JESUS CRISTO SUPERSTAR

Jesus Cristo Superstar (de 1973).

A Paixão de Cristo por Norman Jewison, que filmou a ópera rock em Israel.

Jesus é Ted Neeley.

O ponto alto é a cena do Getsêmani, com o Cristo em desespero a conversar com o Pai.

A MAIOR HISTÓRIA DE TODOS OS TEMPOS

A Maior História de Todos os Tempos (de 1965).

A Paixão de Cristo por George Stevens.

Jesus é Max Von Sydow, para sempre associado ao cinema de Ingmar Bergman.

Na ressurreição de Lázaro, ouve-se a Aleluia de Handel.

NELMA FIGUEIREDO

Nelma Figueiredo morreu.

Dizer que ela foi uma das melhores jornalistas da minha geração pode ser um clichê, mas é absolutamente verdadeiro.

Dizer que ela lutou bravamente contra o câncer que a consumiu em menos de dois anos é outro clichê, mas foi exatamente assim.

Nelma enfrentou a doença com uma força singular.

Sabia, desde o início, que a cura era uma impossibilidade.

A luta era por mais tempo de vida.

Movida pela fé, tinha uma esperança que só se foi nas últimas semanas, quando entendemos que não havia mais nada a fazer.

Quando entendeu que a batalha estava perdida.

Na juventude, éramos assim, como nessa foto do tempo da universidade.

1983. Ou 1984. Parecíamos felizes.

O Brasil que estava mudando.

Os sonhos com um exercício digno da profissão que escolhêramos.

Nelma está no centro.

Tinha 19 ou 20 anos.

Era uma garota inquieta que morava no mesmo bairro que eu e me levava para as aulas noturnas de fotografia.

A partir de 1988 – ela com 24 anos, eu com 29 – juntamos a amizade com a parceria no campo profissional.

Convergimos muito.

Também divergimos.

Tivemos grandes desencontros afetivos e profissionais.

Daqueles que o tempo e a capacidade de perdoar resolvem.

E que parecem confirmar as verdadeiras amizades.

Não serei modesto: quando começamos, na TV Cabo Branco, fizemos jornalismo pioneiro. A televisão acabara de chegar a João Pessoa, e tínhamos consciência de que fazíamos história no jornalismo paraibano. Abríamos caminho para o que viria em seguida. Brigávamos pelo cânone, mas temíamos, com razão, muita coisa ruim que mais tarde contaminaria nossas telinhas.

Nelma amava a profissão.

Respirava notícia.

Era jornalista o dia todo, onde quer que estivesse.

Tinha predileção pela editoria de política.

Gostava de cobrir os bastidores do poder, os processos eleitorais.

Adorava conversar sobre os cenários e seus personagens em longos telefonemas.

Era repórter por excelência. Ágil, brilhante, com um feeling extraordinário.

Tinha orgulho do que fazia porque fazia muito bem.

Amava estar na rua com sua equipe.

Quando retornava à redação, corria para a ilha de edição para compartilhar comigo o que conseguira.

Comumente, ia além da pauta, trazia o melhor.

Nessa foto, de 2017, ela aparece tão bonita.

Mas estava triste.

Segurava uma barra que optou por dividir com poucos, poupando família e amigos.

Na tarde desta sexta-feira santa, descansou.

É outro clichê.

Mas foi assim mesmo.

Com Nelma Figueiredo, experimentei ter uma amiga a quem a gente pode dizer que ama.

E ouve que é amado.

Jesus ao Pai: leve-me agora, antes que eu mude de ideia

Leve-me agora

Antes que eu mude de ideia

O selo do compacto simples da MCA dizia:

From the opera-rock Jesus Christ Superstar, now in preparation.

No lado A, Superstar, na voz de Murray Head.

No lado B, John 19:41, com orquestra sinfônica.

Foi assim que tive acesso a Jesus Christ Superstar.

Depois, o trabalho completo de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice.

