LOUCURAS DE VERÃO

Por Antônio Barreto Neto

Há muito mais do que simples nostalgia a curto prazo nesta evocação semiconfessional de uma noite de verão de 1962. Na verdade, há em Loucuras de Verão o testemunho pungente do fim de uma era, quando as paixões da juventude eram o rock, os carros velozes, e a vida se resumia a uma quase desesperada procura de diversões. Sobretudo numa plácida cidadezinha da Califórnia, como a que habitam os personagens do filme de George Lucas, ele próprio, na idade dos seus personagens em 1962, um adolescente com as mesmas dúvidas, as mesmas inquietações, os mesmos problemas.

Lucas, hoje com trinta anos, mostra-se surpreendentemente sereno e lúcido na recriação dessa fase decisiva de sua geração. Em 1962, acabava-se o american dream, e o país começava a mergulhar no pesadelo do Vietnã. Nessa fase de transição, os jovens da geração de Lucas trocavam a insegurança dos sonhos adolescentes pela consciência das responsabilidades sociais. Essas mudanças bruscas, no indivíduo e no meio social, deixaram marcas profundas na geração dos anos 60. E são essas marcas que Loucuras de Verão evoca nostalgicamente, com serena e terna poesia.

O filme tem alguma coisa de Houve uma Vez um Verão, o belo ensaio poético de Robert Mulligan, e muita coisa de A Última Sessão de Cinema, do nostálgico Peter Bogdanovich. Deste, sobretudo, há nítidos vestígios no personagem do disc-jockey, que, como o dono do restaurante texano decadente interpretado por Ben Johnson, funciona como uma espécie de oráculo dos sentimentos da juventude. O disc-jockey, entretanto, ganha um sentido mais unificador e simboliza o mito do rock como expressão sentimental de uma geração. Uma geração que perderia a inocência com a explosão contestatória dos Beatles. E isso parece que foi ontem. (27/09/1975)

A publicação do texto faz parte de uma série em homenagem ao crítico paraibano Antônio Barreto Neto, que, se estivesse vivo, faria 80 anos no dia quatro de abril.