PERDIDOS NA NOITE

Por Antônio Barreto Neto

A história do caipira que se dispõe a enfrentar a grande cidade e termina esmagado por ela já foi contada muitas vezes pelo cinema. Nunca, porém, com o realismo brutal e trágico de Perdidos na Noite. A luta do grandalhão e saudável texano Joe Buck para sobreviver à frieza e à indiferença da asphalt jungle novaiorquina é uma das mais dolorosas e pungentes aventuras humanas já mostradas na tela. Ao mesmo tempo, um dos mais penetrantes e cruéis depoimentos sobre o desigual conflito entre o indivíduo e o sistema social.

Atraído pela miragem da América supercivilizada, Joe deixa seu sossegado Texas para conquistar Nova York. Esnobado pela grande metrópole, não tarda a passar da condição de conquistador para a de conquistado. Perambulando em companhia de um tuberculoso aleijado pelos bairros sórdidos da cidade, faminto e com frio, faz o doloroso aprendizado do marginalismo na desumana batalha pela sobrevivência que se trava, violenta, nos bastidores da grande cidade. Joe enfrenta a dura e triste realidade que se oculta atrás do brilho e do esplendor da selva de concreto e vidro.

Inglês, com poucos anos de América, surpreendeu aos próprios críticos americanos o realismo da visão que o cineasta John Schlesinger teve de um dos aspectos mais brutais da complexa realidade social do país. Um realismo a que a poesia das imagens do filme confere um irresistível sentido trágico. Dustin Hoffman e Jon Voight – dois perdidos na noite suja de Nova York – têm talvez o mais sensível desempenho dos últimos dez anos no cinema. (10/11/1972)

A publicação do texto faz parte de uma série em homenagem ao crítico paraibano Antônio Barreto Neto, que, se estivesse vivo, faria 80 anos no dia quatro de abril.

Este é o lixo que Chico Buarque produziu nos últimos 30 anos?

Um cara que faz música me disse que Chico Buarque não sabe fazer música.

E começou a questionar as linhas melódicas, as soluções harmônicas e a qualidade das letras.

Nas redes sociais, então, são muitos os absurdos que ando lendo sobre Chico.

A maioria vinda de gente desinformada, que não acompanha a carreira do artista disco a disco, show a show, gente que fala por falar.

Quando não, haters de direita ou extrema direita movidos por razões ideológicas, jamais por avaliações estéticas.

Chico Buarque mudou?

Mudou, sim!

Os clássicos instantâneos das duas primeiras décadas de carreira foram substituídos por canções de concepção mais refinada, de assimilação mais difícil, mas nem por isso menores do que as que ouvimos do jovem Chico. Somente diferentes.

Se tomarmos como referência do início dessa fase o disco Francisco, temos aí o que o compositor produziu nos últimos 30 anos.

São os discos da BMG-Ariola (até o duplo As Cidades ao Vivo) e aqueles lançados depois pela Biscoito Fino (a partir de Carioca).

Este é o lixo que Chico Buarque produziu, diriam seus críticos.

Pensando nisso, para quem gosta de listas, fiz uma compilação do período.

Uma espécie de The Best com 28 músicas.

Segue, disco a disco, em ordem cronológica.

E com as capas, para que o leitor saiba de onde vem cada música:

O VELHO FRANCISCO

ESTAÇÃO DERRADEIRA

BANCARROTA BLUES

TODO O SENTIMENTO

MORRO DOIS IRMÃOS

O FUTEBOL

UMA PALAVRA

VALSA BRASILEIRA

PARATODOS

DE VOLTA AO SAMBA

FUTUROS AMANTES

PIANO NA MANGUEIRA

CARIOCA

A OSTRA E O VENTO

INJURIADO

CHÃO DE ESMERALDAS

SUBÚRBIO

ODE AOS RATOS

ELA FAZ CINEMA

RENATA MARIA

LEVE

QUERIDO DIÁRIO

NINA

SINHÁ

TUA CANTIGA

BLUES PARA BIA

MASSARANDUPIÓ

AS CARAVANAS

VIVA ANTÔNIO BARROS!

