Moacir Santos e os Beatles: I Want To Hold Your Hand tem o grito!

De vez em quando, Moacir Santos me telefonava.

Ele, em Pasadena, onde morava, na Califórnia.

Eu, aqui em João Pessoa.

Eram conversas intermináveis no tempo dos telefones fixos.

Que bom que eram!

Duravam horas.

A dificuldade de cantar o Hino Nacional.

Os modos litúrgicos em Luiz Gonzaga.

O prato que ele tocou num show dos Rolling Stones.

A sociedade teosófica.

Os afro-sambas: “Baden me incendiou!”.

Uma dessas conversas foi sobre músicas muito populares, canções, temas instrumentais.

A música que vai atravesando o tempo.

Os motivos que permitem que isso aconteça.

Perguntei sobre Sophisticated Lady, tema de Duke Ellington que depois ganhou letra.

Tenho grande admiração por esse standard.

Melodia, harmonia, letra, o encontro dos três elementos.

O maestro me disse que era uma canção perfeita. Simples assim. E cantarolou um pouco.

Smoking, drinking, never thinking of tomorrow, nonchalant.

E In The Mood?

Qual o segredo de In The Mood?

Parece sempre tão irresistível quando executada por uma big band.

A força extraordinária do ritmo, me disse Moacir sobre a música eternizada pela orquestra de Glenn Miller.

Já ouvira dele que o jazz era muito melhor do que o rock porque tinha células musicais mais desenvolvidas. E que, por esta razão, preferia o jazz.

Mesmo assim, perguntei pelo Beatles.

Afinal, ele também me dissera que alguma verdade mantinha o rock vivo por tanto tempo.

E I Want To Hold Your Hand?

Tão simples, quase tosca, se formos comparar com alguns standards da canção americana da primeira metade do século XX.

Qual o segredo de I Want To Hold Your Hand?

E lá vem Moacir:

O grito!

Ora, o grito!

A amizade de Moacir Santos foi um dos grandes presentes que a vida me deu.