Herdeira da Bossa Nova, Joyce (Moreno) faz 70 anos

A compositora e cantora carioca Joyce faz 70 anos nesta quarta-feira (31).

Há algum tempo, Joyce Moreno, depois que passou a usar no nome artístico o sobrenome do marido, o grande baterista Tutty Moreno.

Joyce começou muito cedo. Sua estreia fonográfica foi no final dos anos 1960.

Mas ela só veio a se projetar nacionalmente a partir de 1979, quando participou, com a canção Clareana, do festival de MPB realizado pela velha TV Tupi.

Um ano antes, Milton Nascimento gravara Mistérios e, em 1979, Elis Regina chamou de Essa Mulher seu disco de estreia na Warner.

Milton e Elis, com suas vozes inigualáveis, chancelavam as canções de Joyce.

O resumo daquele momento está em Feminina, disco impecável de Joyce.

Joyce foi abençoada por Vinícius de Moraes.

E por Tom Jobim.

Ela é herdeira da Bossa Nova, embora frequente outras praias.

Compõe muito bem, tem bela voz, toca um violão inconfundível.

Confere jovialidade à Bossa Nova, esse negócio que há 60 anos revolucionou a música popular do Brasil.

Joyce Moreno também fez carreira internacional.

Sua música talvez seja mais ouvida pelos japoneses do que por nós, brasileiros.

Seu disco mais recente, Palavra e Som, lançado em 2017, é soberbo!

Imagem de Temer dando R$ 50 a Sílvio Santos é um escárnio!

Vi, incrédulo, a imagem do presidente Michel Temer dando R$ 50 a Sílvio Santos!

Não!

Não é fake!

Senti vergonha alheia (não é assim que se diz?)!

Um momento inacreditável da televisão brasileira!

Um instante revelador de como se faz política no Brasil!

Uma brincadeira que não vale nem como brincadeira!

Uma piada que remete às piores práticas do (s) governo (s) brasileiro (s)!

Um breve (mas expressivo) retrato do abismo em que fomos jogados fornecido, sem cerimônia alguma, pelo presidente da República!

Uma absoluta falta de noção (diriam os meninos e meninas de hoje)!

Um verdadeiro escárnio num governo sobre o qual paira um sem número de suspeitas sobre posturas nada republicanas!

Os 13 segundos a seguir dispensam qualquer comentário!

The Post não é um grande Spielberg, mas como é necessário!

Na redação, há uns bons dez anos, a editora me confessou que nunca tinha ouvido falar em Richard Nixon nem no escândalo de Watergate.

Fiquei surpreso e, com algum humor, fiz o seguinte comentário:

Se não houvesse nenhum outro motivo, haveria pelo menos o fato de que Nixon foi um presidente americano derrubado do cargo por dois “coleguinhas” nossos.

Toda vez que lembro dessa conversa, penso em filmes que os jornalistas deveriam conhecer.

Cidadão Kane, claro!, mas também A Montanha dos Sete Abutres, Rede de Intrigas, Todos os Homens do Presidente e alguns outros.

Agora mesmo, há no mercado brasileiro um box de DVDs da Versátil com filmes agrupados sob o tema Jornalismo no Cinema.

The Post, o novo filme de Steven Spielberg, junta-se a essa lista.

Eu tinha uns 14, 15 anos, quando fui ver, no lançamento, o primeiro filme de um jovem cineasta americano.

O filme, Encurralado.

O diretor, Steven Spielberg.

Lembro disso só para dizer que vi o Spielberg de Encurralado e de Louca Escapada antes que o sucesso de Tubarão jogasse um monte de interrogações sobre ele e o seu cinema.

O tempo passou. Uns 45 anos. Mas as interrogações permanecem.

Muitos ainda acham que o seu cinema é excessivamente comercial. É pouco sério. Peca por excesso de sentimentalismo.

Não concordo. Vejo Steven Spielberg como um mestre absoluto do seu ofício.

O problema é que ele faz parte de um grupo de cineastas que filmam muito e, por isso, erram mais.

Como John Ford e Alfred Hitchcock. Ao contrário de Stanley Kubrick ou Quentin Tarantino.

A obra, então, é um vastíssimo conjunto de grandes acertos e pequenos erros.

The Post é um Spielberg muito bom, mesmo que não se compare àquela meia dúzia de obras-primas que realizou.