Antônio Barros faz aniversário neste domingo (11).

88 anos.

“Meu amado homem de bem”, me disse Cecéu hoje cedo.

Sim. Homem de bem e mestre absoluto no seu ofício.

Antônio Barros é um poderoso hit maker.

Adoro suas marchinhas juninas, e é com elas (num medley da Orquestra Forrobodó, do maestro Spok) que mando um abraço pra ele.

Parabéns, Antônio!

Viva Antônio Barros!

Paulo Ró faz 60 anos

O músico paraibano Paulo Ró faz 60 anos neste domingo (11).

Paulo Roberto do Nascimento, o nome completo.

Roberto, como eu o chamava nos tempos do Colégio Estadual de Jaguaribe.

Pedro Osmar Gomes Coutinho já era Pedro Osmar quando o conheci.

Paulo Roberto do Nascimento ainda não era Paulo Ró.

Os dois irmãos, que moravam na antiga Rua da Paz, eram meus colegas no curso ginasial.

O ano, 1971.

Pedro compunha e estava envolvido com festivais e com a cena musical da cidade.

Roberto começava a tocar violão.

Ouvíamos muita música.

Ao nosso redor, nas ruas de Jaguaribe e em suas casas modestas, era como se houvesse uma comunidade imaginária formada em torno da música. Dos discos que levávamos uns para as casas dos outros. Dos violões que carregávamos em busca de novos acordes, das canções que pareciam mais difíceis e complicadas.

Nossa formação foi assim.

Lá fora, a violência do Brasil do ame-o ou deixe-o.

Nos nossos interiores, a música, o cinema, os livros, as artes plásticas.

O que era produzido em Jaguaribe e o que, vindo de fora, chegava às nossas mãos.

Duvido que hoje seja tão bom, a despeito de toda essa gama de informações gerada pelas maravilhas da tecnologia.

Na minha memória afetiva, Paulo Ró é personagem essencial dessa cena.

Descobrir os sons de Gismonti.

Ver Bangladesh na tela grande do Plaza.

“Tirar” todos os acordes de Beware of Darkness.

Depois, as músicas que ele começou a fazer. Os primeiros shows com o irmão. A formação do Jaguaribe Carne. A ida para o Rio de Janeiro.

Canções e experimentalismo. Canções versus experimentalismo. Só experimentalismo.

Sempre que vejo os dois (juntos ou separados), sempre que converso com os dois (hoje, tão pouco), me ocorre algo que botei na cabeça há muitos anos. Que, se Pedro Osmar é o guerrilheiro cultural, a Paulo Ró o que interessa mesmo é a música. Seu talento é essencialmente musical. Sempre foi assim, penso, mesmo que ele seja um parceiro fidelíssimo do irmão. Mesmo que ele tenha embarcado em todas as rupturas propostas pelo irmão.

Pedro Osmar organiza o movimento.

Paulo Ró faz música.

Um é o oposto do outro. Ou os dois se complementam em suas diferenças.

Não sei.

Só sei que gosto muito deles.

Mesmo quando brigo com Pedro e o chamo de intolerante.

Com Paulo Ró, não tem briga.

É só conversa sobre música, discos, gente que canta, gente que toca, os artistas que a gente nunca deixou de ouvir.

Paulo Ró em sua quietude. Lá em Lucena. Com uma família em que é o único homem. As mulheres são seu norte, sua proteção.

Como a música. A que ouve e a que faz.

Parabéns pelos 60, Roberto!

Quinteto Convida em Sampa confirma êxito do projeto

O Quinteto da Paraíba recebe convidados nesta sexta-feira (09) à noite no Sesc Pinheiros, em São Paulo.

Podemos dizer que será uma síntese do projeto Quinteto Convida, iniciado em João Pessoa no segundo semestre de 2016.

O concerto em Sampa confirma o êxito do projeto, a sua importância e a necessidade de que seja mantido.

Na foto, o grupo paraibano com o maestro Nelson Ayres e a cantora Mônica Salmaso no encerramento da temporada 2017.