Jesus era Ian Gillan, o cantor do Deep Purple com seus incríveis falsetes.

Mais tarde, o filme.

Direção de Norman Jewison.

Ted Neeley como Jesus. Carl Anderson, Judas. Cantores maravilhosos.

O momento mais belo e forte do filme?

Gethsemane.

O Cristo no jardim das oliveiras, à espera do seu destino trágico, conversa com o Pai:

Sangre-me

Bata-me

Mate-me

Leve-me agora

Antes que eu mude de ideia 

UM DIA MUITO ESPECIAL

Por Antônio Barreto Neto

No dia 8 de maio de 1938, quando Hitler chega a Roma para firmar com Mussolini o pacto nazi-fascista, a população da cidade vai em peso às ruas participar da apoteótica recepção. Menos Antonieta (Sophia Loren), modesta e conformada dona de casa, que espera o sétimo filho e não tem empregada; e Gabrielle (Marcello Mastroianni), locutor da rádio oficial, despedido por indefinição política e homossexualismo, esperando para ser levado a um confinamento para rebeldes e diferentes, na Sardenha. O acaso une os dois num breve instante de liberdade como seres humanos.

Entre a mulher e o homem, nada em comum, exceto a solidão e a condição de vítimas, ambos, do machismo fascista. Relegada a uma simples máquina doméstica de produzir filhos para o regime, Antonieta sublima sua sexualidade na figura de Mussolini, o maschio número um. Com sua apatia política e suas tendências homossexuais, Gabrielle não podia ser “voz oficial” de uma ordem falocrática, fundada no mito da virilidade. Os dois, portanto, são vítimas do mesmo isolamento, da mesma repressão, do mesmo preconceito.

Um Dia Muito Especial é um filme muito especial. Opondo um banal drama psicológico a um contexto de sugestões políticas, o diretor Ettore Scola não subalterniza os elementos políticos desse drama, apenas aparentemente banal. Pelo contrário, o encontro fugaz mas intenso desses dois personagens é a realidade pungente que o filme revela por trás da farsa que está sendo encenada nas ruas, e que chega até o melancólico isolamento do casal trazida pelo rádio, uma espécie de contraponto sonoro de extraordinária força crítica. (07/01/1979)

A publicação do texto faz parte de uma série em homenagem ao crítico paraibano Antônio Barreto Neto, que, se estivesse vivo, faria 80 anos no dia quatro de abril.

Yuri Gagarin, morto há 50 anos, misturou ciência com poesia

Nesta terça-feira (27), faz 50 anos que morreu o cosmonauta Yuri Gagarin.

Gagarin morreu num acidente aéreo aos 34 anos.

Lembram dele?

A Terra é azul.

Em 12 de abril de 1961, o cosmonauta Yuri Gagarin pronunciou a frase ao se transformar no primeiro homem que orbitou nosso planeta. Eu tinha dois anos, claro que não tenho nenhuma lembrança do feito, mas cresci ouvindo meu pai falar da sua importância científica, do seu significado histórico e da força poética da frase.

A Terra é azul. 

A simplicidade do comentário de Gagarin não destoa da dimensão do seu voo pioneiro. Antes, parece a mais perfeita tradução do impacto que aquela visão provocou. O planeta visto de fora, como ninguém o havia observado antes.

Yuri Gagarin foi um dos heróis da minha infância. Talvez o maior deles, numa época em que sonhávamos com a conquista do espaço.

Os soviéticos largaram na frente. Lançaram o primeiro satélite artificial (o Sputnik) em outubro de 1957. Colocaram animais em órbita da Terra (a cadelinha Laika foi e não voltou) e, por fim, um homem.

Os Estados Unidos demoraram um pouco mais, mas deram passos semelhantes até transformar John Glenn no primeiro astronauta americano a voar em órbita da Terra.

Meu pai era comunista e, naturalmente, torcia pelos feitos soviéticos. Mas o amor à ciência nunca o afastou dos americanos. Tanto que rastreou satélites para um instituto que fornecia informações à NASA.