Oportuno e necessário como contraponto às notícias falsas que abundam nas redes sociais.

Curioso. Vi The Post no mesmo dia em que, num vídeo, o compositor Chico César defendeu a falência das emissoras de televisão e dos jornais brasileiros.

Discordar da linha ideológica de um veículo é uma coisa. Desejar o seu fechamento é outra muito diferente. Pior ainda é ignorar a importância da imprensa que nós temos, do jeito que ela é, com todos os seus defeitos, no nosso tão frágil processo civilizatório.

Há alguns anos, em O Terminal, Spielberg construiu dentro de um aeroporto uma metáfora sobre os medos da América pós 11 de setembro. Fez parecido quando atualizou a ficção de H.G. Wells em A Guerra dos Mundos.

Agora, em The Post, contando uma história do início dos anos 1970 (a publicação de documentos secretos do governo americano), conversa sobre o presente ao exaltar conquistas da grande imprensa que estão ameaçadas tanto pelo terremoto digital quanto pela chegada ao poder de gente como Trump.

A liberdade de imprensa que o mundo conhece não é possível nos regimes autoritários. Só nas democracias (sólidas ou não) do ocidente.

O filme de Spielberg faz uma defesa explícita desse modelo.

Os jornais que ele toma como parâmetros (o Washington Post e o New York Times) são representantes da elite americana tanto quanto são, da elite brasileira, O Globo, o Estadão ou a Folha.

O tema do feminismo, que tantos enxergam, é tratado a partir da herdeira de um grande jornal e não de uma militante de esquerda. Katharine Graham e o editor Ben Bradlee são os personagens centrais da trama.

Robert McNamara é outro personagem importante do filme. O documentário Sob a Névoa da Guerra, de 2003, apresenta McNamara aos que ainda não o conhecem.

Para muitos da minha geração, há algo de melancólico em The Post: um certo romantismo no fazer jornalístico que, por ser anacrônico, devolve o filme à época em que a história se passa.

No final, fica a sugestão: vamos ver (ou rever) Todos os Homens do Presidente?

Vai ser prazeroso juntar Steven Spielberg com Alan Pakula!

“Ouvindo Chico, somos obrigados a crer no povo brasileiro”

Caetano Veloso, 75 anos.

Chico Buarque, 73 anos.

Caetano, esteticamente mais à esquerda.

Chico, ideologicamente mais à esquerda.

Caetano, em permanente flerte com as rupturas estéticas.

Chico, sempre mais conectado aos modos clássicos da canção popular do Brasil.

Caetano e Chico, dois gigantes da música popular brasileira.

Na era dos festivais, os tropicalistas não gostavam do bom mocismo de Chico.

E os fãs de Chico não assimilavam a retomada da linha evolutiva da MPB proposta pelo Tropicalismo.

Os dois trataram de calar as “torcidas” em 1972, quando se juntaram para um show histórico no Teatro Castro Alves, em Salvador.

O eu quero que você venha comigo, de Caetano, nunca mais foi desassociado do todo dia ela faz tudo sempre igual, de Chico.

Aos 75 anos, Caetano Veloso está na estrada com os filhos.

Aos 73 anos, Chico Buarque está de volta aos palcos após uma ausência de cinco anos.

Ali parece que o Brasil chega finalmente a merecer a bossa nova

Caetano foi ver o show de Chico no Rio e usou as redes sociais para publicar esse texto que transcrevo:

