Teresa Cristina, uma verdadeira princesa do samba, faz 50 anos

Teresa Cristina é uma princesa do samba.

Creio que foi Caetano Veloso que a chamou assim.

Nesta quarta-feira (28), ela faz 50 anos.

Teresa Cristina surgiu na cena musical do Rio de Janeiro no fim da década de 1990. Ela e o Grupo Semente, o nome retirado do bar onde se apresentavam.

No início dos anos 2000, começou a se projetar nacionalmente com um CD duplo dedicado a Paulinho da Viola.

Ela e Paulinho, dois portelenses. Ela, oferecendo delicadas regravações dos sambas dele.

Teresa Cristina é uma cantora de samba que se permite caminhar para fora do universo do samba.

O título e o conteúdo de Melhor Assim já indicavam.

A confirmação mesmo veio no CD Teresa Cristina + Os Outros = Roberto Carlos.

Uma sambista e um grupo da cena indie relendo o repertório do Rei num disco de rock.

Teresa gosta de rock pesado e black music e, nela, convivem uma extraordinária reverência ao samba e uma notável liberdade para gravar outras coisas.

No CD/DVD ao vivo dedicado a Cartola, voltou às matrizes. Um compositor da Mangueira, uma cantora da Portela, o grande violão de Carlinhos 7 Cordas. Um encontro guiado pela música que representa o Rio e todos nós, brasileiros.

Depois, uma turnê internacional com Caetano Veloso, que é seu fã.

Agora, Teresa Cristina chega aos 50 com um disco produzido por Caetano.

Dessa vez, o escolhido é Noel Rosa.

Salve Teresa Cristina!

Viva o samba!

Carlos Drummond de Andrade verteu Beatles para o Português

Poesia é uma coisa, letra de música é outra?

Poesia tem um status que letra de música não tem?

Letrista de música popular não é poeta?

As respostas ficam para os acadêmicos. Não sou um deles.

Mas lembro que o Brasil tem um caso muito interessante: Vinícius de Moraes.

Sim. Vinícius era um poeta, no sentido acadêmico, que migrou para a música popular.

Fez as duas coisas. E como fez bem.

Em 1969, eu era um menino de 10 anos apaixonado pelos Beatles.

Um dia, meu pai pegou a revista Realidade (lembram dela?) e, com aquele jeito de quem sempre tinha algo a ensinar, me disse:

Carlos Drummond de Andrade, um dos grandes poetas da nossa língua, verteu letras dos Beatles para o Português! 

E lá estavam elas. Várias letras do Álbum Branco, que eu acabara de adquirir, traduzidas por Drummond (em foto de Evandro Teixeira).

Sempre lembro delas. Drummond traduzindo Beatles enriquece o debate sobre poesia e letra de música.

Há outras (Blackbird, Piggies, Ob-la-di Ob-la-da, etc.), mas transcrevo A Felicidade É um Revólver Quente.

É Happiness Is a Warm Gun, de John Lennon, que, no vinil, fecha o primeiro lado do Álbum Branco.

A FELICIDADE É UM REVÓLVER QUENTE

Até que essa garota não erra muito

oi oi oi oi oi oi oi oi

Acostumou-se ao roçar da mão-de-veludo

como lagartixa na vidraça

O cara da multidão, com espelhos multicores
sobre seus sapatões ferrados
descansa os olhos enquanto as mãos se ocupam
no trabalho de horas extraordinárias
com a saponácea impressão de sua mulher
que ele papou e doou ao Depósito Público.

Preciso de justa-causa porque vou rolando para baixo
para baixo, para os pedaços que deixei na cidade-alta,
preciso de justa-causa porque vou rolando para baixo

Madre Superiora dispara o revólver
Madre Superiora dispara o revólver
Madre Superiora dispara o revólver

A felicidade é um revólver quente
A felicidade é um revólver quente
Quando te pego nos braços
e meus dedos sinto em teu gatilho,
ninguém mais pode com a gente,
pois a felicidade é um revólver quente
lá isso é.

Anos mais tarde, ao compor Comentário a Respeito de John, Belchior usou o verso que dá título à canção de Lennon.

Mas, diferente do a felicidade é um revólver quente de Drummond, traduziu como a felicidade é uma arma quente.