No Sesc Pinheiros, o Quinteto da Paraíba vai receber quatro artistas que passaram pelo palco da Sala de Concertos Maestro José Siqueira, em João Pessoa: Nelson Ayres, Carlos Malta, Mônica Salmaso e Spok.

Segue o programa do concerto:

Prelúdio e Aria (Villa Lobos)

Mantiqueira (Nelson Ayres)

Veranico de Maio (Nelson Ayres)

Perto do Coração (Nelson Ayres) entra Malta

Naquele Tempo (Pixinguinha)

Lamentos (Pixinguinha)

Dininha (Pixinguinha)

A Vida é Um Buraco (Pixinguinha)

Carinhoso (Pixinguinha)

Chora Coração (Jobim/Vinícios) entram Salmaso e Ayres

Ciranda da Bailarina (Edu Lobo/Chico Buarque)

Reunião de Tristeza (Sivuca)

Porto de Araújo (Guinga/P. C. Pinheiro)

Meu Rádio Meu Mulato (Herivelto Martins) entra Spok

Moraes é Frevo (Spok)

Último Dia (Levino Ferreira)

Último Regresso (G. Cavalcante)

Frevo Sanfonado (Sivuca)

É de Fazer Chorar (Luiz Bandeira)

Gírias do Norte (Jacinto Silva/Onildo Almeida) entram todos 

BIS: Odeon (E. Nazareth/V. de Morais)

MULHERES

TODOR, CARRERO, WILMA, DINIZ, LARA, BENGELL

ANGELA DAVIS

ANNIE LEIBOVITZ

AUDREY HEPBURN

BEYONCÉ

BILLIE HOLIDAY

CLARICE LISPECTOR

CLEMENTINA DE JESUS

ELIS REGINA

GRETA GARBO

IVETE SANGALO

JANE FONDA

JANIS JOPLIN

JOAN BAEZ

LADY DI

LEILA DINIZ

MADONNA

MARILYN MONROE

MICHELLE OBAMA

NISE DA SILVEIRA

RITA LEE

ROSA PARKS

SÔNIA BRAGA

VALENTINA TERESHKOVA

YOKO ONO

ZILDA ARNS

Moacir Santos e os Beatles: I Want To Hold Your Hand tem o grito!

De vez em quando, Moacir Santos me telefonava.

Ele, em Pasadena, onde morava, na Califórnia.

Eu, aqui em João Pessoa.

Eram conversas intermináveis no tempo dos telefones fixos.

Que bom que eram!

Duravam horas.

A dificuldade de cantar o Hino Nacional.

Os modos litúrgicos em Luiz Gonzaga.

O prato que ele tocou num show dos Rolling Stones.

A sociedade teosófica.

Os afro-sambas: “Baden me incendiou!”.

Uma dessas conversas foi sobre músicas muito populares, canções, temas instrumentais.

A música que vai atravesando o tempo.

Os motivos que permitem que isso aconteça.

Perguntei sobre Sophisticated Lady, tema de Duke Ellington que depois ganhou letra.

Tenho grande admiração por esse standard.

Melodia, harmonia, letra, o encontro dos três elementos.

O maestro me disse que era uma canção perfeita. Simples assim. E cantarolou um pouco.

Smoking, drinking, never thinking of tomorrow, nonchalant.

E In The Mood?

Qual o segredo de In The Mood?

Parece sempre tão irresistível quando executada por uma big band.

A força extraordinária do ritmo, me disse Moacir sobre a música eternizada pela orquestra de Glenn Miller.

Já ouvira dele que o jazz era muito melhor do que o rock porque tinha células musicais mais desenvolvidas. E que, por esta razão, preferia o jazz.

Mesmo assim, perguntei pelo Beatles.

Afinal, ele também me dissera que alguma verdade mantinha o rock vivo por tanto tempo.

E I Want To Hold Your Hand?

Tão simples, quase tosca, se formos comparar com alguns standards da canção americana da primeira metade do século XX.

Qual o segredo de I Want To Hold Your Hand?