Fiquei extasiado, não somente porque estávamos diante de um artista imenso que nos deixa esperando anos para vê-lo atuar; nem apenas porque os lindos versos de “Caravanas” trazem “suburbanos como muçulmanos do Jacarezinho a caminho do Jardim de Alá”; nem só porque o cenário de Hélio Eichbauer, com esfera armilar esboçando assimetrias a partir do sistema concêntrico, estende suas cordas de assinatura a uma complexidade de rede de ondas, movimento e poesia; nem mesmo porque “Massarandupió” traz a rica música que habita o coração de Chico Brown. Ou porque o repertório contenha sucessos cantados pela multidão e que estes sejam todos posteriores aos clássicos que fincaram Chico no lugar que ocupa em nossas vidas: não há “Quem te viu, quem te vê”, “Carolina”, “Januária”, “Samba do grande amor” ou “Noite dos mascarados” – nem pensar em “Pedro Pedreiro” ou “Olê olá”: para um cara da geração de Chico, o repertório é todo de coisas novas, a maioria datando de quando ele entortou seus caminhos harmônico-melódicos, toreou suas rimas (justo quando um idiota da imprensa disse que não ouviria seu novo disco por já saber o que iria encontrar: era um erro perfeito). É uma exuberância. Os arranjos de Luiz Cláudio levam ao máximo a elegância musical que ele sempre apresenta. Mas a força vem de como tudo isso foi estruturado dentro da concepção bossa nova. Um homem de voz pequena e anasalada domina o universo, rodeado por sons econômicos e profundos, equilibrados e misteriosos. Da forma dos arranjos (que contam com o canto perfeito de Bia Paes Leme) à política de volumes da amplificação (finalmente um show que não rompe nossos tímpanos toma toda a grande sala de difícil acústica!), tudo funciona para expor a realização da bossa nova, do seu essencial. É a vitória da bossa nova verdadeira, sua vingança, sua definitiva consagração, desmentindo a sensação de que o Brasil não se respeita: ao contrário, ali parece que o Brasil chega finalmente a merecer a bossa nova. E nada disso seria possível sem a lealdade de Chico à prosódia irretocável, à rima que vem com a ideia, à melodia que homenageia a tradição e amadurece para quase se desmelodizar. Ouvindo Chico assim, somos obrigados a crer no povo brasileiro.

Moraes Moreira e Iza atualizam velho sucesso do carnaval baiano

Eu sou o carnaval em cada esquina

Do seu coração (menina)

Lembram?

Eu Sou o Carnaval.

Melodia de Moraes Moreira sobre letra de Antônio Risério.

Está no disco do Trio Elétrico Dodô & Osmar de 1979 e também em Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira, LP que Moraes lançou naquele ano.

Foi grande sucesso no carnaval baiano de 1980, quando ainda não havia axé music.

Vamos reouvir a gravação de Moraes?

Agora, quase 40 anos depois, a música reaparece totalmente atualizada numa gravação de Moraes Moreira e Iza.

Parece que é nova e que foi feita para ter essa “pegada” contemporânea.

A gravação foi lançada esta semana nas plataformas digitais.

Gostei muito, apesar do limitadíssimo desempenho vocal de Moraes.

Os elementos incorporados ao velho hit carnavalesco não tiraram a beleza do original.

Vamos ouvir?

O Brasil não é para principiantes

Nesta quarta-feira (24), lembrei de Antônio Mariz.

Em outubro de 1992, quando foi escolhido relator, no Senado, do processo de impeachment de Fernando Collor, ouvi dele a seguinte frase:

O país vive o instante trágico do afastamento de um presidente.

Lembrei de Mariz, ontem, ao ver nas redes sociais manifestações de grande júbilo pela confirmação (com ampliação da pena) da sentença de condenação do ex-presidente Lula.

Atualizada, a frase de Mariz seria assim:

O país vive o instante trágico da condenação de um ex-presidente.

Penso que não há o que comemorar. Mesmo pelos que são contra Lula.

Mas esse post é sobre Tom Jobim (em foto de Evandro Teixeira).

Se vivo fosse, ele faria 91 anos nesta quinta-feira (25).

O nome completo: Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim.

O nome artístico que gostava de usar: Antônio Carlos Jobim.

O nome que todos usam: Tom Jobim.

O que Chico Buarque usou na letra de Paratodos: Antônio Brasileiro.

Novamente Chico: Maestro Soberano.

Tom Jobim é o maior compositor popular do Brasil.

Nascido no Rio de Janeiro, Jobim se debruçou sobre o samba, grande expressão da música popular do Brasil.

Sua versão do samba carioca é, a um só tempo, popularíssima e (harmônica e melodicamente) complexa.

Como nas outras “praias” que visitou. Modinha, valsa, toada, baião, frevo – há uma marca de excepcional qualidade em tudo o que fez.

Seu vasto cancioneiro permanece vivo e atual como documento sonoro do país que nunca deixou de ser uma promessa de vida em seu coração.

Tão permanente e atual quanto as suas canções é a frase de Jobim que escolhi para fechar o post:

O Brasil não é para principiantes.

Armandinho é grande nome do carnaval brasileiro

Armando Macedo.

Armandinho.

A primeira lembrança que tenho dele é em A Grande Chance. Ele, adolescente. Eu, menino. Armandinho e seu bandolim.

