DAVID BOWIE, 1947 – 2016

Se estivesse vivo, David Bowie faria 71 anos nesta segunda-feira, oito de janeiro.

Ouvi David Bowie na primeira metade dos anos 1970 com um amigo que, num surto psicótico, disse ter sido levado pelos marcianos. O amigo, nunca mais vi. A música de Bowie, só reencontrei nos 40 anos de “Ziggy Stardust”, em 2012. Desperdicei mais de 35 anos – foi a sensação que tive. Corri atrás, mas, claro, perdi o prazer do olhar contemporâneo, da audição do disco no instante em que é lançado. Como havia feito um pouco, porém menos do que desejava, com “Ziggy”, “Aladdin Sane”, “Pinups”, “Diamond Dogs”, “Young Americans” e “Station to Station”.

O David Bowie que me restou, entre o quadragésimo aniversário de “Ziggy Stardust” (ainda de devastadora beleza) e o dia em que amanheci com a inesperada notícia de sua morte, tem o sabor inevitável de uma descoberta tardia. Mas não ouvi-lo teria sido muito pior. Não tê-lo a enriquecer a minha discoteca equivaleria, de resto, a ignorar o óbvio: o significado do que sua música e sua figura (aliadas à performance no palco, ao cinema, à moda, ao comportamento, à ousadia, ao experimentalismo) representam para a cultura pop da segunda metade do século passado.

A tese tropicalista de entrar em todas as estruturas e sair (inteiro) delas, Bowie viveu intensamente em sua carreira. Do pop mais banal ao experimentalismo mais ousado. Até o jazz que norteara a excepcional “Sue”, de 2014, que remete ao Milton Nascimento de “Cais” e “Trastevere”. Se me perguntam pelo Bowie que prefiro, digo que é o dos anos 1970, talvez pelo gosto do olhar contemporâneo. Mas o melhor é ouvi-lo todo. Só o conjunto dará a dimensão do artista extraordinário que ele foi.