E lá vem Moacir:

O grito!

Ora, o grito!

A amizade de Moacir Santos foi um dos grandes presentes que a vida me deu.

O BEBÊ DE ROSEMARY

Por Antônio Barreto Neto

A melhor qualidade de O Bebê de Rosemary não é a irreverência ou o sarcasmo: é a ambiguidade. A história, extraída do best-seller de Ira Levin, vive dos mesmos ingredientes que alimentam todos os filmes de terror que tenham como tema a bruxaria. Mas a maneira ambígua como Roman Polanski narra essa história, levantando uma série de dúvidas para as quais não dá nenhuma explicação, é que torna o filme diferente da maioria das produções do gênero.

Os terrores de Rosemary (Mia Farrow) não seriam pura alucinação da personagem? Essa dúvida, ao nível da realidade dramática do filme, ainda não é a mais importante. A alucinação de Rosemary não seria uma sátira de Polanski à formação católica da personagem, cuja fé não lhe permite acreditar em bruxarias, ainda mais numa cidade do grau de desenvolvimento e civilização de Nova York? Todo o filme, por outro lado, não seria uma paródia feroz e debochada do nascimento do menino Jesus? Uma espécie de maculada conceição?

Essas dúvidas, que se alimentam e se entrecruzam entre si, não se esclarecem nem no final, quando Rosemary contempla seu bebê num berço de rendas negras, adorado pela seita, e chega a resistir ao horror de ser sua mãe, embalando o recém-nascido (o anticristo) com uma canção de ninar. Nesse caso, estaria Polanski elogiando o amor materno? Ou criticando a maternidade cega?

O que importa, porém, não são explicações. Afinal, não estamos diante de nenhum filme de terror da Hammer, onde o cientista-detetive tem que descobrir o esconderijo do vampiro para cravar-lhe uma estaca no peito. Importa o gênio diabólico de Polanski, que transformou cada linha do livro de Ira Levin numa imagem cinematográfica de grande força emotiva, carregando de alusões misteriosas cada atitude, cada gesto, cada olhar, que passam a significar, dentro do pesadelo em que vive a atormentada Rosemary, uma ameaça nova, uma inquietação a mais. (07/05/1972)

A publicação do texto faz parte de uma série em homenagem ao crítico paraibano Antônio Barreto Neto, que, se estivesse vivo, faria 80 anos no dia quatro de abril.

Vamos ler (ou reler) o crítico de cinema Antônio Barreto Neto?

Se estivesse vivo, o crítico de cinema Antônio Barreto Neto faria 80 anos daqui a 30 dias.

Ele morreu em março de 2000, pouco antes de completar 62.

Barreto Neto fez parte de uma geração ativíssima de críticos de cinema.

Na Paraíba, com atuação principalmente nas décadas de 1960 e 1970, ele era considerado o melhor.

Culto, amante da literatura, Barreto tinha texto impecável.

Em sua coluna, comentava os filmes que acabara de ver.

Muitas vezes, saía do cinema direto para a redação.

Suas críticas, gestadas assim, resistiram ao tempo pela qualidade do texto e pela sensibilidade do olhar de quem as escreveu.

Oito anos atrás, lancei, como organizador, uma compilação das críticas que Antônio Barreto Neto publicou em A União.

O livro se chama Cinema por Escrito, editado por Juca Pontes, com capa de Milton Nóbrega.

Cinema por Escrito traz textos que resistiram ao tempo sobre filmes que também resistiram.

Por isto, creio que pode ser lido com grande interesse por qualquer jovem cinéfilo.

Como homenagem a Barreto Neto, publicarei uma série de críticas dele aqui na coluna.

Tônia Carrero: uma imagem

Começo a semana com uma imagem de Tônia Carrero, que morreu no fim de semana aos 95 anos.

Tônia entre as atrizes que protestaram contra a ditadura na Passeata dos 100 Mil, no Rio de Janeiro, em junho de 1968.

Da esquerda para a direita: Eva Todor, Tônia Carrero, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara e Norma Bengell.