Ficou assim:

John, eu não esqueço (oh no, oh no),

A felicidade é uma arma quente

Quente, quente

George Harrison deixou belas e melancólicas canções

Posto esse texto para lembrar que, neste domingo (25), se estivesse vivo, o beatle George Harrison teria feito 75 anos. Era o caçula do quarteto.

young-george-harrison

Numa banda em que o comando era disputado por John Lennon e Paul McCartney, para George Harrison, o mais discreto e também o mais místico dos quatro Beatles, só havia lugar de coadjuvante. Mesmo que ele fosse o guitarrista solo, como se chamava na época. No começo, quando os Beatles gravavam covers de outros artistas, Harrison fazia o vocal principal de algumas canções. Como “Chains” e “Roll Over Beethoven”. Depois, os discos do quarteto traziam uma música de sua autoria, ou duas. Três no “Revolver”. Quatro no “Álbum Branco” porque era duplo. John e Paul, trabalhando juntos ou separados, escreviam a maior parte das canções, e o maestro e produtor George Martin dava preferência a elas.

Há quem defenda o argumento de que, nos Beatles, George Harrison desempenhou papel semelhante ao de Brian Jones nos Rolling Stones. Com a diferença de que Brian foi aniquilado porque tentou ser o líder. George ficou meio à margem, mas, a despeito disto, o quarteto não pôde prescindir da sua contribuição. Foi ele que apresentou a música indiana aos companheiros de banda e ajudou a difundi-la no Ocidente. Não ouviríamos Ravi Shankar se não fosse George Harrison. Deve-se a ele a presença de um instrumento como o sitar em incontáveis manifestações musicais do mundo ocidental, não só no universo do rock. O mesmo sitar que aparece em algumas gravações dos Beatles.

harrison

George era melhor instrumentista do que John. Sua guitarra é muito marcante na produção do quarteto. No início, fortemente influenciada pelo rock da década de 1950, pelos solos criados por Chuck Berry e Carl Perkins. Depois, com cores próprias. O músico inventou o seu jeito de tocar o instrumento. Um modo choroso de se expressar. “Enquanto minha guitarra chora gentilmente”, diz o título da canção que gravou em 1968, no “Álbum Branco”, com solo não dele, mas do amigo Eric Clapton. Não tinha virtuosismo, mas era um perfeccionista. Um músico aplicado que criou belos solos para as canções dos Beatles.

Se fôssemos escolher uma música, diríamos que o melhor do autor está em “Something”. Foi composta sob inspiração de Ray Charles. A gravação dos Beatles beira a perfeição. O vocal de George, as vozes de John e Paul, o solo de guitarra, as notas graves do piano, o caminho percorrido pelo baixo, as cordas arranjadas e conduzidas por George Martin. Há muitos registros de “Something”. De Joe Cocker, cover branco de Charles. De Elvis Presley, de Frank Sinatra, que, uma vez, atribuíu a autoria a Lennon e McCartney. Nenhum supera o dos Beatles. Foi a única composição de Harrison a ocupar o lado A de um single do grupo.

Longe dos Beatles, George gravou o antológico álbum “All Things Must Pass”, seu maior feito. Reuniu os amigos no concerto para Bangladesh, precursor dos grandes eventos voltados para o combate à fome no mundo. Produziu pouco e se manteve distante do show business. Deixou saudades, além de belas e melancólicas canções.

Sexta de Música: Something em várias vozes

Se estivesse vivo, George Harrison faria 75 anos neste domingo (25).

Morreu aos 58, em 2001.

Na Sexta de Música, na CBN, conversei com o âncora Bruno Filho sobre Harrison e mostrei varias versões de Something, que muitos consideram sua melhor canção.

Segue o áudio:

Quinteto da Paraíba recebe Spok em belíssimo tributo ao frevo

Começou a temporada 2018 do projeto Quinteto Convida.

Neste sábado (24), na Sala de Concertos Maestro José Siqueira, em João Pessoa, o Quinteto da Paraíba recebeu o maestro pernambucano Spok para um (vamos chamar assim) concerto/aula sobre o frevo.

Foi um grande encontro de músicos em torno dessa extraordinária e genuína expressão artística e cultural nascida e criada em Pernambuco.

Com sua orquestra, a partir do início dos anos 2000, o maestro Spok se consolidou como um dos grandes nomes do frevo. E, sem retirar dele as marcas da tradição, renovou o gênero ao incorporar a improvisação jazzística.

Spok também levou o frevo para a sala de concertos. Sua orquestra se apresenta em festivais de jazz pelo mundo, levando a um público de gosto refinado a arte exuberante do povo do seu lugar.

Ontem, da sua orquestra, só havia no palco o guitarrista Renato Bandeira e o baterista Adelson Silva, este, verdadeira lenda viva do frevo.

Longe da formação de big band, o maestro experimentou um outro diálogo: com um quinteto de cordas composto por músicos de formação erudita que vivem no ambiente acadêmico.

