cavaleiro da esperança.

Em 1979, Gilberto Gil fazia shows em João Pessoa e Campina Grande e ia à API para um encontro com os jornalistas paraibanos testemunhado também por fãs.

O que quero dizer é que a entidade representativa da imprensa dialogava com a sociedade. Recebia pessoas ilustres. Desempenhava um papel importante. Exibia filmes. Promovia debates. Tinha portas abertas.

Na semana passada, conversei muito longamente com a professora Sandra Moura, que é candidata a presidente da API. A eleição será em julho.

Guardei uma coisa que ouvi dela: que a associação tinha parte significativa na formação da nossa consciência crítica.

É verdade.

Sandra disse tinha porque, com ela, isso se deu há uns 30 anos.

Eu também diria tinha porque, comigo, se deu há uns 40.

Mas perguntaria:

E hoje?

Ainda tem?

A Associação Paraibana de Imprensa serve mesmo para quê?

Que papel ela desempenha?

O que os rapazes e moças que estão saindo da universidade e entrando no mercado pensam sobre a API?

Que interesse têm nela?

Qual o perfil dos novos associados da entidade?

Soube que são muitos. Centenas. É verdade?

O que pode ser feito para que a API recupere muito do que foi perdido?

O que é preciso fazer para que a API se reinvente?

Já tive orgulho de ser da Associação Paraibana de Imprensa.

Faz tempo que não vou lá.

Fiquei muito decepcionado quando, em meados da década de 1990, Nonato Bandeira, que chegou à presidência se apresentando como o novo, agiu com Pedro Osmar, seu colega de diretoria, como agiria o mais reacionário dos reacionários.

Mas voltemos ao presente.

Enxerguei algumas luzes na conversa com Sandra Moura.

Fiz algumas sugestões a ela.

Não gosto da perpetuação no poder.

Prefiro a alternância.

A ideia da formação da nossa consciência crítica ficou na minha cabeça.

A API não pode ser só aquele velho prédio na Visconde de Pelotas.

Banguê anuncia sessões, mas não funciona. Serviço público é assim?

O Cine Banguê foi inaugurado no início dos anos 1980.

Fui à primeira sessão.

Inocência, belo filme de Walter Lima Júnior.

A sala tinha uma programação diferenciada, mas nunca funcionou direito. E parecia mal projetada para sessões de cinema.

Na reforma do Espaço Cultural feita pelo governo Ricardo Coutinho, foi transformada na Sala de Concertos Maestro José Siqueira. Ficou um brinco!

O Banguê foi reconstruído em outro lugar, perto do planetário e do teatro de arena.

Soube que atende às exigências das modernas salas de cinema, dessas que temos nos shoppings.

Vou raramente ao cinema. Vejo filmes em casa.

Mas, neste domingo (03), resolvi ir ao Banguê. Era a minha primeira vez no novo Banguê.

Estava curioso para ver O Processo, documentário sobre a deposição da presidente Dilma. Deu vontade de ver no cinema. Tela grande, etc.

A sessão estava marcada para três da tarde. Seria a penúltima exibição de O Processo, que está em cartaz desde o dia 17 de maio.

Cheguei uma hora antes. A sala é pequena, dizem que costuma ter fila, os ingressos esgotam. Não quis correr riscos.

Entrei no Espaço Cultural na hora em que o secretário Lau Siqueira saía. Ainda nos cumprimentamos no estacionamento.

Muito bem. Quando me dirigi ao cinema, o acesso estava fechado, e um segurança me informou:

O Banguê está fechado. Teve um problema na sessão de ontem e hoje não funciona.

Não vou comentar.

Não é necessário.

Digo apenas, finalizando, que essas coisas (um cinema moderno, bem equipado, mas que tem um problema no sábado e não consegue funcionar no domingo) reforçam, tristemente, aquela velha imagem de que serviço público é assim mesmo.

Às cinco da tarde, falei com a assessora de imprensa da Funesc, mas a informação que me foi dada pelo segurança ainda não havia chegado a ela.