Vandré reencontra Caminhando em noite bela e melancólica

O que parecia improvável (ou até impossível) aconteceu.

Geraldo Vandré cantou Caminhando no concerto realizado com a Orquestra Sinfônica da Paraíba nesta quinta-feira (22) à noite, em João Pessoa.

A apresentação, que se repete nesta sexta (23) na Sala de Concertos Maestro José Siqueira, marca o retorno do artista aos palcos brasileiros, após uma ausência de 50 anos.

Não importa se você gosta ou não dele, mas Vandré é um mito da MPB que se projetou na era dos festivais, na segunda metade dos anos 1960, e quem pôde vê-lo quebrar esse longo silêncio foi de fato testemunha de uma noite histórica.

Vi Vandré de perto pela primeira vez na plateia de uma das noites do Projeto Pixinguinha de 1979. Naquela época, ele era arredio a qualquer abordagem que remetesse ao artista. Quem estava ali não era Vandré. Era Geraldo.

Esse conflito entre Geraldo e Vandré não foi resolvido pela passagem do tempo. Parece apenas mudar de intensidade.

Dois dias atrás, na entrevista coletiva que o artista deu no palco do concerto, o secretário Lau Siqueira o chamava de Geraldo. Mas era Vandré que estava ali.

Ele reencontrara o mito que muitos já disseram ter sido preso, torturado, até morto.

Nesta quinta-feira (22), todo vestido de branco, Geraldo Vandré (re) entrou em cena e soltou a voz que, embora carregue as marcas do tempo, ainda lembra a do passado. Um canto forte e emocionado dividido com Beatriz Malnic e acompanhado pelo violão de Alquimides Daera.

Daera troca o violão por uma viola, e Vandré declama.

Vai montando, ali, um impressionante retrato do artista quando velho.

A plateia ouve no mais absoluto silêncio. Entre a reverência e a incredulidade.

Outro dueto com Beatriz: À Minha Pátria. Parceria de Vandré com Manduka.

Vandré entrega o protagonismo da noite a Beatriz Malnic.

Ao piano, ela executa seis peças que os dois compuseram na década de 1980.

O Vandré erudito mantém os vínculos profundos com o Nordeste, a sua nave mãe.

A Orquestra Sinfônica da Paraíba e o Coro Sinfônico abrem o segundo ato do programa. sob a regência do maestro Luiz Carlos Durier.

Fabiana é marcial. E expõe o homem em suas contradições profundas. Do artista que legou Caminhando aos brasileiros ao cidadão que, de volta ao Brasil, construiu um inesperado vínculo com as Forças Armadas.

Atenção: às vezes eu troco de mãos, já avisara na coletiva da quarta-feira ao falar de esquerda e direita.

O programa segue com Mensageira (bandeira da Paraíba projetada no fundo do palco) e termina com Caminhando. Orquestra, coro e plateia.

Vandré, Beatriz e Daera voltam ao palco e fazem outra vez À Minha Pátria.

Uma bandeira do Brasil é colocada ao lado do piano.

O momento mais forte do concerto ainda estava por acontecer.

Daera “puxa” os dois acordes (um maior, outro menor) de Caminhando, e Vandré é levado ao que não estava no programa.

E o faz com absoluta consciência da grandeza daquele instante.

Você pode não gostar dos versos que convocam para a luta armada.

Você pode preferir Sabiá (eu prefiro), a linda canção de exílio de Tom e Chico.

Mas não há como não reconhecer o que há de belo e melancólico no Vandré que, aos 82 anos, reencontra Caminhando diante dos nossos olhos e ouvidos.

A plateia canta com ele. Alguns choram. Outros levantam o punho. Muitos dizem fora Temer. Em menor volume, Marielle presente.

O Brasil convulsionado de 2018 está ali.

Ainda que Geraldo Vandré não queira e, no final, com a bandeira nas mãos, bata continência para o amigo da Marinha que veio da Bahia só para testemunhar essa noite histórica.

Volta de Geraldo Vandré ao palco tem Caminhando no repertório

Geraldo Vandré volta aos palcos hoje (22) e amanhã (23) depois de um longo silêncio.

O compositor será homenageado e participará de dois concertos da Orquestra Sinfônica da Paraíba.

As apresentações serão na Sala de Concertos Maestro José Siqueira, no Espaço Cultural, em João Pessoa.

Caminhando está no programa distribuído ontem (21) durante a entrevista coletiva do artista.