Somente dois brasileiros participaram do programa de rastreamento: um padre em Minas Gerais e meu pai, que parava a rua onde morávamos, em Jaguaribe, para fazer suas anotações de altíssima precisão e dividir com nossos vizinhos a visão privilegiada: pontos luminosos que cruzavam o céu, como estrelas em movimento.

O que a NASA queria era saber se os seus satélites artificiais cruzavam o céu de vários países no momento exato em que isto deveria ocorrer. Com a tecnologia da época, não havia outro modo de saber, a não ser espalhando observadores por todo o mundo. Como meu pai, voluntário instalado num posto de observação de madeira que ele construiu no fundo do quintal com o dinheiro do décimo terceiro salário.

Os 50 anos da morte de Gagarin me levam a esta viagem sentimental pela década de 1960. E me remetem não só à sua frase, mas à que o americano Neil Armstrong pronunciou quando pisou o solo lunar pela primeira vez, em julho de 1969: um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade.

Oito anos separam uma da outra. De certa forma, se a de Gagarin abre, a de Armstrong fecha a década de 1960.

As duas podem fazer a síntese daquele tempo em que a Guerra Fria movia a corrida espacial.

Ser de direita agora é moda. E a direita está cheia de imbecis

Ser de direita agora é moda.

Li mais ou menos assim num artigo de Hélio Gurovitz, colunista do G1.

Os imbecis, tirei de um outro artigo (de quem?, são tantos!) que li na grande imprensa.

Era sobre os imbecis mesmo e os absurdos postados nas rede sociais a propósito do assassinato da vereadora Marielle Franco.

Um pouco de memória.

Sou de um tempo em que as pessoas não assumiam que eram de direita.

Tinham vergonha.

Mas conheci direitistas muito interessantes.

O professor e artista plástico Archidy Picado era um deles.

Brilhante homem de direita.

Discutia política, ciência, filosofia, religião e arte com meu pai, que era de esquerda, em inesquecíveis noites de Jaguaribe.

Às vezes, achavam que a conversa era imprópria para as crianças e trocavam o português pelo inglês.

Se não estou enganado, o professor e poeta Vanildo Brito, que Archidy levava à nossa casa, era de direita.

Inteligência raríssima.

Se não estou enganado outra vez, Tarcísio Burity também era de direita.

Um intelectual que governou a Paraíba duas vezes e, verdadeiro amante da música erudita, proporcionou à nossa Orquestra Sinfônica os seus melhores momentos.

Por um período, sob a regência do maestro Eleazar de Carvalho.

Eleazar, além de grande maestro, sentava com a gente e contava histórias de Leonard Bernstein (que era de esquerda), seu amigo lá na América.

Já imaginaram?

Um luxo absoluto!

Estou falando de homens de direita que vi de perto.

Se for falar daqueles que nunca vi, posso resumir tudo em Nelson Rodrigues.

Adorabilíssimo reacionário, mestre da palavra escrita e, na crônica jornalística, na literatura e no teatro, extraordinário tradutor da condição humana.

Isso tudo, no tempo em que raros eram os que se assumiam de direita. Como Nelson.

Hoje, não.

Basta ir às redes sociais para constatar, em primeiro lugar, que virou moda ser de direita.

Mas uma direita contaminada pela imbecilidade.

Pela burrice.

Pelo ódio.

Pela falta de bons argumentos.

Pela ausência de bom senso.

Pela adesão a temas absolutamente indefensáveis.

Por uma desmedida agressividade.

Pior ainda quando são artistas talentosos que se converteram ao que há de mais rasteiro.

Ou jornalistas que não conseguem, por exemplo, chamar Lula de Lula, ou de ex-presidente.

Têm que recorrer às denominações mais grosseiras e incompatíveis com a civilidade.

Quanto tempo levaremos para que novos marcos civilizatórios nos guiem?

Tempo suficiente para que os da minha geração não alcancem.