Meus Discos 6:56

TRANSA? Muita gente nem sabia o que era transa!

Transa. Segundo o Aurélio, “palavra-ônibus que traduz ideias de: entendimento, combinação, acordo, pacto, ligação, trama, conluio, relação amorosa, etc.; transação”. Segundo o Houaiss, “combinação para atingir determinado fim; acordo; assunto; questão; relação sexual”. Não é preciso invocar dicionários. Hoje, todo mundo conhece os diversos significados que a palavra tem. Mas não era assim em 1972, quando Caetano Veloso lançou um disco chamado Transa. Para muitos, é o melhor título da sua discografia.

No exílio londrino, Caetano gravou dois discos. No primeiro, aparecia deprimido na foto da capa. Igualmente nas canções. “Eu não vim aqui para ser feliz/cadê meu sol dourado/e cadê as coisas do meu país”, cantava em Português na faixa If You Hold a Stone, que vertia Marinheiro Só para o Inglês. Asa Branca era um longo lamento com gemidos que lembravam os cantadores nordestinos. As letras falavam da situação dele, de exilado, e das percepções do lugar que escolhera para morar. “Green grass, blue eyes, grey sky/god bless silent pain and happiness” – diz a letra de London, London. Belos versos de palavras certeiras que Caetano escreveu na língua estrangeira como se o fizesse na língua nativa.

No segundo disco gravado em Londres, o compositor dava a impressão de que dominara a tristeza que o primeiro deixava transparecer. Sempre identifiquei esta como uma (não á única) grande diferença entre os dois. Transa chegou às lojas mais ou menos na época em que ele voltou ao Brasil. As poucas faixas (apenas sete), que se estendiam por menos de 40 minutos, foram registradas na Inglaterra com uma banda de brasileiros: o violão e a direção musical de Jards Macalé, o contrabaixo de Moacir Albuquerque, a bateria de Tuty Moreno, a percussão de Áureo de Souza. Mais os vocais de Gal Costa e a gaita da então desconhecida Ângela Rô Rô no rock Nostalgia.

Caetano Veloso usa duas línguas para se comunicar, embora, fundamentalmente, dialogue com os ouvintes brasileiros num disco que nem foi lançado ao mesmo tempo no mercado do Reino Unido. Em Nine Out of Ten, tem antenas direcionadas para uma novidade que ouviu em Londres (o reggae jamaicano), mas, a rigor, suas referências são as nossas: de Luiz Gonzaga a Carlos Lyra e Edu Lobo (em You Don’t Know Me), de Caymmi aos afro-sambas de Baden e Vinícius (em It’s a Long Way). Ou no samba de Monsueto, que ele reencontra em Mora na Filosofia. Em Triste Bahia (a mais longa e talvez a melhor faixa do disco), recorre aos versos de Gregório de Mattos e a temas guardados na memória afetiva.

Quando, em 2006, trabalhou com um power trio no CD , Caetano disse que a nova banda remetia àquela de Transa. Mais pelo sentido do trabalho em grupo do que pelo sotaque rocker. De todo modo, é curioso que ouvintes jovens de hoje identifiquem uma certa “pegada” roqueira no velho Transa, muito mais do que nós que o ouvimos na época em que foi lançado. Identificávamos, na colocação da voz e na concepção dos arranjos, outras características que depois se tornariam marcas do trabalho de Caetano. Nos muitos anos que se seguiram, o artista fez grandes discos, guiado sempre por uma salutar inquietação. Mas a verdade é que ali, aos 30, ele já tinha o seu melhor para nos ofertar.