Mas não está previsto que ele cante a música que levantou o público do FIC, 50 anos atrás.

O concerto terá dois atos.

No primeiro, a pianista Beatriz Malnic executará, ao piano, temas compostos por Vandré em parceria com ela.

São peças dos anos 1980:

Cantilena N0 2

Mais que Sonata

Cantilena N0 1

Interlúdio

Cantilena No 3

Tangará

Cantilena No 2 (final)

No segundo ato, a Orquestra Sinfônica da Paraíba e o Coro Sinfônico da Paraíba fazem quatro números:

Fabiana (Vandré)

Mensageira (Vandré)

À Minha Pátria (Vandré e Manduka)

Caminhando (Vandré)

Arranjos: Jorge Ribbas.

Regência: Luiz Carlos Durier

Geraldo Vandré diz que ainda é a puta mais cara do Brasil. Artista volta aos palcos nesta quinta

O compositor Geraldo Vandré está de volta ao palco.

Quinta (22) e sexta-feira (23), o músico será homenageado e participará de dois concertos da Orquestra Sinfônica da Paraíba na Sala Maestro José Siqueira, em João Pessoa.

Hoje (21) pela manhã, ele deu uma entrevista coletiva no palco onde ocorrerão as apresentações.

Foi um momento raro, incomum. E importante.

O homem (Geraldo) e o mito (Vandré) diante de um grupo de jornalistas, respondendo a tudo o que lhe foi perguntado.

Quando perguntei a Lau Siqueira sobre o valor do cachê que o governo está pagando a Vandré, o secretário de cultura tentou fugir da objetividade da pergunta que o jornalista faz em nome da transparência que deve guiar os governos.

Mas Vandré respondeu:

Ainda sou a puta mais cara do Brasil. 

Corte.

Lá fora, as pessoas cantam Caminhando, tristes porque não conseguiram os ingressos distribuídos gratuitamente no Espaço Cultural.

Geraldo age como o mito Vandré: baixa a cabeça, interrompe a coletiva e vai até elas. Todas muito emocionadas.

Na volta, Lau Siqueira responde que o artista está doando o cachê dele à Paraíba.

Uma pergunta crucial feita logo no início da coletiva: Vandré vai cantar?

A resposta dele: podemos fazer alguma coisa.

E cantou para seus entrevistadores. Foi um momento muito bonito. E forte.

Os temas do passado são inevitáveis. Agora misturados com os do Brasil turbulento de hoje, sobretudo quando a pergunta sai da boca de um jovem jornalista.

Antes de criticar a expressão canção de protesto:

Protesto é próprio de quem não tem poder e não sabe o que é poder. Quem tem poder exerce.

1968:

As Forças Armadas sabiam muito mais de mim do que eu mesmo. Por isso estou aqui. 

Esquerda e direita:

Atenção: às vezes eu troco de mãos. 

Legado:

A gente vai ver

Voto:

A última vez que votei foi no marechal Lott

Guitarras (ainda as guitarras):

O problema é a imagem da guitarra elétrica.

Quis ouvir a versão dele e perguntei: você disse a Gal Costa que Baby é uma merda?

Ele diz que sim e responde:

Já passou o tempo. Já secou. Saiu na urina. 

Deixei o Espaço Cultural pensando: acho melancólico que Geraldo Vandré não tenha retomado a carreira.

Não tenha se mantido em cena como fizeram seus contemporâneos.

Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo. Todos continuam ativos, 50 anos depois.

Nesse retorno, ao menos, Geraldo parece não estar negando Vandré.

LOUCURAS DE VERÃO

Por Antônio Barreto Neto

Há muito mais do que simples nostalgia a curto prazo nesta evocação semiconfessional de uma noite de verão de 1962. Na verdade, há em Loucuras de Verão o testemunho pungente do fim de uma era, quando as paixões da juventude eram o rock, os carros velozes, e a vida se resumia a uma quase desesperada procura de diversões. Sobretudo numa plácida cidadezinha da Califórnia, como a que habitam os personagens do filme de George Lucas, ele próprio, na idade dos seus personagens em 1962, um adolescente com as mesmas dúvidas, as mesmas inquietações, os mesmos problemas.

