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Ser de direita agora é moda. E a direita está cheia de imbecis

Ser de direita agora é moda.

Li mais ou menos assim num artigo de Hélio Gurovitz, colunista do G1.

Os imbecis, tirei de um outro artigo (de quem?, são tantos!) que li na grande imprensa.

Era sobre os imbecis mesmo e os absurdos postados nas rede sociais a propósito do assassinato da vereadora Marielle Franco.

Um pouco de memória.

Sou de um tempo em que as pessoas não assumiam que eram de direita.

Tinham vergonha.

Mas conheci direitistas muito interessantes.

O professor e artista plástico Archidy Picado era um deles.

Brilhante homem de direita.

Discutia política, ciência, filosofia, religião e arte com meu pai, que era de esquerda, em inesquecíveis noites de Jaguaribe.

Às vezes, achavam que a conversa era imprópria para as crianças e trocavam o português pelo inglês.

Se não estou enganado, o professor e poeta Vanildo Brito, que Archidy levava à nossa casa, era de direita.

Inteligência raríssima.

Se não estou enganado outra vez, Tarcísio Burity também era de direita.

Um intelectual que governou a Paraíba duas vezes e, verdadeiro amante da música erudita, proporcionou à nossa Orquestra Sinfônica os seus melhores momentos.

Por um período, sob a regência do maestro Eleazar de Carvalho.

Eleazar, além de grande maestro, sentava com a gente e contava histórias de Leonard Bernstein (que era de esquerda), seu amigo lá na América.

Já imaginaram?

Um luxo absoluto!

Estou falando de homens de direita que vi de perto.

Se for falar daqueles que nunca vi, posso resumir tudo em Nelson Rodrigues.

Adorabilíssimo reacionário, mestre da palavra escrita e, na crônica jornalística, na literatura e no teatro, extraordinário tradutor da condição humana.

Isso tudo, no tempo em que raros eram os que se assumiam de direita. Como Nelson.

Hoje, não.

Basta ir às redes sociais para constatar, em primeiro lugar, que virou moda ser de direita.

Mas uma direita contaminada pela imbecilidade.

Pela burrice.

Pelo ódio.

Pela falta de bons argumentos.

Pela ausência de bom senso.

Pela adesão a temas absolutamente indefensáveis.

Por uma desmedida agressividade.

Pior ainda quando são artistas talentosos que se converteram ao que há de mais rasteiro.

Ou jornalistas que não conseguem, por exemplo, chamar Lula de Lula, ou de ex-presidente.

Têm que recorrer às denominações mais grosseiras e incompatíveis com a civilidade.

Quanto tempo levaremos para que novos marcos civilizatórios nos guiem?

Tempo suficiente para que os da minha geração não alcancem.