As Muriçocas erraram feio quando se misturaram com políticos

2018.

Ano de eleição.

Lá vão os políticos para o meio do carnaval.

Pode ser legítimo, mas como é feio!

Dá voto?

Tira voto?

Toco nesse assunto por causa das Muriçocas do Miramar.

Afinal, amanha é quarta-feira de fogo.

Para mim, as Muriçocas perderam parte da graça que tinham quando se misturaram com partidos e políticos.

Vamos à história:

Fevereiro de 1987.

Na quarta-feira que antecedia o carnaval, fui abordado, nos corredores da TV Cabo Branco, pelo repórter Saulo Moreno. Ele sugeria a cobertura de um bloco novo que ia descer a Epitácio Pessoa numas carroças.

Mandei cobrir. Pouca gente. Nada indicava ainda que, ali, estava nascendo um fenômeno absolutamente espontâneo e muitíssimo importante para a vida da cidade de João Pessoa.

Desde então, como cidadão e jornalista, acompanho com grande interesse e muito respeito a trajetória do bloco e o papel que desempenhou na consolidação da prévia carnavalesca Folia de Rua.

Não é preciso recorrer a teses sociológicas para compreender o significado de manifestações como essa que nasceu no bairro do Miramar e conquistou uma cidade.

Conquistou como expressão verdadeira e genuína de um povo, com sua alegria fugaz, com a beleza de sua música.

Chegaram as eleições municipais de 2004. O bloco decidiu apoiar uma candidatura a prefeito. E desceu a avenida numa espécie de quarta-feira de fogo fora de época.

A convicção de que Ricardo Coutinho era o melhor candidato (como, de fato, comprovaria em sua muito bem-sucedida gestão) não me impedia de enxergar o equívoco.

O bloco não pertencia aos 60 (ou pouco mais) por cento de eleitores que votaram nele.

O bloco não pertencia nem aos seus fundadores.

O bloco pertencia ao povo de João Pessoa.

Não podia e não pode, portanto, permitir que, a cada campanha, seja qual for o candidato, se produza uma quarta-feira de fogo fora de época.

Partidos e políticos representam pedaços. Mesmo que grandes pedaços.

As Muriçocas do Miramar conquistaram o direito de representar o todo.

O todo é o povo de João Pessoa, que canta com orgulho o hino do bloco e se vê nos versos escritos por Fuba.

Esse vínculo da população com as Muriçocas é um patrimônio que não pode ser maculado por campanhas políticas.

Precisa ser preservado!