Lucas, hoje com trinta anos, mostra-se surpreendentemente sereno e lúcido na recriação dessa fase decisiva de sua geração. Em 1962, acabava-se o american dream, e o país começava a mergulhar no pesadelo do Vietnã. Nessa fase de transição, os jovens da geração de Lucas trocavam a insegurança dos sonhos adolescentes pela consciência das responsabilidades sociais. Essas mudanças bruscas, no indivíduo e no meio social, deixaram marcas profundas na geração dos anos 60. E são essas marcas que Loucuras de Verão evoca nostalgicamente, com serena e terna poesia.

O filme tem alguma coisa de Houve uma Vez um Verão, o belo ensaio poético de Robert Mulligan, e muita coisa de A Última Sessão de Cinema, do nostálgico Peter Bogdanovich. Deste, sobretudo, há nítidos vestígios no personagem do disc-jockey, que, como o dono do restaurante texano decadente interpretado por Ben Johnson, funciona como uma espécie de oráculo dos sentimentos da juventude. O disc-jockey, entretanto, ganha um sentido mais unificador e simboliza o mito do rock como expressão sentimental de uma geração. Uma geração que perderia a inocência com a explosão contestatória dos Beatles. E isso parece que foi ontem. (27/09/1975)

A publicação do texto faz parte de uma série em homenagem ao crítico paraibano Antônio Barreto Neto, que, se estivesse vivo, faria 80 anos no dia quatro de abril.

Xangai faz 70 anos

O nome é Eugênio Avelino.

O nome artístico, Xangai.

Cantor dos muito bons.

Uma voz a nos transportar a belezas que às vezes estão longe de nós.

Nesta terça-feira (20), ele faz 70 anos.

Conheci Xangai no Projeto Pixinguinha de 1979.

O formato do projeto era show com uma dupla e um convidado.

A dupla: Elomar e João de Aquino.

O convidado: Xangai.

Ficamos amigos.

Produzi seu primeiro show em João Pessoa (1980) e acompanho com admiração sua carreira.

Respeito muito suas escolhas, mesmo quando discordo delas.

Xangai é um daqueles artistas que correm por fora.

E o faz como opção, por convicção de que deve ser assim.

É uma necessária reserva de qualidade e independência.

Os que gostam ficaram felizes quando ouviram a voz de Xangai em Velho Chico porque, no fundo, torcem para que sua música chegue a um público mais numeroso.

Ou porque é importante tê-lo onde parece improvável que isto aconteça.

Mas a praia de Xangai será sempre outra.

Ele canta Elomar muitíssimo bem. Só não o faz tão bem quanto o próprio Elomar.

E tem um jeito de fazer a divisão que vem lá de Jackson do Pandeiro.

O disco de Xangai cantando paraibanos, acompanhado pelo Quinteto da Paraíba, é primoroso.

Muito antes, em Kukukaya, já declarara seu amor pelos daqui.

Vê-lo ao vivo é sempre uma alegria.

Um abraço saudoso pra ti, Eugênio Avelino!

The Dark Side of the Moon ainda é grande experiência sonora

The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, está fazendo 45 anos.

Ouvi-lo em 1973 era uma grande experiência sonora.

Lembro quando chegou às lojas e logo se incorporou às nossas discotecas.

Continha novidade.

Provocava impacto.

Antes da música, havia a capa, que depois se transformou em poderosíssimo ícone pop da segunda metade do século XX.

O disco do prisma – muita gente dizia assim para identificar o álbum do Pink Floyd.

As primeiras audições foram extraordinárias.

As batidas do coração no início e no fim, sugerindo que elas não param durante toda a audição.

Em seguida, as canções.

Breathe, Time, Money, Us and Them, Brain Damage, Eclipse.

Simples, mas cheias de adornos.

Os solos da guitarra de David Gilmour.

O sax de Dick Parry.

A voz de Clare Torry em The Great Gig in the Sky.

Ruídos, muitos ruídos e efeitos sonoros.

Sem interrupção.

Uma faixa colada na outra.

Para ouvir como se fosse uma sinfonia pop, uma suíte pop que se estende por 43 minutos.

Em 1967, os Beatles fizeram pioneiramente em Sgt. Pepper.

O Pink Floyd já vinha experimentando o formato.

Do psicodelismo ao progressivo.

Mas chegou ao ponto ideal quando gravou The Dark Side of the Moon em Abbey Road.

Atingiu o topo com o álbum.

E legou à história do pop/rock um dos seus discos mais importantes, mais brilhantes.

Consumido à exaustão, o disco foi banalizado e há de ter cansado muitos ouvidos.