O compacto com a sua passagem pelo programa de Flávio Cavalcanti me foi apresentado depois pelo professor Rubens de Azevedo, que dirigiu o Observatório Astronômico da Paraíba.

Vi Armandinho ao vivo pela primeira vez acompanhando Moraes Moreira na caravana Setembro, em 1975.

Àquela altura, já conhecia o disco do jubileu de prata do Trio Elétrico Dodô & Osmar.

Armandinho é filho de Osmar. Osmar Macedo, um dos inventores do trio.

Armandinho ficou muito conhecido no grupo A Cor do Som. Mas as minhas audições da sua guitarra (baiana ou não) são principalmente dos discos do trio elétrico. Velhos discos da Continental, hoje não disponíveis em CD.

Faixas instrumentais, faixas cantadas por Moraes Moreira. Frevos e mais frevos. Lindos. Modernos. A reinventar o frevo pernambucano.

Armando Macedo é um virtuose do seu instrumento. Ou dos seus instrumentos. Bandolim, guitarra, guitarra baiana.

Andei reouvindo A Cor do Som. O choro brasileiro revisto. Espírito Infantil. Assanhado, de Jacob, com uma outra “pegada”. Ficou meio rock. Mas a harmonia original já é meio rock, não é?

Também há muito Armandinho para ouvir nos quatro primeiros discos de Moraes Moreira.

Fecho com Armandinho fazendo um medley de frevos num programa da TV Cultura.

O frevo pernambucano é a mais bela música de carnaval

Quando pensamos na tradição da música de carnaval, três gêneros nos ocorrem: a marchinha, o samba-enredo e o frevo.

Há outros, mas esses são os principais.

Qual o que você prefere?

Eu prefiro o frevo.

Musicalmente, é o mais rico, o mais refinado. A despeito de ser música feita para dançar. De preferência, na rua.

E qual é o mais belo de todos os frevos?

Escolhi dois. Um frevo de rua e um frevo-canção.

Vamos ouvi-los? Ambos com Antônio Nóbrega, esse grande artista pernambucano.

Último Dia – de Levino Ferreira. Considero o mais belo dos frevos instrumentais.

Evocação No 1 – de Nelson Ferreira. Na minha opinião, o mais belo frevo-canção.

Funk mostra que Caetano Veloso, aos 75, permanece atual e ousado

Há 35 anos, Gilberto Gil bradou:

Funk-se quem puder

É imperativo dançar

Sentir o ímpeto

Jogar as nádegas

Na degustação do ritmo

Há 20, Chico Buarque cantou:

Hoje tem baile funk

Tem samba no Flamengo

Há 12, o mesmo Chico cantou:

Dança teu funk, o rock, forró, pagode, reggae

Teu hip hop 

No ano passado, Chico deu clara indicação de que não está alheio ao funk carioca quando convidou Rafael Mike, do Dream Team do Passinho, para participar da gravação da música As Caravanas.

Bem antes, Caetano Veloso compôs e gravou o Funk Melódico e fez Miami Maculelê para Gal Costa cantar:

Era dança de alegria

Putaria e coisa e tal

Por que você vem com santo

Anjo e galera do mal? 

No show que agora está fazendo com os filhos Moreno, Zeca e Tom, Caetano apresenta uma música inédita.

É o funk Alexandrino.

Vejam a letra:

1, 2, 3, 4
1, 2, 3, 4
1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12!
1, 2, 3, 4
1, 2, 3, 4
1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12!

Alexandrino
Alexandrino
O baile é livre pra novinha
E pro menino
Alexandrino
Alexandrino
O baile é livre pra novinha
E pro menino

1, 2, 3, 4
1, 2, 3, 4
Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac
1, 2, 3, 4
1, 2, 3, 4
Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac

Moça bonita

Moça bonita, Lucas e vigário geral

Moça bonita (Lucas)
Vigário geral!

Lucas e vigário geral
Lucas vigário geral

E vejam o vídeo:

Lembro dessas coisas quando vejo pessoas de matizes ideológicos diversos horrorizadas com o funk.

Umas se prendem mais a questões de ordem moral.

Outras invocam mais a má qualidade.

Penso que a recusa ao funk envolve muito preconceito.

E remete ao nosso apartheid social tanto quanto a letra de As Caravanas.