Yuri Gagarin, morto há 50 anos, misturou ciência com poesia

Nesta terça-feira (27), faz 50 anos que morreu o cosmonauta Yuri Gagarin.

Gagarin morreu num acidente aéreo aos 34 anos.

Lembram dele?

A Terra é azul.

Em 12 de abril de 1961, o cosmonauta Yuri Gagarin pronunciou a frase ao se transformar no primeiro homem que orbitou nosso planeta. Eu tinha dois anos, claro que não tenho nenhuma lembrança do feito, mas cresci ouvindo meu pai falar da sua importância científica, do seu significado histórico e da força poética da frase.

A Terra é azul. 

A simplicidade do comentário de Gagarin não destoa da dimensão do seu voo pioneiro. Antes, parece a mais perfeita tradução do impacto que aquela visão provocou. O planeta visto de fora, como ninguém o havia observado antes.

Yuri Gagarin foi um dos heróis da minha infância. Talvez o maior deles, numa época em que sonhávamos com a conquista do espaço.

Os soviéticos largaram na frente. Lançaram o primeiro satélite artificial (o Sputnik) em outubro de 1957. Colocaram animais em órbita da Terra (a cadelinha Laika foi e não voltou) e, por fim, um homem.

Os Estados Unidos demoraram um pouco mais, mas deram passos semelhantes até transformar John Glenn no primeiro astronauta americano a voar em órbita da Terra.

Meu pai era comunista e, naturalmente, torcia pelos feitos soviéticos. Mas o amor à ciência nunca o afastou dos americanos. Tanto que rastreou satélites para um instituto que fornecia informações à NASA.

Somente dois brasileiros participaram do programa de rastreamento: um padre em Minas Gerais e meu pai, que parava a rua onde morávamos, em Jaguaribe, para fazer suas anotações de altíssima precisão e dividir com nossos vizinhos a visão privilegiada: pontos luminosos que cruzavam o céu, como estrelas em movimento.

O que a NASA queria era saber se os seus satélites artificiais cruzavam o céu de vários países no momento exato em que isto deveria ocorrer. Com a tecnologia da época, não havia outro modo de saber, a não ser espalhando observadores por todo o mundo. Como meu pai, voluntário instalado num posto de observação de madeira que ele construiu no fundo do quintal com o dinheiro do décimo terceiro salário.

Os 50 anos da morte de Gagarin me levam a esta viagem sentimental pela década de 1960. E me remetem não só à sua frase, mas à que o americano Neil Armstrong pronunciou quando pisou o solo lunar pela primeira vez, em julho de 1969: um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade.

Oito anos separam uma da outra. De certa forma, se a de Gagarin abre, a de Armstrong fecha a década de 1960.

As duas podem fazer a síntese daquele tempo em que a Guerra Fria movia a corrida espacial.