Mas atravessou o tempo mantendo vivos todos os seus méritos.

No universo a que pertence, The Dark Side of the Moon é um monumento à perfeição.

Marielle e o déficit civilizatório que se vê nas redes sociais

O ministro Luiz Fux falou em déficit civilizatório nesta quinta-feira (15).

Ele disse que é o que há num ato como o assassinato da vereadora Marielle Franco, do PSOL do Rio de Janeiro.

Mas meu post não é sobre a fala do ministro Fux.

Quero apenas aproveitar a expressão dele – déficit civilizatório – para afirmar, também a propósito do assassinato de Marielle, que é isso o que se vê nas redes sociais.

Fiquei estarrecido e indignado.

Ontem, os haters de extrema direita ultrapassaram todos os limites permitidos pelos marcos civilizatórios.

Não há senso de humanidade, solidariedade, respeito.

Não há nas reações deles nada que possa ser considerado minimamente aceitável.

O que há é um retrato cruel do homem guiado pelos sentimentos mais sórdidos, menos compatíveis com o humano.

O ódio que move esses haters entre a mais feroz intolerância e a psicopatia nos faz pensar muito tristemente sobre o nosso destino como nação.

Os da minha geração não verão o Brasil reconstruído.

Tim Maia morreu há 20 anos

Nesta quinta-feira (15), faz 20 anos que Tim Maia morreu.

Um enfarte seguido de um quadro infeccioso tirou o artista de cena aos 55.

Não sei se é lenda ou realidade, mas é uma ótima história.

Uma vez, perguntaram a Tim Maia o que ele achava do seu sobrinho Ed Motta.

Tim respondeu: ele canta bem, mas precisa ser corneado.

O tio, certamente muito corneado, quis dizer que técnica não era tudo.

Era preciso ter feeling.

O feeling que ainda não havia em Ed Motta e sobrava em Sebastião, Tião, Tim Maia.

Sua vida foi uma sucessão de grandes loucuras.

Sua música é uma sucessão de grandes belezas.

A soul music que ele ouviu na América e transportou para o Brasil, promovendo fusões absolutamente improváveis.

Uma soul music brasileira na voz de um cantor maravilhoso.

Os primeiros discos são estupendos.

Hits e mais hits que atravessaram o tempo e permanecem irresistíveis.

A sua música sobreviveu a todos os excessos que cometeu, maculando tantas vezes a própria atuação profissional.

Tim Maia era tão bom, mas tão bom, que, até num surto religioso, produziu um disco como Racional, de 1975.

Certo estava Caetano Veloso quando o incluiu entre os que velam pela alegria do mundo.

Como precisamos deles!

Nonato Guedes é um mestre do jornalismo político

Nonato Guedes está fazendo 60 anos nesta quarta-feira (14).

Ele é um mestre do jornalismo político.

Trabalhamos juntos nos primeiros anos da TV Cabo Branco.

Eu chefiava a redação e editava o jornal da noite.

Ele era, na casa, o principal nome da política.

Apresentação (do Bom Dia PB, depois do Paraíba Meio Dia), entrevistas, comentários, análise de pesquisas eleitorais, mediação de debates, coberturas históricas (a posse de Ronaldo Cunha Lima, nossa primeira transmissão ao vivo).

Tudo isso era com Nonato.

E tudo o que fazia vinha com um selo de qualidade a garantir o conteúdo que colocávamos no ar.

Nonato Guedes é do time dos jornalistas que primam pela informação correta, pela análise equilibrada, pela ética na profissão, pela busca permanente do conhecimento, por um exercício diferenciadíssimo desse nosso ofício tão carente de grandes quadros como ele.

Tê-lo por perto enriquecia o ambiente em que trabalhávamos.

Numa campanha política, então, sua presença era imprescindível.

Estou falando de televisão porque foi onde estivemos juntos.

Mas Nonato brilhou também no rádio e sobretudo no impresso.

O colunismo político feito na Paraíba tem nele um dos seus pontos altos.

O pensamento lúcido traduzido em texto impecável. Vou resumir assim.

É o que ele sempre ofereceu aos seus leitores e permanece oferecendo, agora no jornalismo online.

Jornalismo político não é a minha praia, mas, se tenho algum discernimento nessa editoria, devo muito à convivência e ao que aprendi com Nonato Guedes.

Já disse certa vez e vou repetir: eu chefiava a redação, mas o professor era ele.