Juntos, ofereceram ao público um irresistível concerto didático sobre a trajetória do frevo.

As origens, as modalidades, os grandes nomes, as composições absolutamente antológicas.

Spok foi o narrador dessa história. Ele assume o papel de professor desse concerto/aula e, entre uma fala e outra, mostra porque o pernambucano tem tantos motivos para se orgulhar do frevo.

Com seu sax alto e suas falas, o maestro também é um showman cheio de charme. Ele sabe disso e tira bom proveito.

Terminado o espetáculo, o maestro desceu para a plateia e foi ao encontro do público. Atendeu um por um, tirou fotos, conversou e tocou para que as pessoas cantassem, felizes e emocionadas, os frevos da predileção delas. Foi o segundo show da noite.

O Quinteto da Paraíba acertou mais uma vez.

Salve o projeto Quinteto Convida!

Quinteto Convida abre temporada 2018 com Spok e muito frevo

A temporada 2018 do projeto Quinteto Convida começa neste sábado (24) na Sala de Concertos Maestro José Siqueira, em João Pessoa.

O Quinteto da Paraíba receberá o maestro Spok num concerto às nove da noite.

O Quinteto e Spok fizeram um ensaio aberto na quinta-feira (22), no terraço da Associação dos Docentes da UFPB.

Quem viu sabe: o concerto de hoje à noite será um grande encontro de músicos e uma verdadeira aula de frevo.

No palco da Sala José Siqueira estarão:

Ronedilk Dantas – violino

Thiago Formiga – violino

Ulisses Silva – viola

Nilson Galvão – violoncelo

Xisto Medeiros – contrabaixo

Spok – sax alto

Adelson Silva – bateria

Renato Bandeira – guitarra

O repertório:

Clarins

Moraes é Frevo

Quem Sabe

Frevo em Goiana

Domingos no Poço

Dia de Frevo

No Coreto

Capenga

Odeon

Desculpe-me Nazareth

Canhão 75

Folião Ausente

Relembrando o Norte

Mexe com Tudo

Cabelo de Fogo

Cocada

Último Regresso

Frevo Sanfonado

Sabe Lá o que é Isso

Último Dia

Vassourinhas

É de Fazer Chorar

Wilson Simonal faria 80 anos nesta sexta-feira

Se estivesse vivo, Wilson Simonal faria 80 anos nesta sexta-feira (23).

Morreu aos 62 anos, em junho de 2000, destruído pelo álcool.

A vida de Simonal é um capítulo triste da história da música popular do Brasil.

O envolvimento dele com agentes do DOPS e o carimbo de delator a serviço da ditadura acabaram com a carreira de um artista popularíssimo.

Os seus esforços para recuperar o sucesso foram tão inúteis quanto são vãs as tentativas de filhos e amigos sempre que querem limpar a sua imagem.

A despeito do que aconteceu, Wilson Simonal foi um dos grandes cantores brasileiros.

Não há como retirar isso dele.

Cantando bossa, nos primeiros discos na Odeon, ou, mais tarde, comandando um negócio chamado de pilantragem, Simonal era um fenômeno.

Sabia cantar!

Naturalmente!

Como poucos!

Não importava o tipo de música. Nem o idioma.

E tinha um extraordinário domínio do palco.

O conjunto de discos que gravou na Odeon (hoje, reunidos numa caixa) continua a merecer nossas atenções.

Chico Limeira tem o direito de chamar Epitácio de trapaceiro?

Começo repetindo o que está no título do post:

O COMPOSITOR CHICO LIMEIRA TEM O DIREITO DE CHAMAR EPITÁCIO PESSOA DE TRAPACEIRO? 

Recorro, então, ao livrinho que Dr. Ulysses empunhou cheio de orgulho naquele outubro de 1988:

É LIVRE A EXPRESSÃO DA ATIVIDADE INTELECTUAL, ARTÍSTICA, CIENTÍFICA E DE COMUNICAÇÃO, INDEPENDENTEMENTE DE CENSURA OU LICENÇA. 

Também está no livrinho que deve nos guiar:

É VEDADA TODA E QUALQUER CENSURA DE NATUREZA POLÍTICA, IDEOLÓGICA E ARTÍSTICA. 

A resposta, portanto, está na Constituição.

Sim! Chico Limeira tem todo o direito de chamar Epitácio Pessoa de trapaceiro!

Como o fez na letra de Imprópria, vencedora do festival recentemente promovido pelo governo do Estado.

O mesmo direito que tenho de discordar dele. Como o fiz em texto publicado aqui mesmo.

Nesta quarta-feira (21), o assunto voltou com força às redes sociais.

Os que defendem Chico com unhas e dentes se mostraram indignados com o que diz um recorte de jornal: que entidades vão protestar contra o governo estadual por ter premiado uma música que chama Epitácio Pessoa de trapaceiro. E vão pedir o cancelamento da premiação.

O jornalista Wills Leal, envolvido com o protesto contra o compositor, foi acusado de ter ido a um bar, nos Bancários, intimidar Chico durante um show, para que este não cantasse a música premiada.

Quem conhece Wills sabe que, de truculento, ele nunca teve nada. Quero crer que não terá agora, que já passou dos 80.

Falei com Wills, com quem convivo desde os anos 1970, e ele disse que foi ao bar, sim, e que teve uma conversa cordialíssima com o artista.

Procurei o outro lado. Fiz várias ligações para Chico, mas ele não atendeu.

Ouvi de uma fonte ligada a ele que o compositor não está querendo publicizar o assunto.

E que os dois – Chico e Wills – devem se encontrar nos próximos dias numa entrevista coletiva ou num programa de rádio.

Nas redes sociais, amigos de Chico estão fazendo uma convocação para que Imprópria seja gravada num vídeo coletivo.

Uma espécie de we are the world made in PB, como alguém sugeriu.

A minha opinião?

Defendo a liberdade do artista e não concordo com nenhuma forma de censura a ele.

As entidades também têm o direito ao protesto, mas precisam ter cuidado para que não se transformem em censores.

O festival é oficial?

É, sim!

Foi realizado pelo governo do Estado através da Rádio Tabajara, Funesc, Secult, e o governador Ricardo Coutinho estava na solenidade de lançamento (foto) e na finalíssima em João Pessoa.

Algo impede o governo de premiar uma música que chama Epitácio Pessoa de trapaceiro?

Não!

Os realizadores do evento respeitaram a vontade do corpo de jurados e a liberdade do artista.

Simples assim.

Preciso desenhar?

Billy Graham era de Cristo. Bill Graham era do rock

A notícia da morte do pastor batista Billy Graham, nesta quarta-feira (21), me traz a lembrança do empresário do rock Bill Graham.

Afinal, os nomes são praticamente iguais.

BILLY Graham era o mais célebre pastor batista do mundo, conselheiro dos presidentes americanos, visto e ouvido por um sem número (milhões, muitos milhões!) de pessoas em suas pregações.

Morreu a meses de completar 100 anos.

BILL Graham foi, em seu tempo, o mais famoso empresário do mundo do rock. Administrou as duas unidades do Fillmore, verdadeiros templos da música, e trabalhou com artistas como Jimi Hendrix e Janis Joplin.

Morreu no início da década de 1990, aos 60 anos.

Egberto Gismonti está envergonhado com tanta safadeza!

A pergunta da vez é porque tanto roubo, tanta propina, tanta cara de pau e desprezo com o dinheiro público

Egberto Gismonti, um dos maiores músicos do Brasil, foi entrevistado por Julio Maria, do Estadão, a propósito de um show que vai fazer domingo em São Paulo.

Quando Julio Maria pergunta se o músico pensa em morar no exterior, Egberto Gismonti responde o seguinte:

Na realidade continuo cansado do Brasil que teima em não possibilitar paz, segurança e alegria para criarmos nossos filhos de forma segura, podendo desejar sonhos bons que possibilitem finais felizes. Como a maioria dos brasileiros, estou envergonhado com tanta safadeza mostrada e provada todos os dias nos meios de comunicação. A pergunta da vez é porque tanto roubo, tanta propina, tanta cara de pau e desprezo com o dinheiro público, com a falta de consciência de que precisamos dar um passo à frente para nos aproximarmos da realidade de sermos uma nação com equilíbrio social, respeito às diferenças, consciência na nossa miscigenação. Meu caro Julio, estou cansado da falta de certeza para sair de casa e voltar feliz. A vontade de sair é imensa! Pra onde? É o problema. Mantenho as dúvidas citadas por você na pergunta e acrescento que talvez, não tenho certeza, a nossa saída seja voltarmos para nossos interiores (geográficos, físicos, espirituais, poéticos, musicais, sociológicos, linguísticos, dialéticos, teatrais, cinematográficos, sonhador, inventor, criador, pensador, etc, etc.). 

O trabalho de Egberto Gismonti?

Está aí, como ele mesmo resumiu na entrevista ao Estadão:

70 discos, 27 balés, 32 filmes, 13 especiais de TV, 14 peças de teatro, 6 exposições de artistas como Franz Krajkberg, Akiko Fujita, Antonio Peticov, Marilda Pedroso.